HAMNET (2025) – A ARTE É A HISTÓRIA DO SOFRIMENTO ACUMULADO

HAMNET (2025) – A ARTE É A HISTÓRIA DO SOFRIMENTO ACUMULADO

 

Meu pai era geólogo, trabalhava em plataforma de petróleo, 400 km, às vezes 450 km, de distância do continente, no meio do oceano. Ele passou metade da minha infância e da minha irmã viajando. Eu chorava e chorava com saudades dele. Qualquer filme, animação, desenho animado, que tivesse menção à figura do pai enquanto o meu estava embarcado, me fazia soluçar e engolir minhas lágrimas.

No momento em que Hamnet chora, pois seu pai precisa novamente viajar para Londres e se ausentar por muito tempo, vi meu eu de 5 anos fazendo birra, pois o meu iria para longe novamente. Senti lágrimas de criança em meus olhos e rosto.

Adorno (2014) propõe que indústria cultural produza seus bens a partir de um pêndulo que direciona ora para violência cartunesca, ora para inserção de psicologia. Hamnet (2026) ousa fazer com que essa colonização do trágico se desenvolva com a inserção de psicologia, de experiência, de aprendizado, de transformações coerentes nos personagens a partir de suas próprias narrativas, de maneira refinada, com a finalidade que esses processos conduzem para o próprio espírito de manufatura da criação artística, um mérito dos maiores na história do cinema.

O filme de Chloé Zhao dignifica o trágico e o seu processo de feitura, a arte enquanto trabalho social, fruto de um espírito singular que captura esteticamente sentimentos e ocasiões tão únicas, vivências íntimas, e os compartilha com a cultura, com o social, com o Outro, através de uma coisa diferente, nova, modificada, mas que produz em si efeito partilhado.

Um dos grandes pontos da tragédia é resolver os conflitos entre leis da natureza e as leis da política, tida como antinatureza para Benjamin (1986). Agnes é os rumos nunca aleatórios do vento, o temor das abelhas, o cuidado, o respeito, as trocas e as devoluções à natureza, a bruxaria como ânima entre o fetiche mulher/natureza, a Gaia que pariu o trágico. William é a arte enquanto espírito objetivo, dependente do social, do trabalho, da infraestrutura que o apreende, os sonhos que não cabem no ofício formal. 

Uma união que introduz sutilmente os elementos futuros das obras de Shakespeare. A inconciliação de famílias de Romeu e Julieta, as bruxas de Macbeth, entre outras referências que nos preparam para a realidade do filme: a arte acontece na cabeça do artista, no “outro lugar” que ele visita quando se inspira. Inspiração que se encontra como a reelaboração da vida, o reencontro da vida com algo que só pode ser para além dela, a estética, o sensível, e encontra universalidade.

Nunca são apenas palavras.

O amor produz ética, o filho Hamnet, um herói trágico, que como todo herói trágico, é vitimado pela sua própria eticidade. Seu olhar para trás, no palco, pelo véu do esquecimento que distorce, mas não apaga. Um purgatório, local onde a liberdade é almejada, e nesse caso a arte é liberdade. Não liberdade transcendental, mas aquela que permite atravessar uma porta para um espaço maior, mais amplo, mais indefinível. 

A arte não liberta pela alienação de seu processo, mas sim para que possa abranger o universal. A realização da arte em um sentido hegeliano de efetivamente realizar-se no mundo a partir de uma particularidade. O Infinito realizado no Finito. Agnes, alheia ao processo de enfeitiçamento da arte, demora para se envolver além do objetivo e, ao entender o papel da arte, contempla a dialética entre subjetividade, dor encantada, e objetividade, choro emocionado. E sabe que a arte existe para que a dor encontre outros corações que possam chorar e estender suas mãos em direção ao palco da tragédia. Mão estendidas não em direção ao céu, mas ao protagonista, ao humano, que contém em si as dores físicas e espirituais de todos os seus iguais em diferenças, pois contemos todos nós um trágico próprio.

Em torno dos debates se os personagens do próprio Shakespeare seriam dotados de psicologia ou não, o que se obtém é a experiência psicológica, subjetiva, para fomentar uma objetivação estético-social. Uma película sobre a produção do Pathos trágico, ou seja, as maneiras pelas quais as obras de arte vão nos emocionar, despertar sentimentos de piedade, dó, compaixão, tristeza, empatia.

A dor é a razão da arte.

A arte ocorrida no e pelo artista, e a arte não é nada mais nada menos que a vida, enquanto sua matéria, sendo processualizada pela recriação singular, dotada de convívio cultural, de atravessamentos, de dores, de amores, do que é e o que não é. É uma lágrima. É um grito durante o parto. É uma ofensa à própria felicidade. É a esperança de que as coisas podem dar errado.

A arte é a vida encarando a morte. A arte são os sonhos do impossível. A arte são os delírios para além da filosofia entre o céu e a terra. A arte é a vida possibilitada de “morrer — dormir; dormir, talvez sonhar.”

As perdas, o que fica, o que se sente, os íntimos sofrimentos que causam dores tão especiais, tão internas, tornadas eternas. Um filme que não nos permite esquecer que fazer arte é o resultado de um sofrimento, como Adorno (1970) explica no parágrafo final de sua Teoria Estética:

“Vale mais desejar que um dia a arte desapareça do que ela esqueça o sofrimento, que é a sua expressão e na qual a forma tem a sua substância. Esse sofrimento é o conteúdo humano, […] que seria a arte enquanto historiografia, se ela se desembaraçasse da memória do sofrimento acumulado?”

Arte, para o William Shakespeare de Hamnet, é a história desse sofrimento acumulado, para que esse seja maior do que si, para que esse possa viver, e que a dor possa não morrer, mas, ao menos em parte dos dias, dormir, e, se o coração permitir, talvez sonhar.

 

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Referências:

ADORNO, Theodor. Teoria Estética. Lisboa: Edições 70, 1970.

ADORNO, Theodor. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

BENJAMIN, Walter. Origem do Drama Barroco Alemão. ed. 1. São Paulo: Brasiliense, 1984.

BRAS, Gérard. Hegel e a Arte: Uma apresentação da estética. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

 

Autor

  • Victor Finkler Lachowski

    Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (PPGCOM-UFPR), vinculado à linha de pesquisa Comunicação e Cultura; Mestre em Comunicação (PPGCOM-UFPR); Bacharel em Publicidade Propaganda (UFPR). Integrante do NEFICS - Núcleo de Estudos de Ficção Seriada e Audiovisualidades (UFPR/PPGCOM-UFPR/CNPq). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE). Bolsista CAPES-DS. Escritor, Roteirista e Redator. Autor da coletânea de contos "O Insosso e o Insólito entre os Pinheirais". Escritor da Revista Película (ISSN: 3085-6183). Pesquisador nas áreas de: Comunicação; Cinema; Cultura; Narrativas Audiovisuais; Narrativas Midiáticas e Comunicação Política.

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