Agnès Varda: O Documentário Como Escrita de Si

Agnès Varda: o documentário como escrita de si

Nos documentários se tornou comum a utilização da narração em voz over, na qual o narrador se apresenta de forma não participativa, ou seja, onipresente, representando ele a “voz de Deus”. Já nos filmes documentais da cineasta Agnès Varda a narração passa a ganhar novos sentidos. A narradora agora participa e, portanto, também é personagem. Dessa forma, tendo como base o livro Cinensaios Agnès Varda: o documentário como escrita para além de si de Sarah Yakhni, esse ensaio pretende compreender como Varda narra seus filmes de forma a se inserir nos temas aos quais documenta.

Percussora da Nouvelle Vague, Agnès Varda é muito conhecida pelos seus filmes Cleo das 5 às 7 (1961), Uma Canta, a Outra Não (1976) e Os Renegados (1985). No âmbito dos filmes de ficção, ela já inovava no que se chamava cinema de autor. Acumulando funções na realização dos seus filmes, Agnès Varda muitas vezes foi produtora, roteirista, diretora e até montadora.

Seus filmes traziam sempre a marca experimental, de acordo com Bernard Bastide (2007), conforme citado por Sarah Yakhni (2014, p. 23) “[…] a indústria cinematográfica teria tido dificuldade em integrar, dentro do seu contexto, os projetos de Varda, que sempre apontavam para um lado mais pessoal”. No filme metalinguístico Amor dos Leões (1969), dirigido por Varda, a cineasta underground Shirley Clarke aparece no longa como uma espécie de alter ego de Varda. Essa já é uma clara experimentação de Agnès Varda consigo mesmo nas suas produções.

Da mesma maneira, e ainda em maior grau, nos seus documentários, Varda quase sempre se insere nas temáticas retratadas, utilizando como principal ferramenta de inserção a narração. Assim, esse processo de subjetivação da realizadora se dá por que muitos dos filmes de Varda se concentram em assuntos que pertencem ao próprio contexto da cineasta.

No curta-metragem Tio Yanco (1967), Agnès Varda vai em busca de um parente seu. Nesse documentário, a narração de Varda nos orienta acerca da sua jornada apresentando o personagem que dá o título ao filme e desvelando o porquê de fazê-lo. Para além da sua voz em off, Varda também atua em frente à câmera encenando e reencenando alguns eventos junto à Jean Varda. Ultrapassando as fronteiras entre documentário e ficção, em Tio Yanco (1967), Agnès Varda se insere em sua realização numa mistura de metalinguagem, ironia e performance.

Outra temática pessoal é vista em Daguerreótipos (1975), curta em que Agnès mostra o cotidiano da rua Daguerre, em Paris, onde a cineasta vivia. Esse curta é pautado na observação dos moradores da rua Daguerre e seus afazeres rotineiros, com tomadas utilizando o som direto e a narração. Em um trecho do documentário Varda narra: “Eu tinha o desejo de atravessar as vitrines das lojas da minha rua. Estar dentro com artesãos, os comerciantes e vendedores, na lentidão e paciência de seus trabalhos, durante as horas de espera.”. Embora Varda não apareça em nenhum momento diante da tela, ela está presente no filme através da sua narração.

Michel Chion chamava essa voz que possui uma identidade de voz-eu, para ele, essa voz representa mais do que uma simples voz off ou uma narração feita em primeira pessoa, “trata-se sobretudo de um modo de ressonar e de ocupar o espaço […]” (CHION, 1999, p. 49). Podemos então compreender a magnitude da presença de Varda, seja enquanto personagem ou narradora das suas produções, e, na maioria das vezes, ela consegue ser as duas coisas.

Quando Varda se propõe a retratar outros temas que vão além do seu contexto, ela também os narra de forma subjetiva. Em Os Catadores e Eu (2000), Varda trata do tema histórico das catadoras de batata e demonstra a persistência, até os tempos atuais, da ação de pessoas catarem frutas e verduras que são desperdiçadas.

Nesse longa, Varda subverte a narrativa quando ela aparece em frente à câmera, e, fazendo um trocadilho com o título do filme, em off, Varda diz: “A catadora do título desse documentário sou eu”. Entendemos melhor essa simbologia pela tradução do título em francês “Les Glaneurs et La Glaneuse” que em português, numa tradução livre, ficaria “Os Catadores e a Catadora”. É a partir dessa fala que Agnès Varda marca a transformação dela em personagem do documentário.

 É dessa maneira que Os Catadores e Eu (2000) é um ótimo exemplo do uso da escrita-ensaística de Varda, através dessa linguagem a cineasta perpassa pelo tema central do documentário – o ato de catar frutas e verduras desperdiçadas – e vai além trazendo o seu tom pessoal, refletindo sobre o passar do tempo, o seu envelhecimento, obsolescência, sobre pinturas e câmeras digitais. Como ela narra no filme: “Esse projeto é sobre isso: filmar uma mão com a outra mão.”, aqui Varda escreve sobre o outro, sobre si e sobre o que há por vir.

Em suas narrações, Agnès Varda contradiz a narração em voz over dos documentários clássicos, não estabelecendo uma voz didática ou apenas expositiva. Indo além até do próprio uso da narração em voz off, ela opera como a voz-eu de Michel Chion, ressonando nos espaços e temas documentados quando se mostra à frente das câmeras ou por trás delas. Varda é uma narradora personagem que se insere de forma subjetiva, onipotente, participativa, reflexiva, experimental, ela confunde o espectador trazendo mais perguntas que respostas e, à favor do devir, constrói sua escrita ensaística. Agnès Varda brinca com as limitações do documentário, e, dessa forma, ela toma o documentário como escrita de si.

Referências Bibliográficas
CHION, Michel. The voice in cinema. New York: Columbia University Press, 1999.
LEVIN, Tatiana. A “cinescrita” de Agnès Varda: a subjetividade incorporada ao campo do documentário. 2011.
YAKHNI, Sarah. Cinensaios de Agnès Varda: o documentário como escrita para além de si. São Paulo: Hucitec: Fapesp, 2014.
 
Filmografia
Cléo das 5 às 7 ­– ficção, 1961, 17min.
Tio Yanco – documentário, 1967, 22min.
Amor dos Leões – doc/fic, 1969, 110min.
Uma Canta, a Outra Não – ficção, 1976, 110min.
Daguerreótipos – documentário, 1975, 80min.
Os Renegados – ficção, 1985, 105min.
Os Catadores e Eu – documentário, 2000, 122min.  

Autor

  • Catarina Costa

    Licenciada em letras-inglês. Atualmente graduanda do curso de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Amo o cinema, me arrisco em algumas produções, mas confesso que ainda me encontro mais na arte de ser espectadora.

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