REPARAÇÃO (2026) – ENTERRADO VIVO E ENFERRUJADO
Acompanhar a mostra Competitiva Brasileira de qualquer edição do Olhar de Cinema é sempre gratificante, e encontrar filmes como Reparação (2026) só reforça essa ideia. No dia 10 de junho de 2026, Marcus Curvelo, diretor e realizador geral da obra, comentou sobre como aquele filme era uma mescla entre ficção e biografia, com a dica dada pelo diretor sobre como assistir o filme sendo a mais simples, complexa e universal: “Deixem o filme falar por si”.
E quando o filme fala, sua voz em preto & branco diz sobre Salvador, sua urbanidade e litoralidade. Fala sobre os incontáveis “ois” que Marcus ensaia para conversar com seu pai, sobre a perda de parentes e o carro que não pega.
O filme solta frases entrecortadas pelos recortes e fragmentos do corpo de Marcus, suas cicatrizes nos pulsos. Em tom melancólico e meio irônico, mostra a chuva caindo e depois lavando o carro, os detalhes nos fazem perceber a ferrugem e a deterioração. Se cobre as feridas, se cobre os buracos, aquilo que está errado, pois mostra o interior.
Mãe e Filho dirigem até a natureza. A morte sempre se aproxima, sussurra coisas que nunca conseguimos ouvir, mas que o filme entendeu muito bem. A água imprópria para consumo, queda com a placa de “cuidado”, o carro enferrujado, todos símbolos da perda. A morte ensina os vivos por sinais.
As interações em família, nas quais o luto possibilita a volta do passado pelo presente, o privilégio de conversar mais uma vez, tudo antecede uma tempestade. Presságio do luto presente e seu embaralhamento cronológico, onde sentimentos e memórias coexistem. A busca por uma simbolização que vincula subjetividade com a natureza.
Talvez nesse momento os murmúrios de Reparação começam a formar frases mais nítidas aos sentidos, e começamos a escutar com os olhos. E assim ouvimos-vemos a cidade como extensão do corpo sendo ruminada pelo tempo. O pai se esvai no sofá, o corpo se vai, mas a dor é uma ruína cada vez mais descaracterizada se a memória não for exercitada, reelaborada.
O filme canta parabéns para Marcus, seus trinta e cinco anos anunciam um pai que reaparece na chuva. Dentro do pacote escrito “herança”, um revólver enferrujado. Do outro lado, sua mãe cola os pedaços de um crucifixo, a religião também se parte, mas a consertamos na esperança de que ela nos conserte.
Comecei a pensar sobre o Purgatório, a esperança por uma fé nunca exercida. Como a mãe na cama do hospital, sua lenta e progressiva deterioração, fossem a anunciação das orações necessárias para Marcus ascender ao paraíso, onde sua mãe irá por consertar Cristo. Marcus encontrou Jesus em pedaços quando voltou da primeira hemodiálise da mãe. A rima se fecha: religião não é sobre aqui, mas também é sobre tudo que fazemos aqui.
Nesse momento, o filme não apenas fala, ele discursa, mais ainda, disserta. Nos explica como Salvador é a costa com maior concentração de maresia. Nas mesmas ondas das quais a maresia surge, um megafone improvisado é fincado no mar. Água é memória, luto e perda, onde as cinzas de seu pai se tornam salgadas e falam sobre o passado.
O cadáver de tartaruga é um comentário do filme sobre o lento definhar das vidas longas e breves. E Marcus nos conta, e para seus pais, que sonhou com a realização de todos os seus sonhos, com o sonho de fazer cinema realizado. Sem pais, se sonha sozinho.
Com isso, nos é contado em tons de delírio sobre a espuma de vinagre com amido de milho, que se passa no corpo, na arma, para tirar a ferrugem da maresia. Combater a deterioração, restauração, degradação, por dentro e por fora, reparação.
Carros, prédios, cidade, sociedade, Jesus, câncer: salitre é o responsável pela carcomição física, psicológica e estrutural. As ondas e o avanço da destruição, as espumas do mar são vistas como um ácido corrosivo, insólitas pela neurose.
Se interior e exterior definham lentamente, a luz desenha contornos e fundos granulados, e o avanço da destruição é a sobreposição de uma imagem sobre a outra. Repetições da mãe como um recorte de memória viciada, repetitiva, quando se acaba só podemos relembrar.
Na reta final, o filme já cantava como alguém em delírio, voz rouca e transições impostas pela lucidez momentânea. O bastão é novamente conectado ao salitre, essa conexão entre os vivos e os mortos por aquilo que os une: a deterioração. A união, entre perda e perdedor, luto e lutador. Ao enterrar a arma, enterra a herança, enterra a si, enterra seus pais, enterra a morte e a dúvida da vida.
Ensaia novos “ois” e agora liga para a mãe. Conta sobre os cortes profundos nos pulsos. Parece que o filme nos diz sobre como tudo que se quebra se junta a uma desgraça maior que é a própria vida.
Filme e Marcus, nunca sabemos se há alguma diferença entre ambos, se tal separação é necessária, se desculpam. Diz que se sente mal pela falta de tudo, diz que ainda espera conseguir desfrutar pelo que ainda há de bom. O que há de bom? A casa vazia com o retrato do casamento de seus pais sob a mesa?
O que você tem a dizer para a maresia? Fumar em sua direção, devolver a fumaça para o mar, câncer se combate com câncer.
Filme-Marcus nos revela o segredo em silêncio: é capaz de ser enterrado vivo, tentando tirar a ferrugem de si, para não ficar estagnado e morrer.
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Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (PPGCOM-UFPR), vinculado à linha de pesquisa Comunicação e Cultura; Mestre em Comunicação (PPGCOM-UFPR); Bacharel em Publicidade Propaganda (UFPR). Integrante do NEFICS - Núcleo de Estudos de Ficção Seriada e Audiovisualidades (UFPR/PPGCOM-UFPR/CNPq). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE). Bolsista CAPES-DS. Escritor, Roteirista e Redator. Autor da coletânea de contos "O Insosso e o Insólito entre os Pinheirais". Escritor da Revista Película (ISSN: 3085-6183). Pesquisador nas áreas de: Comunicação; Cinema; Cultura; Narrativas Audiovisuais; Narrativas Midiáticas e Comunicação Política.
