A ARMA DE TCHEKHOV EM OBSESSÃO (2026): COMO O SETUP PODE AJUDAR NA CONSTRUÇÃO DE ENREDO
“Nunca se deve colocar um rifle carregado no palco se ele não for disparar” (Tchekhov, 1889 apud Bill, 1987, p. 78, tradução própria). Essa é a famosa frase do escritor e dramaturgo russo Anton Pavlovitch Tchekhov que deu origem ao conceito homônimo, a arma de Tchekhov. A princípio, a noção é um tanto autoevidente: você, escritor, deveria manter no papel somente o que for relevante para a história. Não somente isso, mas deveria deliberadamente excluir aquilo que não serve à história, afinal, “quanto menos escrever, mais vezes será publicado. A brevidade não estraga nada. Uma borracha esticada não apaga melhor as palavras do que uma borracha não esticada” (Tchekhov, 1885 apud Do Amaral Prudencio, 2024, p. 303). Nessa aparente obviedade, Tchekhov esconde uma outra grande artimanha narrativa, elaborada posteriormente em suas correspondências e que pode ser magistralmente exemplificada no mais recente megassucesso da bilheteria de terror, o filme independente Obsessão (2026).
A arma de Tchekhov, para além de um princípio guia determinante de manter somente o que é útil, busca construir uma estrutura narrativa em que as coisas são primeiramente preparadas, depois executadas. O conhecido Setup e Payoff. “Se no primeiro ato você pendurou um rifle na parede, então no segundo ou no terceiro ato ela deve ser disparada. Caso contrário, não a coloque lá” (Tchekhov, 1889 apud Bill, 1987, p. 78, tradução própria). É claro que aqui Tchekhov está falando de um rifle, mas o conceito não está somente atrelado a armas de fogo. A ideia geral é que, se existe um elemento que terá um grande impacto na sua história, é importante que o espectador tenha conhecimento prévio.
Seja um artefato, seja uma falha de personagem, seja uma arma na parede, um relógio de ouro (quem gosta de Pulp Fiction levante os braços) ou um vislumbre de um velho chinês que finge ser aleijado para enganar trouxas (que grande truque!) — o importante é deixar a audiência ciente do seu pequeno segredo, mesmo que ela não consiga interpretar a sua importância no momento em que o vê. A artimanha funciona, pois, promete algo para o espectador (mesmo em situações em que ele não tenha plena ciência disso) e cumpre a promessa, dando a sensação de uma progressão orgânica e lógica dos fatos — além de, em alguns casos, uma noção de que, se ele estivesse realmente prestando atenção, teria alguma capacidade de prever a solução dos conflitos principais.
Em Obsessão (2026), a resolução do filme é baseada inteiramente no setup providenciado por uma das primeiras cenas. Quando vemos o gato de Bear morto após tomar os medicamentos da avó, não damos muita importância. É triste, mas não é exatamente o tipo de coisa que tende a chamar muita atenção em um filme de terror. Ali, contudo, jaz a solução para o enredo — as pílulas mortais da avó —, um bom susto macabro que irá acontecer uns trinta minutos depois — o sanduíche de gato morto — e a estranheza de Bear ao lidar com situações comuns — afinal, quem joga a carcaça morta do seu melhor amigo peludo no lixo?

Com uma cena, Barker preparou três pontos fundamentais do enredo. E não para por aí, o primeiro ato inteiro do filme constrói para que o segundo e o terceiro possam executar. Ian, o amigo, dando conselhos terríveis; o estilo casual de Nikki; a afetividade um pouco exagerada de Sarah; a incapacidade de Bear comprometer-se a uma decisão; a posição da vendedora da loja de bugigangas quanto ao retorno dos desejos; o funcionamento do One Wish Willow descrito na caixa; o livro que Nikki está escrevendo. Nem tudo terá o mesmo impacto narrativo, mas cada um desses pontos — e muitos outros — será depois destrinchado ao longo da história.
