O DIREITO AO ÓCIO EM DIAS DE GREVE

O DIREITO AO ÓCIO EM DIAS DE GREVE

Em 2009, o cineasta Adirley Queiroz lançava mais um curta-metragem, Dias de greve, que, como outros de seus filmes, retrata a realidade de Ceilândia, cidade-satélite de Brasília. Na trama, acompanhamos um grupo de serralheiros que organizam uma greve, no entanto, no decorrer dos dias, os trabalhadores não apenas se tornam mais conscientes, como passam a apreciar uma cidade que há muito parecia não lhes pertencer.

Assim, enquanto as negociações não chegam a um consenso, os trabalhadores redescobrem uma Ceilândia que não se limita apenas ao galpão da empresa, revitalizando as emoções de pessoas sublimadas por um sistema que escraviza, desumaniza e ignora a necessidade do tempo ocioso para a construção da individualidade. Paul Lafargue, em seu manifesto O direito à preguiça, exalta essa necessidade da classe operária, forçada a perder momentos particulares em troca de horas exaustivas no trabalho, o qual considera a “causa de toda degenerescência intelectual”. À medida que ocorre um processo de reaproximação com o próprio ambiente do qual eles jamais saíram, os homens são envolvidos também em um processo de reflexão, onde percebem como são explorados e que devem lutar por melhores condições.

O anarquista Bob Black torna mais ácida a discussão em seu ensaio A abolição do trabalho (transformado, posteriormente, em um quadrinho manifesto por Bruno Borges), alimentando ainda mais a crítica às relações entre operário e um modelo de trabalho exploratório. Mais recentemente, no Brasil, o assunto da redução da carga horária de trabalho gerou certa comoção imediata, logo sendo esquecida das pautas das redes sociais, mas comprovando que o tema segue vivo.

Adirley aborda outras questões inerentes à realidade marginalizada de operários periféricos, como escassez de possibilidades a qual um trabalhador explorado e precarizado é obrigado a enfrentar, se sujeitando à insalubridade devido às necessidades de sobrevivência e ao medo provocado pelo desemprego estrutural das economias capitalistas, ao passo que percebem a complexidade de uma organização sindical efetiva. O cineasta parece querer mostrar ao mundo os sentimentos dos oprimidos, revelar ao mundo que a periferia, que a margem, sofre. E nisso Queiroz não tem como errar, pois quando fala em nome de Ceilândia, ele fala de si próprio.

 

 

Autor

  • Breno Santana

    Graduando em Letras Português pela Universidade Estadual de Montes Claros, nasceu em Unaí, cidade mineira próxima à Brasília. Pesquisa temas como discurso científico no ambiente digital, literatura e cinema, em especial o cinema brasiliense

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