ADULTO/HOMEM (2026) – FALHAMOS COM OS ATORES

 

Dia 11 de Junho de 2026, Adulto/Homem, longa cearense, estreia no 15º Olhar de Cinema com uma mensagem simples e profunda como um corte grave: falhamos com os atores enquanto sociedade, enquanto indústria, enquanto pessoas, enquanto afetos, enquanto sonhos, enquanto respeito.

A proposta fascina desde o início. Acompanhamos em um único take, sem cortes, uma fila de audição para seleção de elenco. A única informação que recebemos é a busca ser por um ator adulto/homem para um papel nunca revelado. Conforme a câmera desliza pelos rostos, expressões, meditações, ensaios, escutamos suas trajetórias e reflexões sobre ser ator e o mundo da atuação em suas respectivas perspectivas.

Ouvimos sobre a beleza de atuar, sobre como pode ser o processo entre idealizar um personagem e interpretá-lo, e como a parte mais difícil é a falta de perspectivas de futuro. A atuação é viver do agora, viver o hoje sem estabilidade pelo futuro.

A coletânea de entrevistas nos fala sobre o desespero pela autovalidação, como atuar requer aprovação constante dos outros, e a falta que faz o apoio daqueles ao seu redor. Outra vida nos diz que a atuação é a lente que faz ver a beleza no mundo, ao mesmo tempo uma lente que machuca muito.

Um ou outro aproveita para ouvir música no fone, ensaiar com mais raiva, loucura, calma, parcimônia, o texto entregue. Nesses momentos, a trilha sonora adentra com inteligência, um respiro musical entre tantas vozes distintas e complementares. O roteiro ensaiado nos fala sobre esmagar insetos, sobre a diferença entre a morte com valor e a sem valor, a distinção raivosa e inflamada digna de um Calígula do darwinismo social em estado alucinatório, como a concorrência entre indivíduos que precisam se julgar superiores para superar seus iguais.

Outra lição contra a predisposição naturalista da arte enquanto dom: não se vira ator, se desenvolve. Desde os 10 anos amou atuar para sua família, e não existe outra coisa para fazer quando só se sabe fazer aquilo.

O mais doloroso, contudo, não é nem a impossibilidade de viver da arte, mas sim a falta de fé de todos ao seu redor. Quando parceiros, afetos, família, te menosprezam. “Ter que ser gigante na mente pequena da sociedade”, quando as grandes conquistas e esforços não se convertem em reconhecimento. Materialidade financeira e exposição midiática são os falsos símbolos do star-system das artes para significar o sucesso, pura publicidade sem realidade.

“Meu maior sonho é ver meu pai numa sala de cinema vendo um filme meu.” Lágrimas molham a medalha de um vencedor.

Percebemos como as histórias se atravessam, todas iguais em suas diferenças únicas. As vivências compartilhadas por trajetórias humanas limitadas por um mundo ridículo e limitado do capital.

Devemos desculpas aos atores. “A pior coisa de uma audição é o silêncio após a troca.” “Será que tem a ver comigo? Poderia ter sido melhor. E, durante a pandemia, chorou no banheiro do call-center em que trabalhava por não passar no teste.

O mercado de atuação se baseia na exploração da competitividade de indivíduos em situação de vulnerabilidade.

Sobre as desculpas esdrúxulas. “Não estava no perfil, até hoje não sei qual era o perfil.” Sem respostas, duvidamos de nós mesmos.

Atuar é trabalho, mas também é terapia. O fracasso ajuda a entender o que melhorar, o que faltou. Audição é sobre o fracasso. Porém, sinto que o fracasso é nosso, nós enquanto indústria da arte, como falhamos com os atores.

Os atores, ou mais importante ainda, as pessoas, entram e saem de nossas vidas como um teste de audição. Quando as relações entre pessoas se baseiam na sociedade de troca, onde um existe enquanto função-meio para fim determinado, anulamos a humanidade para substituí-la pela comercialidade pautada no indivíduo-mercadoria.

Captamos as trocas de olhares entre personagens-pessoas. As interações sem interação. A transcendência transcendental de Sartre. Fome e sede de viver, de fazer arte. Motivações e crises de existência. Trocas de olhares tão profundas quanto simples.

Atuação: “trabalho que permite experimentar outras palavras na sua boca”. A melhor parte é ser humano, a pior é ser máquina. Mas também dói ouvir os agradecimentos em uma ligação de recusa, de anúncio do fracasso. Como continuar e não desistir?

Ouvimos sobre os tipos pré-determinados. Quem tem cara de traficante?

A família passa pelos testes juntos. Sucesso é pagar as contas. O melhor é ter uma experiência digna, estar em vários lugares e lembrar que estava lá para atuar. Sucesso é a continuidade do trabalho e da lembrança. Lembrem-se de nós.

Ao final, pela porta de saída. Saem atores, pessoas, traumas internos, os riscos que cada um sabe que tomou. A saída é de emergência, temos a urgência de mudar.

Os atores precisam de condições dignas de trabalho. Arte é trabalho, estabilidade, futuro. Para que assim possamos ser livres para realizar.

Livres para sentir vontade de fugir e sair correndo, levando tudo que se sente.

 

Autor

  • Victor Finkler Lachowski

    Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (PPGCOM-UFPR), vinculado à linha de pesquisa Comunicação e Cultura; Mestre em Comunicação (PPGCOM-UFPR); Bacharel em Publicidade Propaganda (UFPR). Integrante do NEFICS - Núcleo de Estudos de Ficção Seriada e Audiovisualidades (UFPR/PPGCOM-UFPR/CNPq). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE). Bolsista CAPES-DS. Escritor, Roteirista e Redator. Autor da coletânea de contos "O Insosso e o Insólito entre os Pinheirais". Escritor da Revista Película (ISSN: 3085-6183). Pesquisador nas áreas de: Comunicação; Cinema; Cultura; Narrativas Audiovisuais; Narrativas Midiáticas e Comunicação Política.

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