A ASCENSÃO DO AUDIOVISUAL QUEER ASIÁTICO 

 

Pode parecer surpreendente para alguns a força que a indústria audiovisual queer asiática tem, ainda mais quando olhamos semanas de moda mundo afora, eventos internacionais grandiosos e o engajamento de milhões em redes sociais. Atores e atrizes que movem massas e diversos projetos. Em destaque aqui, países como Tailândia, Taiwan, Japão, China — e ganhando espaço por agora nesse mercado também a Coreia. E o que faz com que essa indústria tenha tanta força, principalmente no Brasil, irei discorrer um pouco com vocês e, ao final desse texto, também trarei indicações.

Muitos dizem que todo mundo tem fã no Brasil, e isso é algo de que eu particularmente discordo. Brasileiros tendem a consumir o que é nosso, nem mesmo nossos irmãos latinos têm vez. É só olharmos os rankings de música no Brasil e como é difícil para um artista internacional, ou a quantidade exorbitante de pessoas que assistiram O Agente Secreto na Netflix, mesmo que estivesse disponível só no Brasil. Eu mesma tenho amigos que não costumam consumir mídia estrangeira de qualquer tipo, o que eu entendo, mas também acho que causa uma limitação; porque mesmo que nos neguemos a ver coisas estrangeiras para valorizar o país, ainda consumimos no dia a dia muitas coisas estadunidenses e europeias, então por que criar uma barreira com o audiovisual de outros lugares no mundo?

Mas voltando ao nosso tópico, eu atribuo o sucesso das séries queer asiáticas (mais conhecidas como BLs e GLs, abreviações para Boys’ Love e Girls’ Love) a algumas coisas. A Ásia entendeu algo muito importante sobre o público LGBTQI+: nós não queremos ficar reduzidos a um gênero. Muitos filmes queer são reduzidos a histórias tristes e de homofobia. Não que representar isso seja inválido, mas por que tudo no audiovisual é voltado para pessoas hétero? Se a ficção, mesmo que não seja mentira, também não é a verdade, então por que este tipo de pacto com a realidade se mantém tão firme? E que realidade, só existem pessoas héteros no mundo?

Bom, nós estamos vendo isso mudar ultimamente na indústria audiovisual ocidental. Nós temos “Entrevista com o Vampiro”, “Heated Rivalry” e a próxima temporada de Bridgerton com duas mulheres em um romance de época, o que já vimos antes em Dickinson, mas agora é um pouco diferente, já que todos os casais de Bridgerton se casam.

Não sei se vocês estão me acompanhando, mas o que quero dizer é que falta diversidade de enredos e narrativas quando os protagonistas são queer no Ocidente. A indústria asiática entendeu isso e nos dá exatamente o que queremos.

Outro fator que eu considero muito importante para esse sucesso é o fato de que eles se empenham em vender uma história, tal como a Coreia com seus idols. Eles têm uma vertente de pares fixos, que eu acho interessante em partes — como a impressão que tenho de estar vendo o mesmo casal em universos diferentes —, mas também esses pares fixos incentivam uma cultura de fandom tóxica, já que alguns, mesmo sem confirmação, acreditam que todos os pares fixos estão em relacionamentos e se chateiam quando descobrem que esses atores e atrizes têm vidas pessoais fora do show business.

Para finalizar, eu trouxe algumas indicações de séries e filmes que acho que todos que estão conhecendo agora a indústria audiovisual queer asiática têm que assistir:

A minha primeira indicação é I Told Sunset About You, em especial a primeira temporada, que é dirigida por Boss Kuno. Acompanhamos aqui Teh e Oh-aew, que são amigos de infância que acabam se distanciando por conflitos relacionados ao que ambos querem para a carreira. Uma das partes mais bonitas nessa série é a fotografia e a semiótica — série essa que, inclusive, virou estudo de caso para o meu TCC, que tem o afeto como narrativa de tema. Outra coisa que gosto muito dessa série é que os protagonistas são duas pessoas comuns que estão tendo que lidar com o amadurecimento e também com o balde de água fria que cai sobre nós quando descobrimos que transformar sonhos em realidade é bem complicado, ainda mais quando quem você ama é seu adversário nesse aspecto; como lidar com sentimentos feios como a inveja e o medo de ficar para trás.

