O MENINO QUE DESCOBRIU O VENTO

O MENINO QUE DESCOBRIU O VENTO

A prática de usar o cinema em educação é tão antiga quanto ambos. Excetuando-se filmes de ação e violência estadunidenses, a maioria dos cinemas (sejam regionais, temáticos ou de autor) é em si sobre histórias e temas que oferecem alguma reflexão pedagógica. Não acho que isso por si baste para “pedagogizar” um filme, afinal, não é exatamente para isso que a maioria deles é feita. Para diferenciar uma experiência educacional com o cinema, é preciso ir além da fruição. Portanto, é preciso tirá-lo desse lugar de objeto de consumo e trazê-lo para um ecossistema de reflexão sobre a sociedade, um tema, um personagem, técnicas audiovisuais, enfim, as possibilidades são muitas, mas elas precisam ser exercidas como desafio de pensar cinema e educação.  

“O menino que descobriu o vento” (2019), filme na versão ficcional adaptada, dirigida e estrelada por Chiwetel Ejiofor, e baseado no livro de memórias homônimo de William Kamkwamba, é um desses filmes que preenche de diversas maneiras a proposta de cinema na educação. Suas diferentes possibilidades interpretativas, atravessando temas como juventude e os conflitos geracionais, a África como cenário e personagem central das narrativas contemporâneas, e o poder da criatividade e da determinação, sempre podem ser ouvidos em debates estudantis que seguem sua exibição. Ocorre que, em pelo menos três anos seguidos, pude experimentar atividades pedagógicas com este filme no SENAC de São Carlos como professor de ensino médio da instituição. Os escritos que se seguem são reflexões provenientes destas experiências e dos diálogos com outros professores, mas sobretudo com meus alunos e alunas, tendo como base esta obra. 

A história do filme como produto cultural remete ao alcance midiático global que a turbina eólica de Kamkwamba atinge em meados de 2006, quando é abordada em matérias no The Daily Times e no The Wall Street Journal. Kamkwamba é convidado para falar no TED Global 2007 na Tanzânia, quando recebe ajuda para financiar sua educação secundária no Christian Bible College Christian Academy em Lilongwe, no Malawi. Kamkwamba lançou em setembro de 2009 seu livro de memórias “The Boy Who Harnessed the Wind”, obra que viria a se tornar livro de referência para diversas universidades do norte global. Sua história é o tema do documentário William and the Windmill, que ganhou o Grande Prêmio do Júri de Melhor Documentário no festival de cinema South By Southwest 2013 em Austin, Texas.

O filme de Chiwetel Ejiofor parece querer organizar a questão ambiental fugindo da estética contemporânea predominante do gênero documentário. O ponto que o orienta debate gira em torno das relações dramáticas entre as pessoas e o meio ambiente, evidenciando as lógicas contra hegemônicas que encantam o cinema global, já saturado de velhas fórmulas – como o próprio gênero documental. Nele, os impactos das mudanças climáticas são trazidos por aqueles que vivem a questão de uma forma íntima, permeada pela desigualdade social, pela precariedade dos recursos e pela fome, evidenciando formas de enfrentamento que privilegiam a ação local, em comunidade. Escapando assim da lógica industrial e global que povoa como tema dissimulado o documentário “cinemão” ambiental dos anos 2020. 

A abertura do filme se constrói em torno da morte, do funeral e do cortejo fúnebre, culminando na herança deixada ao irmão e ao filho. A intervenção do sacerdote, ao afirmar que “é pelo fruto que se conhece a árvore”, estabelece uma metáfora sobre legado e continuidade. Assim, O Menino que Descobriu o Vento inicia-se com a morte do avô de William, evidenciando a presença da comunidade, a perpetuação dos vínculos familiares e a dimensão espiritual da floresta. Esse início sugere que a obra está ancorada em ritos de passagem, marcados pela transição da juventude à vida adulta, pela divisão de papéis entre escolarização masculina e trabalho feminino e pelo imperativo de sustentar financeiramente a educação.

