SOBRE VIVER A VIDA E ALGUMAS OUTRAS COISAS MAIS
1.
Vivre Sa Vie (1962) de Jean-Luc Godard é um filme liberto e solto. Liberto das amarras de um contexto clássico de se fazer e pensar cinema e solto mediante as possibilidades nesse novo contexto. É curioso, mas notável, pensar e imaginar sobre o que se poderia fazer nessas circunstâncias e é extremamente gratificante encontrar essas imagens ditas em espaço-tempo, ou melhor, em lacuna-possibilidade.

Nana, uma jovem parisiense que trabalha numa loja de discos e que está decepcionada com a vida, é a figura central das ausências e possíveis possibilidades nesse filme de Jean-Luc Godard. Não é incômodo e nem maçante encontrar Nana nessa situação, é factível e normal. Pessoas entristecem, têm empregos de que não gostam, se chateiam com a vida e vivem em busca de uma nova esperança, assim como Nana. Entretanto, aqui, essa busca pela novidade em meio ao comum é atraente. Existe uma nítida mudança de comportamento, não da personagem, mas do nosso olhar condicionado pelo filme. Reservamos uma vontade e uma obstinação interessada nesse corpo-imagem (ao olhar para a espera de Nana emergir). Estamos aguardando algo a ser fomentado, não sendo necessariamente sucesso ou coisa semelhante, mas algo a vir a ser (mediante à personagem). Uma espera nada comum, porém satisfatória ao percorrer o sentido oposto. A construção elaborada por Godard é central nesse gesto dedicado de percorrimento.
2.
Desfazer-se para propor. Obstruir para passar por cima. Engolir para engasgar. Uma libertação da forma para propor a liberdade de ir a algum lugar. Godard, desde seus filmes anteriores, vem construindo cacos, olhando para aberturas e colhendo imagens. Não à toa, as suas doze blocagens propostas durante esse filme, intercaladas por intertítulos de breves acontecimentos que prosseguem durante o bloco, criam lacunas, mas que, acima de tudo, propõem possibilidades para a personagem e para nós, promovendo uma visualização de como prosseguir em cima do fadado fílmico ou vivido. Uma afronta que funciona como um conselho para a vida e que se aplica como uma engrenagem fílmica.
Proposição, hipótese e sina. A espera pelo acontecimento é de algum modo conexa à chance de modificação de um destino? A enunciação, o gesto e o desfecho nos confundem desde sempre, principalmente pela ordem que isso toma em nossas vidas e em filmes como esse. O deslanche me parece necessário, mesmo que o destino seja a morte, Nana parece ser tomada para compartilhar desse mesmo pensamento. Todo contrassenso é um alívio e toda contramão é louvável e, levando isso adiante, enxergamos o filme, fechando os olhos para isso, o apagamos. Numa outra dimensão, escrevendo com isso à vista, derrubamos diversos dos pecados de um eu-fixo, filmando com isso em mente, criamos obras como essas. Uma questão de escolha. Escrevo para entender e filmo para pensar. Continua.

A partir dessas interlocuções concebidas no filme por Godard, temos todo o contrassenso concentrado em seu fazer fílmico num contexto como esse. Nisso sobra-se a possibilidade, advinda de um espaço-tempo e de uma imagem e texto com alguns anos de história, mas que agora, mais do que nunca, servem à subversão. O cinema como gesto rebelde e não mais apenas como agente servente. Com isso, nesse esvaziamento de Nana, dos passantes e de seus encontros, por meio dessa composição excêntrica e singular formulada durante o filme, cria-se a ideia de uma abstração de uma imagem oportuna guiada por uma ousadia cinematográfica. Assim que Vivre Sa Vie é feito. Sem rostos, mas com as mãos. Sem pés, mas com cabeças. Um novo jeito de andar. Lacuna-possibilidade.
3.
Ao Nana morrer com um tiro de um lado e um tiro de um outro num estopim maldito proposto por Godard, é encerrado o ciclo culposo do filme. Culpado por filmar, culpado por enganar e culpado por indagar. A palavra “Fim” exibida em letras garrafais no filme não prepara para uma morte esquizofrênica do cinema, mas sim para um novo começo que nasce a partir de gestos complexos de atos contínuos e intencionalmente lacunares. Vejamos o que nasce a partir dessas possibilidades.
Completamos os filmes na medida em que eles nos completam. Algumas vezes mais eles, outras vezes mais nós. Não necessariamente nessa ordem e nem da mesma forma.
O resto fica a cargo da ousadia em se fazer imagens.
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Discente do curso de Cinema e Audiovisual da UESB - Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e bolsista no programa Janela Indiscreta. Realiza e pensa o cinema através da montagem, escrita e curadoria. Montou e co-dirigiu o curta-metragem experimental "Diálogo Bulbul", premiado na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Coordena o projeto universitário Cineclube Película, foi Júri Jovem do XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema e é idealizador da Mostra Audiovisual Universitária Filmes de Mochila.
