VIVEIRO (2019): UM FILME SOBRE FAMÍLIA, TRABALHO, SAÚDE E A VIDA
Viveiro é um filme estranho. Dirigido por Lorcan Finnegan, o filme traz a história de um casal (interpretado por Jesse Eisenberg e Imogen Poots) que está à procura de um novo lugar para morar e acaba visitando uma casa no subúrbio da cidade. O corretor de imóveis que mostra a casa para o casal já demonstra um comportamento um pouco estranho, o que começa a gerar um clima de que algo ali não está certo. Esse clima se confirma quando, de repente, ele desaparece. O casal tenta sair de todo jeito da casa, mas acaba sempre retornando ao local em que estavam.
O filme tem um tom surrealista e é cheio de suspense. De início, não entendemos muito bem o motivo deste casal continuar preso à nova casa. Após algumas tentativas de sair, vem a chegada de um bebê. A chegada: dentro de uma caixa de papelão deixada na rua em frente à casa. E, na caixa, está escrito que eles poderão ser livres quando criarem a criança.
O bebê também não é normal, envelhece e cresce numa velocidade bem maior do que o comum e logo se torna uma criança, que repete muitas das coisas que aprende com os “pais”. Nesse ponto, o filme parece caminhar para ser uma simples metáfora de como é criar um filho, ou sobre como é ter um filho que veio inesperadamente. A maneira com que o casal rejeita a criança algumas vezes e tem dificuldades para lidar com ela reforça essa interpretação inicial. Mas o filme definitivamente não para por aí.
Ainda sem muita explicação, um ponto de virada importante vem quando o homem, que se chama Tom, joga uma bituca de cigarro no gramado do jardim e a grama em volta desaparece. Tom, então, todo dia passa a cavar esse buraco, em busca de respostas para a situação em que se encontra. Aqui também cabe uma interpretação sobre o papel de um pai na família. É muito comum, na sociedade atual, devido às condições sócio-históricas em que nos encontramos, que o homem de um casal heteroafetivo seja o encarregado de trabalhar fora de casa e trazer o sustento para a família. Não é difícil enxergar o buraco de Tom como uma espécie de trabalho, no qual ele passa o dia todo e que o afasta da família. Enquanto isso, Gemma, a “mãe”, acaba se apegando cada vez mais ao menino (que não tem nome no filme), pois cabe a ela o papel da “dona de casa” e criadora do filho. Além disso, a busca de respostas no buraco (ou trabalho) também pode ser uma espécie de analogia à forma que lidamos com o trabalho na sociedade atualmente: o trabalho foi alienado dos trabalhadores, e eles não mais se enxergam no que fazem. A sociedade caminhou para um status no qual muitas crises existenciais são geradas devido à forma com que os trabalhadores estão alheios às suas atividades.
Tom, porém, não é o único que busca respostas. Gemma, em uma de suas conversas com o garoto, também comenta que gostaria de entender mais sobre o que estava acontecendo. Dias depois, o filho aparece com um livro em casa, que está escrito em uma linguagem estranha, como se fosse algo alienígena, cheio de imagens bizarras (que já haviam aparecido antes na televisão da casa) e uma imagem que remete a uma forma de comunicação na qual a voz sai de um órgão localizado no pescoço (parecido com um sapo ao coaxar). Gemma acaba descobrindo que o garoto conseguiu o livro com outra pessoa e, em uma brincadeira, ela tenta fazer com que o menino a conte mais sobre. No entanto, isso leva a outro ponto de virada importante do roteiro, que é a descoberta de que o menino tem esse “poder” comunicativo que estava descrito no livro.
Um pouco depois disso, o menino já começa a ser retratado como um jovem adulto, dando de novo um salto em sua idade e tamanho de forma surreal. Agora, começamos a ver o menino tratando os “pais” com mais indiferença, saindo mais vezes para encontros que não sabemos nada e com uma personalidade mais formada. Assim como na vida fora das telas, pode-se pensar que é o contato com a televisão e com pessoas de fora da família que o tornou desse jeito.
Mais para frente, já chegando perto da conclusão da obra, Tom começa a passar mal, enquanto ainda cava seu buraco. Primeiramente, pensamos: estaríamos nós fadados a continuarmos trabalhando até nossa morte sem direito à aposentadoria? Mas a morte só chega, de fato, quando ele dá um último trago em seu cigarro. Esse momento possibilita que enxerguemos também com outros olhos: Tom cavou sua própria cova — literalmente — ao manter um vício que lhe fazia mal, fumar constantemente. Afinal, o buraco se iniciou também com um cigarro.
Depois de morto, o garoto enterra Tom no buraco do jardim e Gemma passa a conviver sozinha com o garoto. Ela até passa a ter que dormir no carro enquanto a casa sobra apenas para o “filho”. Isso dura até o dia em que Gemma, ao ver o menino saindo de casa, sorrateiramente vai até ele e acerta uma picaretada no garoto, que não sofre ferimentos graves e acaba fugindo, como um animal, andando sobre os quatro membros. Durante a fuga, o menino foge por um espaço que ele abre entre o meio-fio e a rua, que atribui acesso a um local confuso, distorcido, mas que mantém algumas semelhanças com o bairro original. Gemma segue ele e passa por várias outras casas, nas quais ela encontra pessoas em situações parecidas com o que ela e Tom passaram, incluindo uma que não aguentou a pressão de criar uma criança e acabou sendo vítima de um suicídio.
Por fim, Gemma também morre e o menino a enterra junto ao marido, no buraco. A forma fria com que o menino lida com a morte dos “pais” também tem relação com uma cena no início do filme, que acontece ainda antes do casal ir até o corretor de imóveis. Quando o filme começa, vê-se um Cuco roubando o ninho de outro pássaro, que acaba morrendo e que será enterrado por Tom. O enterro do pássaro acontece sem muita cerimônia, é cavado um pequeno buraco, ele é colocado dentro e depois coberto de terra. Depois, Tom até parece brincar com a situação, com a insignificância de uma vida animal. Essa é a mesma insignificância com a qual o menino parece depois tratar Tom e Gemma. E, se formos pensar no nome do filme, o “viveiro” — no original, vivarium — também é um objeto usado para animais. Seriam, então, nossas casas como viveiros? Estamos presos a elas como animais às gaiolas?
Após a morte de Gemma, chega a última cena do filme: a morte do corretor. O garoto sem nome sai do bairro e vai até a mesma imobiliária na qual o casal foi durante o começo do filme. Lá, ele encontra o corretor, que morre — também durante o trabalho —, deixando, assim, uma vaga para o garoto se tornar o novo corretor, fechando um ciclo. O fechamento desse ciclo reforça a ideia de que esse problema misterioso é algo estrutural e que se repete através de gerações.
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Doutorando em Comunicação pela UNIP, com bolsa CAPES. Mestre em Comunicação Audiovisual pelo PPGCOM-UAM, com bolsa CAPES. Integrante do grupo de pesquisa "NARRATOPIAS: Narrativas, Temporalidades e Tecnologias da Comunicação", do(a) Universidade Paulista (UNIP). Graduado em Rádio, TV e Internet pela Universidade Anhembi Morumbi (2020).
