A ODISSEIA – UMA ÉPICA & DEFEITUOSA JORNADA EM UM MUNDO COMPLETAMENTE DESALMADO

 

Em 2026, falar mal do Christopher Nolan já soa como chutar cachorro morto, é um hate cansativo para o hater, ter que explicar de novo e de novo por que a incessante mediocridade do diretor IRRITA mais do que a ruindade alheia pode irritar. É exatamente por isso que queria muito gostar de The Odyssey, gostar pelo menos um pouco, e nesse sentido acho que minhas expectativas não poderiam ter sido menores; eu esperava ESCALA, o mínimo em uma adaptação do poema épico de Homero, e tentava não pensar muito sobre profundidade, caracterização ou qualidade de produção, pois já sabia que seriam coisas difíceis de encontrar em um filme do Nolan. Segundamente, também queria alguma surpresa, alguma ousadia, algo que me fizesse entender, nem que por apenas 1 segundo, todo o hype que colocam no cinema do Nolan (Oppenheimer teve bastante disso, ao menos para mim). E, no fim das contas, minhas baixas expectativas foram pagas, apesar de não entregar necessariamente isso que descrevi, The Odyssey tem uma quantia considerável de coisas até que, legais, e a experiência como um todo no cinema é boa, algo que já me faz instantaneamente gostar mais desse filme do que outros do diretor.

Ps.: Interestelar é sonífero, The Odyssey não é.

 

Um bônus sobre The Odyssey não ser totalmente imprestável, e para que minha crítica não precise ser completamente negativa! Inclusive, reservo aqui um espacinho só para falar sobre tudo de bom que tem no filme:

 Gosto da forma como a narrativa progride, não sou necessariamente fã desse lá & cá de locais e momentos no tempo que é a estrutura do longa, mas acabo me entregando à ideia do Nolan quando Odisseu finalmente retorna ao seu lar. É um storytelling confuso, complexo & criativo que funciona em 2 aspectos: proporcionar um fator único à jornada do protagonista, uma das mais épicas em toda a ficção; e imergir o espectador nessa árdua história que encontra seu charme necessariamente na imensidão, algo que deve sim confundir. Alguns dos momentos mais criativos da filmografia do Nolan são encontrados na viagem de Odisseu, existe uma imprevisibilidade maravilhosa sobre os devaneios que ele faz, o espectador nunca sabe exatamente o que vem pela frente & isso automaticamente instiga, e a execução do Nolan nesses devaneios funciona no contexto da obra que ele realiza, mesmo que eu não as ame.

Eu também gostei consideravelmente do 3º ato, é disparado o momento do filme em que o Nolan filma com maior conforto e proporciona os momentos de maior empolgação na narrativa. É aqui que ele realmente se encontra na história, passa a compreender o personagem do Odisseu como essa figura mítica que é digna de idolatria em seu lar, e concretiza finalmente as ideias que ele cultivava sobre a guerra de Tróia. São as melhores cenas de ação do filme também, não tem nada de profundo sobre o que rola na tela, não estou necessariamente investido na história, mas são cenas executadas com precisão e construídas de forma calculada para trazer empolgação, e eu fiquei empolgado! A jornada corre meio mal, e isso fez eu achar que o fim seria maçante, algo que definitivamente não ocorre. Mas o longa acabar em uma nota boa não me faz esquecer tudo de ruim que também existe nele, até mesmo nessa fatia melhorzinha que é seu 3º ato.

