FIZ UM FOGUETE IMAGINANDO QUE VOCÊ VINHA (2026) – UMA BOA VIAGEM
Neste último ensaio/crítica da nossa cobertura do 15º Olhar de Cinema, teremos o prazer de pensar e sentir um pouco do vencedor do Prêmio Olhar de Melhor Filme dentro da Competitiva Brasileira do festival.
Por coincidência, assisti ao longa cearense no último dia do evento, uma hora antes dele ser anunciado como detentor da maior conquista possível do maior e mais importante festival de cinema de Curitiba.
Fiz um foguete imaginando que você vinha (2026), como a própria diretora Janaína Marques descreveu, é um filme solar, de muito calor, que trouxe um pouco de sol para aquele dia frio na cidade. A intenção da obra não poderia ser melhor resumida: “muitas vezes a saída é olhar para dentro”.
Rosa não nos situa. A protagonista é a mudança, ausência, confusão. Entre a cirrose do pai e a ressonância que parece um lançamento de foguete, sua mãe, Dalva, é a certeza louca de que as coisas podem dar certo de maneira errada, ela olha para o mapa e nos leva para viajar.
Somos enviados numa trajetória de múltiplos ridículos, nos quais o delírio nos forja incessantes confusões. Um assalto realizado e depois desfeito, um furgão de dogão com um completo prensado em cima do teto, apontando para o alto como um míssil de carne processada.
Tudo é estúpido, como devem ser os bons momentos. Rosa estava vendendo tudo, pra longe do ex-marido e de sua antiga vida. Sua mãe é o impulso, quase uma mediação de Id para dar vazão às repressões, guiando o caminho sem nunca apontá-lo. Para buscar aquilo que falta em Rosa, e como tudo que falta, fazemos nossas próprias versões das ausências.
Chegamos a duvidar do que vemos, mas nunca do que sentimos, a completa vitória da subjetividade é exaltada pelo culto ao absurdo. O tiroteio de um tiro no quarto do hotelzinho, os diálogos ao contrário, revertidos. Como se o mundo girasse em outros ritmos. Somos perdidos pois aquilo que buscamos dentro de nós está distribuído para todos os lados, mesclado nos desejos, repulsas, cópias, sentimentos. Dalva permite que o mundo se mova sem causas e consequências, uma trickster, fluindo do absurdo para momentos de reflexão e introspecção.
Entre o sangue latino, o som da plateia, as lembranças de como os melhores dias da vida poderiam ter existido se a vida tivesse sido diferente. Tanta especulação, tanto nada, tanto sofrimento. Como sofremos mais por tudo que nunca aconteceu.

E, com isso, as memórias, as lembranças, são dados no espaço, reimaginadas como objetividade e subjetividade. A imagem-delírio é uma terapia contra a sociedade misógina e seus julgamentos de qualquer ato feminino.
No mundão, você vale o que tem, e como fica o que não tem? Você corre atrás. Se veste com as mesmas roupas de sua mãe e pinta o cabelo da mesma cor que o dela. Tudo para ser ela? Não, para tê-la presente de alguma maneira. E nisso temos uma seleção de memórias da mãe, uma reunião de fragmentos nos quais cada um conta um pouco sobre o que se é ou talvez tenha sido.
E nada pode parar o amor. Seja na cena artificial de um date, seja no casamento simples, na união de duas vidas independentemente das condições materiais. Rosa quer ir atrás disso, da felicidade de sua mãe após seu pai, da felicidade que ela pode ter após seu ex-marido. Se relaciona com uma mulher na passagem, enquanto reflete quem dita suas próprias vontades.
No deserto, sem outro, só o eu. Quando nos isolamos só podemos conversar com nós mesmos, ou delirar, o que muitas vezes é só projetar pra falar consigo mesmo. Sua ilusão de Dalva não se comunica mais. Entre o santuário, a prótese e o amor. A história de Dalva parece mais próxima para Rosa, como se as coisas se encaixassem pela cola dos sentimentos.
Rosa usou a mãe para dar vazão em seus desejos, em seus conflitos, traumas. As estrelas estão lá, precisamos acreditar que estejam, assim como fazemos com as pessoas, mesmo que já tenham se tornado fantasmas há muito tempo.
Olhar para cima e para trás não trará as respostas sempre, andar em frente importa. E nisso o filme apresenta toda uma dimensão de personagens que funcionam como essas projeções subjetivas que não são as coisas que Rosa precisa lidar, mas que fazem ela lidar. As lembranças e potências reprimidas são fantasmas que retornam com mais ou menos energia esporadicamente.
A afinidade ao encontrar o amor da mãe, onde ela depositou seus melhores anos de vida. “Você é a cara da sua mãe”, e descobre como essa está em todo lugar, com suas cinzas espalhadas por todo canto. Se lembra de uma memória feliz. Chove muito.
Um foguete na infância, assobia sangue latino que a mãe tanto cantava.
Contagem regressiva.
5, 4, 3, 2, 1…
Boa viagem.
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Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (PPGCOM-UFPR), vinculado à linha de pesquisa Comunicação e Cultura; Mestre em Comunicação (PPGCOM-UFPR); Bacharel em Publicidade Propaganda (UFPR). Integrante do NEFICS - Núcleo de Estudos de Ficção Seriada e Audiovisualidades (UFPR/PPGCOM-UFPR/CNPq). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE). Bolsista CAPES-DS. Escritor, Roteirista e Redator. Autor da coletânea de contos "O Insosso e o Insólito entre os Pinheirais". Escritor da Revista Película (ISSN: 3085-6183). Pesquisador nas áreas de: Comunicação; Cinema; Cultura; Narrativas Audiovisuais; Narrativas Midiáticas e Comunicação Política.
