QUASE INVERNO (2026) – QUASE MELODRAMA
O longa-metragem Quase Inverno (2026) revela um grau de qualidade técnica de criar expectativas para a cena cinematográfica de Londrina (PR). Inspirado pela novela As Três Irmãs, um clássico de Tchekhov, o diretor Rodrigo Grota trouxe a Rússia Imperial para o interior paranaense durante a ditadura. Sendo um melodrama com foco na atuação e no texto.
E os gestos importam, as frases soltas, as indicações. A reunião das irmãs com o irmão para conversarem sobre os últimos momentos da mãe, acometida pela demência. As vítimas de uma ditadura que soa quase anacrônica, como uma suspeita de que poderia ocorrer em qualquer lugar e a qualquer momento na Rússia Brasileira.
Todas as irmãs e o irmão são frutos de seus traumas, convertidos em avareza, orgulho, depressão, luxúria, irresponsabilidade, instabilidade travestida de estabilidade. A teatralização expositiva (talvez até demais) das memórias, lembranças e outras formas de preservarmos nossas dores esclarece conflitos e dita uma tônica melodramática desejada. O problema surge com o cansaço, não de ritmo necessariamente, mas de temática. Como assim?
O pai falecido que cometeu algo contra todas as suas rebentas e rebento. O suposto acidente. O que houve? Somos jogados para brincadeiras de retenção de suspense, e o que nos é entregue em forma aberta diz respeito a orientações e pensamentos de personagens que não sustentam o interesse. A promessa parece sempre mais curiosa e entretida do que é objetivado, e muito mais sobre como é objetivado.
Algo funcional em Quase Inverno (2026) é a ideia da própria família como um acidente. Como as cicatrizes profundas do caçula, a psicologia familiar é turbulenta e voltada à autodestruição e automutilação. O ambiente da fazenda, seu lago, lama, bosques e cores frias (exageradas em algumas cenas e elegantes em outras), propiciam esse sentimento de desinteresse pela vida, contraposto ao interior da casa, levemente quente e ansioso.
Essa ideia de terra condenada e família como forma de manutenção da propriedade privada pela figura masculina, patriarcal, puxa o fumante irmão como o trágico herdeiro maldito. Culpado e vítima das circunstâncias, incapaz de se desprender dos papéis impostos em embate com sua fragilidade física e psicológica.
Mas maldições são justamente heranças. O irmão quer perpetuar, mas suas irmãs querem fugir novamente. Catarina conta sobre sua encenação do teatro para evocar alguma imagem-cristal, e os sentimentos extremos do palco são acionados: aprovação, reverência, humilhação, trauma.
Elena fala sobre a pintura que sua mãe, nomeada Esther, pintou dela. Aos 15 anos, suas inseguranças, ainda que orgulhosas, suspiravam pelo nome interrompido de algo que faltava, e ainda falta. O assustador é quando outro conhece seu egoísmo e solidão, e insólito se torna quando o captura em tinta e representação.
A trupe de interesseiros do exército-governo que acompanham Ariel o lembram de seu fracasso como militar, do dever autoritário de defender a família que odeia, o levam até a derrocada de quem se acha mais importante do que é. Todos não fazemos falta em uma Ditadura Militar. A esposa de Ariel sustenta e reforça a masculinidade castrada e nunca realizada dele.
Na igreja, Catarina e Elena livres da vida mãe falecida podem ser sinceras uma com a outra. O ambiente sacro permite isso. O compilado de diferentes estragos sob um mesmo teto. A morte os persegue, Ariel se torna a última vítima. E as irmãs irão ser deixadas em aberto sobre seus destinos. Se fugirão ou se unirão? Nunca saberemos. Talvez algumas respostas e melhores conexões pudessem ter sido estabelecidas.
Um fator de incômodo foi a fotografia formalmente bem enquadrada, como se tudo fosse propositadamente feito para nos lembrar que estamos vendo um filme. Uma graça da potencialidade do cinema é sua capacidade de esconder o que é feito. O posicionamento de câmera e luz gritam intencionalidade.
O comprometimento de blocar o quadro simboliza certas deselegâncias com o próprio melodrama. Algumas atuações como do soldado de bigode acabam levando uma canastrice não desejada pra cena. O duelo de tiros soa mais falso por querer enquadrar demais, e o som inserido mais atrapalha que ajuda para a boa mentira da arte.
Ao final, a caçula lembra o que nunca saberemos. As irmãs se reúnem afetuosamente. E o sofrimento vira alegria para quem virá após elas. Talvez não tenha conseguido ter meu interesse tão bem despertado pelas personagens quanto isso era para ser “ativado” no espectador, porém ressalto qualidades na experiência do diretor, que definitivamente aprendeu sobre o melodrama, ainda que esse possa sussurrar mais do que gritar.
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Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (PPGCOM-UFPR), vinculado à linha de pesquisa Comunicação e Cultura; Mestre em Comunicação (PPGCOM-UFPR); Bacharel em Publicidade Propaganda (UFPR). Integrante do NEFICS - Núcleo de Estudos de Ficção Seriada e Audiovisualidades (UFPR/PPGCOM-UFPR/CNPq). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE). Bolsista CAPES-DS. Escritor, Roteirista e Redator. Autor da coletânea de contos "O Insosso e o Insólito entre os Pinheirais". Escritor da Revista Película (ISSN: 3085-6183). Pesquisador nas áreas de: Comunicação; Cinema; Cultura; Narrativas Audiovisuais; Narrativas Midiáticas e Comunicação Política.
