O DESEJO QUE NUNCA FOI NOSSO: PASOLINI, POLANSKI E KUBRICK SOB O OLHAR DE LACAN
Slavoj Zizek disse uma vez que “o cinema é a arte perversa por excelência. Ele não te dá o que você deseja. Ele te ensina como desejar”. A frase, que aparece no documentário O Guia Pervertido do Cinema (2006), não é uma provocação vazia, e sim uma chave de leitura. Se o cinema nos ensina a desejar, então nosso desejo nunca começa em nós. Começa na tela, no olhar e, principalmente, no outro.
Jacques Lacan formulou essa ideia com precisão clínica décadas antes. No Seminário 6: O desejo e sua interpretação (1958-1959), ele cunhou uma das frases mais repetidas da psicanálise: “O desejo do homem é o desejo do Outro”. Não se trata de dizer que desejamos as mesmas coisas que outra pessoa. Trata-se de algo mais revelador: nosso desejo nasce do que supomos que o Outro deseja de nós, ou do que ele nos revela sobre o próprio desejo. Não somos a origem, somos o que ressoa.

Este texto propõe uma passagem por três filmes que filmaram essa perspectiva de formas distintas. Teorema (1968), de Paolo Pasolini; Lua de Fel (1992), de Roman Polanski; e De Olhos Bem Fechados (1999), de Stanley Kubrick. Nos três, o desejo do protagonista não nasce por vontade própria. Ele é despertado, fabricado ou implantado pelo Outro. E nos três, quando o sujeito descobre isso, já não consegue mais voltar ao que era.

Teorema: a presença que revela o vazio
Uma família burguesa vive numa mansão em Milão como uma engrenagem silenciosa, até que um Visitante, interpretado por Terence Stamp, chega sem nome, sem história e sem explicação. Ele não seduz no sentido convencional, mas sua presença basta para que cada membro da família descubra um desejo que não sabia que tinha: a empregada em sofrimento profundo, o filho que nunca teve confiança, a mãe sexualmente adormecida, a filha infantilizada e o pai que nunca questionou a própria identidade.
O que surge ali não é exatamente um desejo provocado por outro, mas algo mais estrutural: cada personagem passa a desejar a partir daquele lugar que o Visitante ocupa. Ele não desperta desejos específicos, sua presença é que oferece um lugar a partir do qual cada personagem passa a enxergar a própria falta e, consequentemente, a desejar. E, quando desaparece, tudo começa a ruir para a família. Os personagens não retornam ao que eram antes porque o encontro revelou uma falta que já não pode voltar a ser ignorada.
Lua de Fel: o desejo que se implanta pela palavra
Num cruzeiro no Mediterrâneo, o escritor americano Oscar, preso a uma cadeira de rodas, começa a se aproximar de Nigel, um inglês aparentemente estável em seu casamento. Aos poucos, ele passa a narrar a história que viveu com Mimi, uma relação que começa intensa, quase obsessiva, e vai se transformando em algo mais complexo, atravessado por prazer, desgaste, humilhação e inversões de poder. Essa história não é contada de uma vez, mas em fragmentos que se acumulam, noite após noite.
O efeito disso em Nigel é gradual e decisivo. Ele não se interessa por Mimi de imediato, mas, à medida que a escuta, passa a enxergá-la através do olhar de Oscar, como se o desejo fosse sendo moldado ali, dentro da narrativa do outro. O que o atrai não é exatamente a mulher diante dele, mas a versão dela construída pelas palavras de outro homem, um desejo que nasce mediado e já carregado de fantasia. Quando tenta responder a esse impulso, percebe que não há nada de espontâneo nele, apenas a consequência de ter entrado na história de alguém que soube exatamente como fazer o outro desejar.
De Olhos Bem Fechados: a confissão que destrói
Bill e Alice Harford parecem ter uma vida perfeita até que, numa noite após uma festa, Alice confessa que viu um oficial da marinha durante umas férias e que, sem trocar uma palavra, teria largado tudo por ele. Essa confissão é o gatilho de todo o filme, porque Bill não sai para a noite por vontade própria. Ele sai porque o desejo de Alice o destruiu por dentro.
A busca incessante por uma aventura em Nova York, a sociedade secreta, as máscaras, o ritual numa mansão: nada disso é desejo de Bill, é uma reação desesperada ao desejo do Outro. Se ela deseja, por que ele não desejaria? E o final de Kubrick é genial na sua simplicidade, porque depois de toda a espiral, a palavra que encerra o filme não é reconciliação, é o reconhecimento de que o desejo continua ali entre eles e que jamais será inteiramente de nenhum dos dois.
A tese em três atos
Os três filmes formam um arco que vai se fechando. Em Teorema, o Outro é uma presença que reorganiza silenciosamente a vida de uma família. Em Lua de Fel, o Outro é uma narrativa capaz de implantar um desejo em quem escuta. Em De Olhos Bem Fechados, o Outro é a pessoa amada, cuja confissão destrói a fantasia de autonomia sobre a qual o sujeito se sustentava. O mecanismo muda, mas a lógica permanece: o desejo nunca surge em isolamento. Ele aparece quando algo externo invade nosso mundo e altera a forma como nos relacionamos com aquilo que nos falta.
Talvez seja por isso que Pasolini, Polanski e Kubrick pareçam tão próximos apesar de suas diferenças. Cada um, à sua maneira, filmou uma forma de intrusão. Um estranho entra numa casa, uma história entra numa mente, uma confissão entra num casamento. Em todos os casos, o que é invadido não é apenas a estabilidade dos personagens, mas a própria ideia de que somos autores dos nossos desejos. E talvez essa seja a pergunta mais desconfortável que esses filmes deixam para trás: se nossos desejos sempre chegam até nós através do olhar, da palavra ou da presença de alguém, quanto daquilo que chamamos de “eu” realmente se originou em nós?

REFERÊNCIAS
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Claudia Berliner. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
ZIZEK, Slavoj. O Guia Pervertido do Cinema. Direção: Sophie Fiennes. Reino Unido/Áustria/Holanda: Amoeba Film, 2006. 1 DVD (150 min).
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Comunicador social, pós-graduado em Transformação Digital e pesquisador independente de cinema e cultura. Possui formação complementar em crítica de cinema e interesse em análises que conectam linguagem audiovisual, comportamento e sociedade.