Os conselhos horríveis de Ian serão explicados pelo caso amoroso que ele desejava manter (em vigor e em sigilo) com a amiga; o estilo das roupas de Nikki mudará conforme o desejo vai tomando conta de sua existência; a afetividade de Sarah desdobra-se em um interesse amoroso e uma das cenas mais brutais do filme; a incapacidade de Bear é o alicerce para o segundo e o terceiro ato, justificando parte da inatividade e falta de vontade para resolver o problema que ele mesmo causou; o papo da vendedora e a caixa do produto preveem o desastre e a impossibilidade de resolução do mesmo; o livro de Nikki abre espaço para um monólogo bizarro e assustador. E…
Enfim, acho que você entendeu o ponto. O filme inteiro é baseado na construção e no cumprimento de diversas promessas que, claras ou não, definem os rumos da narrativa. Se estivesse vivo, Tchekhov sentiria-se orgulhoso. A Arma tornou-se um pedaço de pílulas e um punhado de outras coisas não tão ameaçadoras, mas com poderes construtivos similares.
No terror, essa ideia de setup e payoff é fundamental. Seja para construir atmosfera ou subverter os clichês do gênero, não há terror sem suspense e não há suspense sem a criação prévia de uma situação na qual a audiência fique apreensiva. O som some, a tevê da sala de estar mostra que um fugitivo altamente perigoso fugiu de uma das prisões de máxima segurança perto da região, a câmera subitamente foca na janela entreaberta do quarto principal, um estalo vem dos fundos e…
Você decide se o que sai da moita é um homem desgrenhado empunhando uma faca ou um guaxinim fofinho segurando um pedaço de lixo. O ponto é o mesmo. Cada enfoque específico sugere algo e o contexto geral determina que aquele conjunto de faculdades será entregue de determinada maneira. É óbvio que esse é um exemplo um tanto simplório, mas a ideia de setup e payoff está aí. A Arma de Tchekhov só expande isso em termos gerais da construção da história.
É algo para se pensar. Se você gosta de escrever ou está ativamente envolvido na produção de um roteiro e/ou narrativa que beneficiaria de um pouco de preparação, às vezes vale aproveitar-se deste ensinamento russo e insinuar algo que só acontecerá no futuro. Vale também, na maioria dos casos, cumprir as suas promessas — a não ser que subvertê-las seja mais interessante. Se a sua história está parecendo desconexa e jogada ao vento, a regra de Tchekhov pode ser ainda mais útil. Se está muito cheia, transbordando de informações inúteis e páginas de linguiças que não deveriam ter sido enchidas, vale também mantê-la em mente e em mãos, perto do botão de delete do seu computador ou, se você for um pouco mais antiquado, da sua borracha. Se você estiver um pouco obcecado (aha!, viu o que eu fiz aqui?) pela insinuação permanente de Tchekhov, contudo, vale deixá-la de lado e focar em outros aspectos. De vez em quando, é necessário também abstrair e quebrar as regras para que tudo não seja inteiramente previsível.
Quando fazer isso? Não tenho como dizer. Como toda boa regra de escrita, ela vive para ser quebrada. O rifle de Tchekhov, preso à parede, permanece sempre carregado e pronto para o disparo, cabe a você dispará-lo ou não. Seja como decidir, é uma boa arma para ter em seu arsenal. Barker teve sucesso disparando-a, quem sabe o próximo não seja você?
REFERÊNCIAS
BARKER, Curry (dir.). Obsessão. Título original: Obsession. Estados Unidos/Reino Unido: Focus Features, 2026. 108 min. Filme.
BILL, Valentine T. Chekhov: The Silent Voice of Freedom. Nova York: Philosophical Library, 1987. Disponível em: https://archive.org/details/chekhovthesilent0000bill. Acesso em: 21 jun. 2025.
DO AMARAL PRUDÊNCIO, Rafael. Regras para autores iniciantes (presente de aniversário—em vez de uma caixa de correio vazia). RUS (São Paulo), v. 15, n. 27, p. 301-307, 2024.
ESTRASULAS, Pedro Eugênio Unfer. Tchekhov e a sua arma: a armadilha de ser literal e a gaivota. 2025.
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Escritor, guitarrista, cantor, trabalhador intermitente (não nasceu herdeiro) e praticante convicto da filosofia faça você mesmo. É Bacharel em Economia e Estudos Literários, dois campos que parecem muito distintos, mas não são, pelo menos às vezes. Atualmente, estuda narrativas de terror no programa de mestrado em Teoria e História Literária no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.
