A ELEGÂNCIA DA OBSOLESCÊNCIA EM O DIABO VESTE PRADA 2 

 

Durante anos, O Diabo Veste Prada foi tratado como um filme sobre moda, com suas superfícies impecáveis, seus saltos impossíveis, sua estética fria e sedutora. Mas essa sempre foi uma leitura confortável demais. Por trás das roupas e das capas brilhantes, havia algo mais incômodo: um retrato preciso de como o desejo de reconhecimento captura um sujeito por completo.

Quase duas décadas depois, O Diabo Veste Prada 2 retorna a esse universo, não para repeti-lo, mas para tencioná-lo. O filme desloca o eixo da narrativa original: se antes acompanhávamos uma ascensão, agora o que está em jogo é a permanência. Mais especificamente, o medo de se tornar irrelevante. Em um mundo atravessado por algoritmos, excesso de imagens e produção contínua de si, a questão já não é mais como entrar nesse sistema, mas como continuar existindo dentro dele.

Para entender esse deslocamento, é preciso lembrar o que estava em jogo em 2006. O Diabo Veste Prada capturava um momento em que o trabalho ainda podia ser fantasiado como promessa, identidade, pertencimento e futuro. Andrea Sachs atravessava aquele universo como quem descobre, pouco a pouco, o preço de ser vista. Miranda Priestly, por sua vez, operava como algo além de uma chefe, mas sim, uma instância de legitimação. Seu poder não vinha do excesso, mas da precisão. Ela não precisava se impor, porque definia, silenciosamente, o que importava.

O primeiro filme compreendia que sistemas de poder não se sustentam apenas pela violência explícita, mas pela adesão. Andy não era apenas explorada; ela desejava permanecer. O reconhecimento funcionava como moeda simbólica suficiente para justificar qualquer sacrifício. Havia ali uma engrenagem sofisticada, na qual ser visto equivalia, em alguma medida, a existir.

Há, no entanto, uma diferença estrutural entre os dois filmes que vai além da passagem do tempo. O primeiro organiza sua narrativa a partir da entrada de Andy em um mundo fechado, quase autossuficiente, onde as regras são claras e a hierarquia, estável. O segundo, ao contrário, se constrói a partir da impossibilidade de manter esse fechamento. O que antes era um sistema relativamente coeso agora se mostra poroso, atravessado por forças externas que não podem ser controladas. Se o primeiro filme é sobre ser capturado por um universo de sentido, o segundo é sobre o esvaziamento desse mesmo universo. E sobre a dificuldade de sustentar qualquer centralidade em meio à dispersão.

Essa transformação também se inscreve na própria figura de Miranda Priestly. Em 2006, Miranda operava como uma presença quase absoluta: sua autoridade não precisava ser afirmada porque era pressuposta. Havia algo de imutável nela, como se estivesse fora do tempo. Já no segundo filme, essa mesma figura retorna marcada por uma espécie de deslocamento. Ela continua precisa, elegante e temida, mas já não é intocável. Sua autoridade precisa ser atualizada, ajustada e negociada. O gesto que antes organizava o mundo agora corre o risco de não encontrar resposta. E talvez seja justamente essa pequena fissura que a humaniza, sem jamais diminuí-la.

Em O Diabo Veste Prada 2, a engrenagem que sustentava esse universo já não opera com a mesma estabilidade. A internet não destruiu a autoridade — ela a fragmentou. O que antes era centralizado em instituições, como a revista Runway, agora se dispersa em fluxos contínuos de imagens, opiniões e tendências. A curadoria deixa de ser um privilégio e se torna um campo em disputa. Nesse cenário, a autoridade não desaparece, mas perde densidade. Ela precisa ser constantemente reafirmada, negociada, performada.

É nesse ponto que o filme encontra sua questão central: o que acontece com o poder quando ele deixa de ser necessário?

Miranda Priestly já não ocupa um lugar incontestável. Sua presença, antes suficiente para organizar o mundo ao redor, agora precisa disputar atenção com um ambiente saturado, onde tudo já nasce velho. Há, inclusive, uma cena que sintetiza essa transformação com precisão quase cruel: ao invés de lançar o casaco sobre a assistente — gesto que se tornou um dos emblemas de sua autoridade —, Miranda o segura e o guarda sozinha de forma desajeitada. O movimento é mínimo, mas seu efeito é profundo. Não se trata apenas de uma adaptação a um mundo mais atento às dinâmicas de poder, frequentemente enquadradas sob o rótulo do “politicamente correto”. Trata-se de algo mais estrutural, ou seja, até mesmo os rituais que sustentavam a autoridade já não podem ser repetidos sem mediação. 

Há ainda um outro momento, menos evidente, mas igualmente revelador: em uma reunião, Miranda escuta mais do que fala. A pausa, perceptível, parece deslocar todo o peso da cena. Assistindo, tive a impressão de que não era falta de domínio, era cálculo. Como se, naquele mundo novo, até o silêncio precisasse ser reaprendido.

Nesse novo arranjo, Andy retorna como alguém que compreende o sistema, mas não se encontra fora dele. Sua relação com aquele universo já não é de fascínio, mas também não é de recusa plena. Há um reconhecimento silencioso de que certas formas de desejo não se abandonam — apenas se transformam. Emily, por outro lado, surge como uma atualização mais dura dessa lógica: estratégica, adaptada, perfeitamente integrada ao novo regime de visibilidade. Se antes era subordinada, agora encarna a continuidade do sistema sob novas regras.

O confronto entre as duas não se organiza como oposição clássica, mas como variação. Ambas são produtos do mesmo mundo, um mundo que mudou sem, no entanto, se tornar menos exigente. A diferença é que, agora, o custo de permanecer relevante não se paga apenas com submissão, mas com constante reinvenção.

Entre memes que cristalizaram falas, gestos e expressões do primeiro filme, transformando Miranda em um ícone que sobrevive mais como imagem do que como personagem — e a tentativa da continuação de reinscrevê-la em um novo contexto, emerge um descompasso inevitável. O mundo que consagrou aquelas cenas já não existe da mesma forma. E talvez o maior desafio de O Diabo Veste Prada 2 seja justamente esse: não atualizar sua história, mas reconhecer que toda atualização carrega, em si, a marca da perda.

Se o primeiro filme capturava o brilho de um sistema em pleno funcionamento, este segundo insiste em observar o que acontece quando esse brilho começa a falhar. Não há aqui uma queda espetacular, nem uma redenção reconfortante. O que se vê é algo mais discreto e, por isso mesmo, mais incômodo: a lenta erosão da autoridade.

No fim, talvez o diabo não vista mais Prada — mas ainda exige ser lembrado.

Autor

  • Philipe Erick Alves

    Indefinível, mas, entre tantas coisas que é — e não é —, mineiro, graduado em Psicologia pela UFMG, psicanalista, servidor público e escritor. As palavras são sua âncora em meio às tempestades em alto-mar.

    Ver todos os posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *