FUTURO FUTURO (2025) – A IA SONHA O ÚLTIMO SONHO DA HUMANIDADE

 

Em 07 de junho de 2026, pude assistir Futuro Futuro (2025) na mostra Novos Olhares, durante o 15º Olhar de Cinema. Vencedor do prêmio de Melhor Filme do Festival de Brasília de 2025, a ficção científica gaúcha de Davi Pretto, segundo o próprio diretor, teve sua produção dificultada por conta da catástrofe social que se abateu no Rio Grande do Sul em 2024.

As enchentes em Porto Alegre (onde se passa a narrativa da obra) funcionam como um presságio contralógico, de uma antítese entre técnica e natureza, no qual o filme estipula como a ausência de uma presume um efeito sobre a outra. Como um mundo com sede gasta água?

Antes de nos fazermos essas perguntas, preciso alocar algumas considerações sobre a Ficção Científica. Desde Darko Suvin (1979), em sua clássica obra “Metamorphoses of Science Fiction: on the Poetics and History of a Literary Genre”, entendemos essa configuração estética do “estranhamento cognitivo” com a realidade empírica e as potencialidades históricas sendo essenciais para seu desenvolvimento, ou seja, analógico e dialético, que se baseia no estranhamento (alheiação) como meio de ativar o pensamento cognitivo.

Já para Scholes e Rabkin (1977), em “Science fiction: history, science, vision”, toda ficção científica é uma fantasia estendida, cuja diferença está em trazer aspectos de familiaridade e plausibilidade. Enquanto que Vivian Sobchack (1997), em “Screening space: the American science fiction film”, caracteriza a ficção científica como uma forma de fantasia permeada por uma atmosfera de credibilidade científica, direcionada para uma especulação imaginativa da ciência física, do tempo, do espaço, das ciências sociais e da filosofia.

Posso passar páginas e páginas citando referências da minha dissertação sobre o que pode talvez ser ficção científica, ou ficção especulativa, mas talvez seja mais produtivo tomarmos um viés mais crítico: Ficção Científica entendida como um exercício de especulações e imaginações sobre novas formas de mercadoria no regime capitalista de produção.

Desde o início, vemos K (nome referência a Blade Runner 2049?) utilizar o Oráculo, um dispositivo branco com uma luz vermelha, para que esse invada sua subjetividade e realize seu maior desejo. A partir disso, conhecemos o futuro de Porto Alegre. A periferia pobre, onde várias pessoas se reúnem para um tratamento, como todos enfrentam um mundo traumático, uma nova classe de viciados é formada pelo uso de IA, com os tecnarcóticos resumindo o que é excesso de consumo de tempo de tela.

O tratamento consiste em utilizar um dispositivo que ajuda a imaginar, enquanto as pessoas usam vendas, a voz artificial descreve cenários e fantasias genéricos. Depois, uma sequência de fotos de bancos de imagens se sobrepõe em alta velocidade, o desafio para os “pacientes” é decorar e anotar no papel tudo que se lembrarem.

E qual é o ponto desse tratamento? Por que as pessoas precisam se curar disso? Para encontrar um lugar no mundo em um mundo com a IA. Poético, né? Porém, o lugar no mundo é o único possível dentro da sociedade de classes: um emprego. As relações de produção como forma de se estabelecer condições mínimas de sobrevivência. Se não há tarefas, o scanner facial vai te dizer. Se te mandam um trabalho, é algo que a IA ainda não aprendeu a fazer para tirar seu emprego.

O governo fornece ração diária, auxílios, e a família pode ser uma opção de estabilidade. Mas K não possui nada disso, é destituído de memória, substituída pelo eterno-presente, a ideologia na qual as coisas são o que sempre foram e não existe outra forma de se existir.