Outra série que eu gostaria de indicar é Claire Bell. As protagonistas aqui são Bell e Claire. Bell acaba indo presa por posse e tráfico de drogas, mesmo sendo inocente, enquanto Claire está presa por supostamente ter assassinado um professor de sua irmã mais nova. Dentro da prisão, os sentimentos são muito mais intensos e elas acabam se envolvendo para sobreviver e também porque ambas precisam de afeto genuíno e o acham juntas. Outros tipos de relações femininas são desenvolvidas na série, além de ter uma fotografia linda e a produção ser incrível, já que eles montaram uma prisão no set. Acho lindo como essa série nos faz perceber que até mesmo aqueles considerados vilões têm suas histórias e motivações, ainda mais a população carcerária feminina em um mundo tão cruel para mulheres. A série é produzida por Davika Hoorne em parceria com Mine Midia.

Minha terceira indicação acaba de chegar na Netflix: Khemjira. Acompanha o jovem Khem, que vai completar 21 anos e tem uma maldição de que morrerá ao atingir essa idade, e o xamã Pharam, que diz que não deve se envolver, mas o ajuda mesmo assim. Ao longo da série, tem muito terror, e muito bem-feito inclusive, um roteiro sem furos e um romance de outras vidas, além de belíssimas amizades. Essa série, inclusive, foi a sensação de 2025.

Em quarto lugar nas minhas indicações está Love is a Poison, que também está disponível na Netflix. Shiba é um advogado excepcional e Haruto é um golpista, porém ambos acabam trabalhando juntos. A atuação aqui é algo a se destacar e também o vislumbre de um problema social que o Japão enfrenta, que é a população jovem que vive nas ruas.

Em quinto, nós temos Seu Nome Gravado em Mim, um filme que está disponível na Netflix também, onde acompanhamos Jia-han e Birdy na Taiwan de 1987, após o fim da lei marcial, onde nasce um amor que vai se perdurar por muitos anos.

Há algumas outras indicações que quero passar para vocês, mas, por forças maiores, não terei tempo para discorrer sobre cada uma, mas as deixarei aqui embaixo com onde assistir a essas que passei para vocês.

I Told Sunset About You
Plataforma: Viki
Ano de Produção: 2020
Dirigido por: Boss Naruebet Kuno
Classificação:  14 anos
Gênero: Drama, Romance
País de Origem: 🇹🇭 Tailândia

Claire Bell
Plataforma: YouTube
Dirigido por: Jeen Prach Rojanasinwilai
Data de lançamento: 1 de novembro de 2025
País de origem: 🇹🇭 Tailândia
Classificação indicativa: 16 anos

Khemjira
Plataforma: Netflix
Dirigido por:
Aoftion Kittipat Jampa
Data de lançamento:
9 de agosto de 2025
País de origem: 🇹🇭 Tailândia
Classificação indicativa: 16 anos

Love is a Poison
Plataforma: Netflix
Dirigido por:
Maioki Ouchi, Masataka Hayashi e Tatsuya Aoki
Data de lançamento:
17 de setembro de 2024
País de origem: 🇯🇵 Japão
Classificação indicativa: 16 anos

Seu Nome Gravado em Mim
Plataforma: Netflix
Ano de Produção: 2020
Dirigido por: Kuang-Hui Liu
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama, Romance
País de Origem: 🇹🇼 Taiwan

Outras obras audivisuais vale a pena que vocês deem uma olhada: Paraíso de Espinhos, Girl Boys, Not Me, Burnout Syndrome, Reset, GAP, Mate, Top Forms, entre muitas outras.

Autor

  • Estephany Magalhães

    Estephany Magalhães, 26 anos, é graduanda em Letras pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Em fase de conclusão acadêmica, dedica-se à pesquisa sobre comunicação no setor de entretenimento, com foco em produções audiovisuais sob a perspectiva anticolonial. Com o objetivo de ampliar sua atuação global, dedica-se atualmente ao estudo dos idiomas mandarim e tailandês.

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