DROGAS, REVOLTA E REPRESSÃO EM KNEECAP (2024)
Kneecap é um filme de comédia e musical, dirigido e roteirizado por Rich Peppiatt, sobre um trio de rap criado na cidade de Belfast. A história é vagamente inspirada no trio (da vida real) Kneecap, e seus membros atuam como eles mesmos nessa ficção. A banda, criada em 2017, é fortemente ligada a uma visão republicana irlandesa, que luta pela reunificação de toda a ilha e se opõe ao Reino Unido no Norte da Irlanda (chamada de Irlanda do Norte pelos britânicos). Através da música, eles apoiam a causa ao fazerem suas músicas usando a língua nativa da ilha, o irlandês, ou gaélico.
Os Kneecap, obviamente, não são amigos da polícia de Belfast. O grupo é reprimido por promover comportamentos antissociais em suas músicas e pelo uso de drogas. Mas, apesar dessa luta pela sobrevivência da língua irlandesa, o trio também sofre repressões de outros movimentos a favor dos irlandeses. Por um lado, os grupos “legalistas” dizem que a música atrapalha a aprovação de uma lei que reconheceria a língua irlandesa como um dos oficiais do Norte da Irlanda, já que a mídia usa como argumento a ligação da banda com as drogas para atacar essa aprovação. Por outro lado, há um grupo radical, Radical Republicans Against Drugs (RRAD), que também os reprime. Quando o estúdio da banda é queimado, eles até chegam a achar que foi o RRAD que organizou o ataque.

Esse conflito entre a banda e os outros grupos de irlandeses soa como uma crítica aos grupos mais tradicionais, que foram incapazes de perceber o potencial revolucionário que o rap irlandês trouxe. Os jovens agora cantam músicas na língua gaélica, pessoas começam a aprender irlandês por causa das músicas da banda, e os shows lotam de pessoas que possivelmente não se importariam com o debate sobre a sobrevivência da língua se não fosse por essas canções.
O argumento de que a banda está dando mais argumentos para criticarem a causa também é polêmico, já que os setores que estão contra o movimento encontrariam argumentos para criticá-lo de um jeito e de outro. De qualquer maneira, as críticas aos Kneecap ainda têm um fundo de verdade. Embora o uso de drogas não deva ser tratado como caso de polícia e reprimido violentamente, ao lutar a favor de uma causa, o uso dessas substâncias deve, no mínimo, ser feito com cuidado. Estando sempre na iminência de sofrer ataques brutais da polícia, eles precisam viver preparados para o pior.
O filme, no entanto, abre margem para uma interpretação de que os RRAD e os Kneecap não sejam vistos como antagonistas de fato. A banda até chega a atacar publicamente o grupo, mostrando sua hipocrisia em querer traficar drogas para financiar o grupo, mas, próximo ao fim da obra, descobre-se que a queima do estúdio foi feita pela polícia, mostrando ao espectador que, na verdade, a briga entre os dois grupos de irlandeses foi um mal-entendido causado pela ação do inimigo que eles têm em comum.
Pensando no Brasil, esse filme ainda nos faz refletir sobre como a colonização foi eficiente em nos acostumarmos a falar português (ainda que com os nossos sotaques próprios de cada região e com as palavras que surgiram vindas de outras línguas) e como quase não se fala as línguas nativas. Seria interessante se tivéssemos maior conhecimento dessas línguas e não as deixássemos morrer.
Autor
-
Ver todos os posts
Doutorando em Comunicação pela UNIP, com bolsa CAPES. Mestre em Comunicação Audiovisual pelo PPGCOM-UAM, com bolsa CAPES. Integrante do grupo de pesquisa "NARRATOPIAS: Narrativas, Temporalidades e Tecnologias da Comunicação", do(a) Universidade Paulista (UNIP). Graduado em Rádio, TV e Internet pela Universidade Anhembi Morumbi (2020).