Para onde fugir? Dorme que passa. Os sonhos não são uma terra onírica pura do inconsciente e manifestações imagéticas do Id em formatos dissociativos-narrativos, mas sim sequências em vídeos semelhantes aos anúncios de um condomínio de luxo, só que gerados por uma IA em 2024. Vida rica, modelagens 3D artificiais. A publicidade substitui a memória. Naquele bairro de rica projeção, cujo real fica na outra metade da cidade (isolada, clássica da analogia brasileira bairrista de divisão de classes), vemos a realização do ideal material e falso no subjetivo de K. A estética global é um banco de imagens.

E a única coisa real são as conversas sobre ausência de função. Poderia ser guarda, única profissão que sobrou, afinal a manutenção do aparato repressivo e coercitivo de classe não pode ficar de mãos abanando. Virar ladrão é sempre uma opção, mas até a tornozeleira ou rastreador na condicional são pagos pelo detento. Tudo é mercadoria.

Se o maná vem do céu, com a ração diária sendo um drop arremessado via delivery por um drone. O que vem de dentro, do sonho, é a única coisa real: o desejo, a fantasia, o sonho com o sexo burguês descompromissado e performado. Para sustentar barriga e falo, nenhum trabalho, ensinar a IA passou a ser a única função pingando. O comércio fechou primeiro, um mundo isolado no qual as transações comerciais não dependem mais da interação entre humanos, também chamado de amanhã.

“Eu clico, clico, clico e ganho uma miséria, nem sei o porquê”, diz seu parceiro. A única coisa que existe como pessoas são as máquinas. A alienação e a reificação ganharam os tão sonhados contornos de naturalidade que já são realidade. A abstração da relação de produção entre humano e objeto, o objeto ganha propriedades de pessoa/magia, e a vida não tem reconhecimento da própria existência quando essa não possui passado, presente ou futuro.

Só se sonha com as torres do condomínio de luxo. Não apenas K, mas todos. O fim da promessa de transcendência burguesa é a riqueza, o pobre sonha com o material, não existe mais religião, só a crença no trabalho e dinheiro, e esses são cada vez mais abstratos conforme existe um vácuo (no capitalismo preenchido historicamente pela classe média e pequena-burguesia) na qual a falsa ideia de mobilidade social poderia se agarrar.

Por isso, K quer dormir o dia inteiro, para sonhar com a riqueza material, única promessa de algo diferente. Nenhum trabalho e sem diversão. O condomínio asséptico, cada vez mais cheio de glitches e erros de prompts, é o resultado final de um processo que deixou a escola sem luz. É um mundo chupado pela IA, sem água enquanto se afoga.

K insiste em dizer que é da outra zona, dos ricos, que ele transcendeu. Mas os sonhos de todos são lá. Aqui existe a reflexão necessária para entendermos direito esse filme: sonho é uma coisa que criaram pra gente. K entra em um caminhão de mudanças e consegue parar na outra zona.

No condomínio de edifícios para ricos, vemos os prédios como monumentos arquitetônicos da promessa de uma vida melhor, monumentos da abstração do trabalho promovido pela IA. Feitos para serem vistos pelos pobres. A própria função do rico nas relações de produção foi abstraída, como mostra a festa no apê, fútil, como a riqueza sempre sonhou em ser, desamarrada de simbolismos ou responsabilidades sociais para justificar sua existência via exploração do trabalho.

Aqui é importante descrever novamente: K se infiltrou e chegou a um dos apartamentos de luxo. Os ricos celebram e se embriagam. O sonho de K é real: comida, conforto, água gelada, sexo e álcool. Contudo, um dos ricos drogados anuncia que a festa é uma celebração, já que o mundo vai acabar com o impacto de um meteoro pela manhã.

K acorda no dia seguinte e tudo segue igual. O rico da noite anterior anuncia que é o último dia da humanidade, pois o maior vulcão do mundo entrará em erupção. O mundo acaba e recomeça todos os dias quando não se possui memória. E tudo permanece dolorosamente igual.

A esperança do fim do mundo pertence aos ricos, só eles têm algo a perder, e o mundo nunca parece tirar nada deles. K começa a entender a promessa do cataclismo, da catarse final, da escatologia. A ânsia pela morte para dar vazão à pulsão de vida, aos prazeres e ao sexo burguês. A alienação do rico é a ideia do fim, a alienação do pobre é o trabalho, inclusive com sua ausência.

