A NOITE E OS DIAS DE MIGUEL BURNIER (2026) – MENTE VAZIA É OFICINA DA GERDAU
Pude acompanhar A Noite e os Dias de Miguel Burnier (2026) no dia 09 de junho de 2026, como parte da Competitiva Brasileira do 15º Olhar de Cinema. O documentário acompanha os bucólicos dias na pequena cidade de Miguel Burnier, em Minas Gerais. A cidade se tornou um apêndice da mineradora Gerdau e, nas últimas duas décadas, viu quase toda sua população abandonar a região, restando em torno de oitenta cidadãos.
O objetivo do documentário observativo é acompanhar o que os personagens podem apresentar em tal cenário. E uma cena comum são as interações sociais, começamos com um churrasco em uma festa de aniversário, onde o fogo não pega direito e comentam a vinda de uma tempestade. Ou em outro momento, quando dançam forró a três, a vida segue viva.

Na beira do caminho, há pedaços de topázio aos montes pela estrada. A riqueza natural se configura em pobreza material. A população nem trabalha na Gerdau, esnobe, não gera as oportunidades de trabalho tão anunciadas. Associação de moradores, quando reunida, admite que precisam “tirar conclusões das intenções da empresa nas entrelinhas”, quando outra moradora completa com “sinto minha vida ficar parada aqui”.
Ao horizonte, máquinas de mineração como esqueletos, que devoram a terra para o capital sem nunca engordar. Entre os túmulos, ruínas e memórias do cemitério, apenas os nomes e datas de falecimento ditas em voz alta aproximam algum sentido de passado para um cenário desolado, desprovido de sentido, de visitas, vida que chora pela morte. E a Gerdau sempre aparece ao horizonte, resumindo o mundo até onde a vista alcança, uma lembrança constante do porquê lembranças são tudo que resta para os moradores.
A memória histórica é revivida pelos estudantes da escola local. As poucas crianças e adolescentes narram a história institucional da cidade, até a Gerdau tornar o presente sem futuro. Montam uma maquete da igreja com caixas de leite e outros materiais. Quando vemos a igreja referenciada, ao fundo, uma enorme máquina de mineração apequena o templo. Substituído, o deus da fé foi substituído pelo deus do capital, ambas promessas que não precisam entregar nada.
Durante uma prosa e pesca na lagoa, a senhora diz: “Fico preocupada que um dia tudo vai acabar, que vão destruir a criação de Deus”. Reclamam que tornaram a lagoa propriedade deles, mas que a lagoa é “nossa”.
A mediação entre população sem expertise e mineradora é estabelecida pelo mineiro autônomo e sua rotina diária de oito horas de peneira manual, finalizada somente após lavar cinquenta carrinhos de cascalho. Após um dia de bons frutos, termina o expediente mais cedo: “trabalhei, deu bastante, tô bem assim”, e o seu colega que observa tudo conta que cresceu em Miguel Burnier a vida toda e não sabe fazer aquele trabalho. O trabalho não é um dom natural, é uma adaptação à realidade.
Mais memórias, as fotos antigas de carnaval de 2010, com uma população vibrando e curtindo como se fosse aqui ou em qualquer outro lugar do Brasil. As imagens com glitter, roupas coloridas, remetem ao passado que o casal conversa no balcão da antiga casa. Pensam em vender o conjunto de três casas meio abandonadas. Ele chora de saudades da antiga casa, onde conversavam por horas e era cheia de gente. Encontra um chapéu e ganha dela. Presentes do passado, pois o futuro não existe e o presente só tira.
E essas mesmas pessoas agora são figuras que somem como a cidade, mas reaparecem nos cantos, bebendo pinga no bar, brigando na saída do bar, com Setenta sendo zoado pelo povo bêbado insinuando que ele foi corno no passado. A única coisa que pode machucar: lembranças, passado.
Em outro momento, vemos a senhora cuidando do bebê, seu neto, dando banho enquanto torce para o Cruzeiro. Cria um futuro onde só existem passado e ruínas. “O mundo reprime mulheres porque elas bebem”, anuncia, e reforça que a mineradora não vai dar emprego porque ela e outras mulheres bebem, comenta como passou fome quando tinha os filhos na barriga e ninguém ajudava, pois ela bebia. É tanta dor, lágrimas surgem, conversas ficam ruidosas e entrecortadas com o choro.
A dor é longa, como o trem da manhã que desfila com seus equipamentos, máquinas, componentes e outras tecnicidades industriais, pronto para levar mais para menos para aquela cidade.
As vidas daquele lugar se reúnem entre as casas abandonadas, essas permanecem como ruínas, caixões com os vivos enterrados. Falam sobre mudar, se muda mesmo quando não se quer. E os moradores buscam pepitas nos pedregulhos, algum valor que escapou das bocas metálicas do capital. E as ébrias voltam a falar a verdade: “gostam de bater em pobre, em quem não tem nada”.
Entre as ruínas de casas não muito engraçadas, sem tetos, janelas ou alma, recolhem entulhos para plantar alface, fazer uma hortinha. Removem o que se foi para tentar criar algo que será, um presente que cresça e retribua o cuidado no futuro, como as crianças.
“Deus tome conta”, abençoa a senhora sobre a horta do seu amigo.
É necessário cansar para não pensar tanto. O trabalho é bom para eles tirarem objetivos.
Mente vazia é oficina da Gerdau, ainda mais quando Deus é uma pepita de ouro.
Ou um pedaço de topázio.
Ou um buraco no chão.
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Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (PPGCOM-UFPR), vinculado à linha de pesquisa Comunicação e Cultura; Mestre em Comunicação (PPGCOM-UFPR); Bacharel em Publicidade Propaganda (UFPR). Integrante do NEFICS - Núcleo de Estudos de Ficção Seriada e Audiovisualidades (UFPR/PPGCOM-UFPR/CNPq). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE). Bolsista CAPES-DS. Escritor, Roteirista e Redator. Autor da coletânea de contos "O Insosso e o Insólito entre os Pinheirais". Escritor da Revista Película (ISSN: 3085-6183). Pesquisador nas áreas de: Comunicação; Cinema; Cultura; Narrativas Audiovisuais; Narrativas Midiáticas e Comunicação Política.
