A HOLANDESINHA (2026) – CINEMA É SONHO QUE SE SONHA JUNTO

 

Assistido no dia 08 de junho de 2026, durante a Mirada Paranaense do 15º Olhar de Cinema, A Holandesinha (2026) é um documentário em metalinguagem, como afirmou João Gabriel Kowalski, um dos diretores da obra, sobre a realização do curta-metragem Lágrimas de um Pierrot da verdadeira diretora: Luiza Godoi.

O filme funciona como um registro biográfico da trajetória de Luiza como diretora. Um filme de personagem para a gente se divertir. Conhecemos Luiza, suas visões de mundo, de arte, e suas inspirações em gostar de cinema, principalmente de filmes antigos, pela família.

Porém, o que mais me chamou atenção, o destaque central, é a abordagem que lembra perfeitamente o processo de produção de um curta-metragem. Qualquer um que já trabalhou em set vai se identificar com as diferentes etapas vividas por Luiza e sua equipe durante a obra.

Desde o início, quando Luiza contata seu amigo João Vitor, também uma pessoa Down, para ser protagonista, e eles debatem o envio do contrato, finalizando a ligação com um “te amo, amigo”, o tom de profissionalismo leve e apaixonado pela arte e as pessoas que a realizam dita o tom do filme.

Acompanhamos as obrigações de uma diretora. Apresentação de roteiro para os produtores, a revisão de toda a construção do filme, cena por cena, detalhe por detalhe. Se negociam, fecham acordo.

A partir disso, a cidade de Maringá-PR também se torna personagem. Entre julho (pré-produção) e setembro (gravações) de 2025, presenciamos todo o processo, visita às locações, como restaurante e brechó. Ocorrem mudanças de planos, cancelamentos. Luiza se empolga com as sugestões e se controla quando as coisas dão errado. Produtora comenta após alteração de uma locação: “É difícil”.

“Com as dificuldades, a gente aprende, aprende a trabalhar melhor”, responde Luiza.

Continuam a visitar locações, a fazer testes de gravações com o celular. A história do casal, o romance, do roteiro da diretora começa a ganhar espacialidade. E Luiza confessa algo lindo: “tenho o dom que Deus me deu de imaginar a câmera se movimentando”, “já tô sentindo o filme”. E com isso vem a liberdade para desgostar, de sugestões, ângulos, atuações e mudar.

Luiza encontra João Vitor no aeroporto e ambos choram. Já vão para o trabalho, ela ensaia ele.

A partir daí, continuamos a produção. Montar figurino. Ensaiar trechos. Criação de tom. Corrigir a movimentação dos atores. A diretora chora após gravar uma cena. O que assistimos emocionados é o making-off da realização. Se o roteiro é um romance “de um moleque virando um homem”, segundo a própria realizadora, nós vemos o amadurecimento de Luíza. Acompanhamos o dia a dia da transição dela de amante do cinema para cineasta.

Os sorrisos fáceis e risadas gostosas tiradas de mim e do restante da plateia fazem jus à final do documentário, principalmente quando entra a linda música “Downs just wanna have fun”. A diretora Luiza Godoi, com sua energia para defender suas ideias, trabalhar em equipe e incentivo para todos “entrarem nas almas dos personagens”, nos mostra como ela está na alma do cinema. Ela faz seu filme passado nos anos 80, com carnaval, baile, beijo, diz que é para fazer nossos pais terem saudades daquele tempo.

A Holandesinha (2026) é sobre re-revelar o cinema como uma arte coletiva. Sobre o cinema como forma de sonhar e, mais que sonhar, realizar. O cinema é sobre adaptar, contestar, rejeitar, criar, manter, visitar, planejar, suar, testar, mudar tudo de novo enquanto precisa estabilizar e garantir.

Mas nunca sozinha. Como a produtora do curta falou para Luiza após a gravação da cena final: “Todos os seus amigos vieram pro seu carnaval.”

E a Luiza sabe melhor do que ninguém, pois o cinema lhe deu essa certeza, que sonho que se sonha junto é realidade.

Autor

  • Victor Finkler Lachowski

    Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (PPGCOM-UFPR), vinculado à linha de pesquisa Comunicação e Cultura; Mestre em Comunicação (PPGCOM-UFPR); Bacharel em Publicidade Propaganda (UFPR). Integrante do NEFICS - Núcleo de Estudos de Ficção Seriada e Audiovisualidades (UFPR/PPGCOM-UFPR/CNPq). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE). Bolsista CAPES-DS. Escritor, Roteirista e Redator. Autor da coletânea de contos "O Insosso e o Insólito entre os Pinheirais". Escritor da Revista Película (ISSN: 3085-6183). Pesquisador nas áreas de: Comunicação; Cinema; Cultura; Narrativas Audiovisuais; Narrativas Midiáticas e Comunicação Política.

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