Os ricos começam a ficar sem luz, a IA está chupando a deles finalmente. Mas tudo bem, se eles tomam remédio para lidar com os sonhos, para não lembrar deles, uma vez que ricos podem se alienar assim, eles vão ter alguma pílula pra sede. O mais importante é o vazio de não ter sonhos genuínos. Sonhar pode ser perigoso, pode te trazer culpa, pode te fazer entrar em contato com o social, com aquele inconsciente coletivo responsável por nos conectar por meio de um tecido-mosaico. Sonhar com o fim do mundo é tão global que abstrai o social, se torna o mais individual possível pela própria contradição.

Preso na torre, K começa a valorizar a materialidade, sua transcendência refaz o caminho do que lembrava como um lar. Realiza que volta a sonhar com um passado, artificializado, com a IA gerando aquelas memórias com base em sua subjetividade. K começa a entender o medo pelo fim da promessa de transcendência burguesa.

Ele começa a visualizar imagens de diversos cenários de fim do mundo, da aniquilação total, e entende que quem tem tudo e não faz nada só pode contar com o fim para se mover. Quem nada tem, que cace trabalho até cair de inanição. A ideologia é a realidade ser naturalizada a ponto da própria transcendência, de algo mudar,  ser vista como puro desejo uma vez que as possibilidades materiais deixaram de existir, sendo as imagens subjetivadas pela publicidade gerada por IA o único recurso de fantasia para se sonhar com o diferente.

Dois pensadores nos fazem entender esse cenário. Segundo Horkheimer e Adorno (1973, p. 200-202), no capitalismo tardio, o humano se adapta às condições dadas em nome do realismo e os indivíduos “sentem-se, desde o começo, peças de um jogo e ficam tranquilos” (Adorno; Horkheimer, 1973, p. 203). A ideologia pós-crise da sociedade burguesa e dos Estados Nacionais já não garante coisas, apenas atesta que as coisas são o que são, o pobre axioma de que não podem ser diferentes do que são. “A ideologia já não é um envoltório, mas a própria imagem ameaçadora do mundo. Não só pelas suas interligações com a propaganda, mas também pela sua própria configuração, converte-se em terror” (Adorno; Horkheimer, 1973, p. 203). Assim, a ideologia e a realidade correm uma para a outra, porque a realidade dada, na falta de outra ideologia mais convincente, converte-se em ideologia de si mesma.

K sai da máquina, tudo foi um sonho gerado pelo Oráculo. Seu maior sonho, segundo o grau de geração ultra refinado do dispositivo, era sonhar com a própria possibilidade das coisas serem diferentes, de antever os próprios desdobramentos da visualização das contradições sociais, dos desdobramentos da realização da transcendência burguesa como reflexo da possibilidade de transcender a materialidade estática e reificada e isso revelar o vazio da existência. A máquina instaurou o fim último da ideologia, instaurando a ideologia anterior mesclada ao cinismo, realismo naturalizado e narrativizado.

Nossa subjetividade já virou mercadoria, somos produtos dos algoritmos, que nos conhecem melhor que nós mesmos.

 A IA sonha o último sonho da humanidade.

Autor

  • Victor Finkler Lachowski

    Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (PPGCOM-UFPR), vinculado à linha de pesquisa Comunicação e Cultura; Mestre em Comunicação (PPGCOM-UFPR); Bacharel em Publicidade Propaganda (UFPR). Integrante do NEFICS - Núcleo de Estudos de Ficção Seriada e Audiovisualidades (UFPR/PPGCOM-UFPR/CNPq). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE). Bolsista CAPES-DS. Escritor, Roteirista e Redator. Autor da coletânea de contos "O Insosso e o Insólito entre os Pinheirais". Escritor da Revista Película (ISSN: 3085-6183). Pesquisador nas áreas de: Comunicação; Cinema; Cultura; Narrativas Audiovisuais; Narrativas Midiáticas e Comunicação Política.

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