Paralelamente, a figura de William aparece vinculada ao conserto do rádio e às experiências recorrentes no ferro-velho, indicativas de sua curiosidade científica e de seu processo de formação. Os problemas que emergem na narrativa abrangem distintas esferas: a família e sua relação com a terra; a agricultura e o cultivo do tabaco; a mediação da religião; bem como as tensões políticas e econômicas associadas ao uso das árvores e às dissidências comunitárias. A esses aspectos somam-se a escola, a instabilidade climática e a amizade com Gilbert, elementos que configuram os desafios estruturais enfrentados pelo protagonista e que situam o filme em um horizonte de análise crítica das condições sociais do Malawi.

O filme mostra como o futuro depende da experiência no hoje. O problema ambiental é marcado pela ilusão de que a venda das árvores em troca de dinheiro seria uma solução para os problemas da pobreza naquela comunidade. É importante saber relacionar estas duas problemáticas. A morte das árvores leva à morte da terra. O 11 de setembro é sutilmente ignorado quando noticiado no rádio: num gesto cinematográfico mínimo, entendemos que o foco aqui são as experiências sociais não hegemônicas em nossa era. São situações – por mais que sejam globais e gigantes em seus impactos, tal qual as crises alimentares enfrentadas pelo Malawi – são experiências pouco abordadas no cinema ou em veículos globais que detêm certa atenção mundial. No cenário do filme, o que realmente importa é a busca por alguma garantia de plantação, pois o avanço das catástrofes climáticas e o burocrata que fala com o pai de William anunciam: o Malawi enfrentará a fome.

É preciso estar atento aos trançados temáticos que a história de Kamkwamba nos revela. A dimensão política também fica evidente na medida em que a seca se intensifica: o governo insiste em negar a gravidade da crise, enquanto o preço dos alimentos aumenta de forma acelerada. A busca por uma solução que gira em torno da organização política revela um trajeto da violência experimentado pelo pai do garoto. O líder político da aldeia é espancado após falas que incomodam o governo central. A precarização atinge a escola, e os professores deixam de receber seus salários e fogem. Há um conjunto de elementos que avança na narrativa da anomia social e da crise humanitária que se avizinha. A trajetória da irmã, entretanto, que foge com o professor Katigunda, e a invasão de assaltantes à casa quando estão só as mulheres marcam a vulnerabilidade feminina em situações de precariedade. A fome e a pilhagem de alimentos revelam um valor que ultrapassa o dinheiro, simbolizando a luta pela sobrevivência diante do iminente colapso social.

É neste cenário que William projeta no dínamo da bicicleta uma espécie de luz da salvação. A luz, eterna metáfora da razão nas sociedades ocidentais, comunica uma apropriação de ideias que pode ter sim sua relevância como progresso. Mas em sua própria escala, a local. Com finalidades implícitas desta condição, e não para atender grandes mercados de tamanho e voracidade globais, há respostas bastante significativas para o que seriam soluções efetivas para o enfrentamento das mudanças climáticas. Não foi fácil para o jovem enfrentar o cenário de fome e violência. Mas a narrativa cria ainda uma ambiência dramática no nível familiar. É o pai de William que parece emergir como uma espécie de vilão que impede seu desenvolvimento como um herói da história. Sua insistência, tanto nas práticas quanto nos valores tradicionais, revela como o machismo patriarcal se consolida como desafio central para a possibilidade de transformação social. O trançado temático é agora também moral. E o recado é: não serão só as estruturas econômicas que devem ser transformadas para o enfrentamento da questão ambiental. 

 É esse o percurso que nos conduz ao final do filme, quando se retoma a união comunal para o plantio. Um forte senso de coletividade, marcado pela conclusão do moinho de vento, evidencia um tom não catastrófico fundamental para se pensar as questões climáticas. Se antes existia a terra como um patrimônio morto e um juramento de não rezar como os antepassados que pediam chuva, agora o gesto coletivo redefine a relação com o território e com o próprio sentido de esperança. Os espíritos do bosque voltam a caminhar. Esse aceno às entidades sugere que talvez seja em outras formas que resida uma possível solução para as mudanças climáticas. É preciso crer nelas. 

Autor

  • Armando Manoel Neto

    Doutorando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação, ambos pela Universidade Federal de São Carlos. Especialista em Ensino de Sociologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (CPNV/UFMS). Cientista social (bacharel e licenciatura) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - FFLCH/USP. Professor do ensino médio e técnico do SENAC São Carlos, área ciências humanas na especialidade sociologia desde 2020. Atua como parecerista de projetos culturais na categoria audiovisual/cinema desde 2023.

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