 

Mas, para tudo que há de bom no filme, também tem algo ruim, então, agora vou ser mais duro:

É interessante pensar sobre como, em um filme ruim, até as partes boas são contrapostas com fatores negativos… Falei que gosto da forma como é estruturada a jornada do épico Odisseu, mas não gosto muito dos seus conteúdos; já estava parecendo uma piada na 2ª vez que eles voltaram correndo para o navio desesperados após encontrarem uma ameaça mais forte que eles, é TRISTE pensar que Nolan conseguiu transformar a possibilidade de setpieces tão criativas & interessantes em algo maçante, mas foi o que ele fez. Outra coisa que eu não gostei é que o texto discorda de sua execução. Na narrativa, a morte da sua tripulação assombra o protagonista e acaba sendo um dos fatores que mais influencia na sua viagem. Odisseu está aparentemente disposto a morrer para garantir a vida da tripulação. Mas isso não transparece nas atitudes do personagem, que só aparenta remoer sua própria incompetência como capitão em momentos ímpares que não mudam nada na história; e nada disso transparece ao espectador, pois a morte dos tripulantes é filmada com desdém, não existe peso nos golpes dos antagonistas e a verdade é que ninguém ali parece se conhecer direito, dizer que não são pessoas reais é até pouco, são menos que personagens, são nada.

E sobre o 3º ato (que eu gostei), este finaliza o arco do filme, uma reflexão sobre a guerra de Tróia, e o conceito de guerra como um todo. Apesar de o tempo inteiro flertar com essas ideias, como na morte do personagem interpretado pelo Benny Safdie e na construção da tragédia da narrativa como um todo, isso não é algo que o Nolan para pra desenvolver em momento algum. E isso é bastante do motivo pelo qual The Odyssey não funciona, mesmo tendo quase 3 horas de duração, o filme não tem tempo para desenvolver UMA IDEIA, UM PENSAMENTO, o tipo de coisa que gruda na mente do espectador bem mais do que uma 5ª cena barulhenta de barco no mar, é um longa IMPACIENTE que tenta colher em seu 3º ato, frutos que ele não plantou. Além disso, Nolan, assim como é real em vários outros pontos do filme, é expositivo DEMAIS. Claro que, nesse caso, é quase necessário, já que ele mal construiu o ponto da história no resto da história (que coisa bem triste…), mas continua uma merda, ninguém gosta de ver uma tábua sendo martelada repetidamente e Nolan passa todo filme fazendo isso, com absolutamente tudo que tem de possivelmente sutil na obra.

E tem mais, obviamente, não somente pela limitação desse trambolho ridículo que é a câmera IMAX, mas pelo seu histórico como diretor, The Odyssey é mais um filme mal montado do Christopher Nolan. E ainda sobre o trambolho ridículo, me irrita que logo o Nolan consegue ter acesso à tela IMENSA do IMAX, porque seus planos não têm nenhuma profundidade ou criatividade em composição. Fiquei meio deprimido pensando sobre como não teve nenhum enquadramento que me deixou WOW durante toda a duração do filme, mas teve bastante plano do ator falando com o fundo desfocado!!

E visualmente até que algumas cenas noturnas são bonitas, têm um contraste legal e tal, mas tudo é muito sem cor nas cenas que se passam durante o dia. E, desculpa, Nolan, mas é IMPOSSÍVEL fazer um filme bom com edição porca & filmagem ruim. Além de outro clássico do Nolan afundar a narrativa um pouco: sua dificuldade em construir personagens; porra, nem espero SERES HUMANOS mais dele, só personagens, e nem isso sai, se somar todos os personagens de The Odyssey ainda assim não vou me importar com eles ou sentir pelos seus sentimentos. É tudo muito vazio. Sem alma, sem coração.

 

Convenhamos, não tem problema fazer um cinema frio, mas tudo tem limite, e Nolan, não podia quebrar esse limite, MAS, ele ainda o quebra. Talvez o diretor precise dar um passo para trás antes de pensar em continuar aumentando a aposta nos seus lançamentos com obras cada vez maiores & de vazio mais explícito.

Autor

  • Miguel Duro

    Com 17 anos, escrevo críticas de cinema a mais ou menos 2 anos. Possuo uma página no Instagram na qual tenho publicado mais de 90 textos (@mrduro_cinema). Minha maior paixão é o cinema e a forma que encontrei para expressar esse amor ao mundo é por meio do texto, tanto no inglês quanto no português.

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