LUCAS, O PARAIZO: E A SUTIL NECESSIDADE DE ODIÁ-LO
Muitas pessoas já passaram pelo Coletivo Cine-Fórum nesses tantos anos de existência — remota ou presencialmente. Uma delas, que cruzou meu caminho e tive o prazer de conhecer, infelizmente apenas remotamente, foi Lucas Paraizo. E, sobre ele, tenho três coisas a dizer: a primeira é que eu pegaria uma ponte aérea só para tomar um café com Lucas; a segunda, que eu gostaria de viver, com ele — o Paraizo —, uma única noite tão intensa de amor e sexo quanto seus roteiros; e a terceira é que eu queria odiar o Lucas Paraizo.
Para quem ainda não teve o devido prazer de conhecê-lo, aqui vai uma breve minibiografia de quem é Lucas Bender Carpena de Menezes Paraizo Garcia — ou simplesmente Lucas Paraizo [sim, ele tem Lattes, e por isso temos seu nome completo]. Lucas é graduado em Roteiro Cinematográfico pela Escuela Internacional de Cine y Televisión de Cuba e em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela PUC do Rio de Janeiro. É especialista em Roteiro Cinematográfico pela Escola Superior de Cinema i Audiovisuals de Catalunya, na Espanha. E, pasmem, mestre em Artes Cênicas pelo Institut del Teatre, da Universidade Autônoma de Barcelona. Roteirista de filmes, séries e seriados, atualmente trabalhando da Rede Globo de Televisão e Globoplay.

É de Lucas Paraizo a criação de Os Outros, que logo terá sua terceira temporada – que foi gravada e finalizada em 2025; é dele também o roteiro final de Sob Pressão. Lucas bebe ainda da fonte de Justiça, série criada por Manuela Dias, da qual é um dos roteiristas.
Lucas, entre estudo e prática, parece ter aprendido três coisas fundamentais em roteiro, em fazer audiovisual: a primeira é que todo episódio precisa guardar, na manga, a surpresa e o gancho do próximo — não à toa, em Os Outros, o começo, começa, pelo fim. A segunda é que devemos amar e odiar cada personagem, porque esse conflito é parte da catarse que sustenta a obra. Por fim, talvez após maratonar muitas histórias de Shonda Rhimes, ele aprendeu a hora exata — cruel e precisa — de matar aquele personagem que a gente ama.
Em Os Outros, sua obra mais recente, ele faz isso com maestria, esconde o personagem, cria a virada perfeita, dá nó na cabeça, atiça o espectador e traz a questão principal de que: “o inferno sempre é: Os Outros”.

Em Sob Pressão [que inclusive vai ganhar uma versão americanizada com o criador de The Good Doctor e House], Lucas parte para o drama médico que nada se assemelha aos seus concorrentes americanos, a não ser por algo que eu o culpo, assim como culpo Shonda Rhimes, Lucas mata. Ele te apresenta o personagem, ele cria o vínculo e tira isso da gente, num puxar de cordas de narrativa tão eficaz que a gente sente o luto de casa.

Confesso que não tive tempo de perguntar ao Lucas, quando o vi, se ele era fã de séries como Greys Anatomy ou How to Get Away With Murder, mas ao assistir suas criações e criaturas, fica evidente que há um pedaço dessas construções em seu roteiro. Não é cópia, é a certeza de que o espectador não pode ter certeza de nada, se apaixonar pelo personagem, pela criatura que se desenvolve na tela, pode ser tão dramático quanto toda a narrativa em si. Sem dó, sem medo, tudo pode desmoronar em segundos e isso é cativante em um criador e roteirista, deixar o espectador com a certeza de não poder ter certeza de absolutamente nada!
Lucas, parece escrever com tanta honestidade e amor, conhecimento e prática, afeto e ódio, dualidade pura, que ele conseguiu criar narrativas seriadas para além da comédia que imperava por aqui. Pra quem não se lembra ou é novo demais para saber, as únicas séries que carregavam mais do que uma temporada no Brasil, principalmente na Rede Globo, eram as comédias, Lucas chega de mansinho e quebra totalmente essa construção de décadas da televisão brasileira em Sob Pressão, e faz uma dobradinha anos depois com Os Outros.
Quebrar o paradigma da comédia seriada no Brasil e inaugurar um drama médico com ares de Brasil — com S —, sustentado por cinco temporadas e coroado com 47 vitórias entre 84 indicações, não foi apenas um feito: foi uma abertura de caminhos. A obra escancarou portas para narrativas que ousaram ir além do riso fácil, aproximando o público de outras pulsações — histórias de ação e drama, de sexo e intensidade, de conflitos humanos que sangram na tela e permanecem reverberando muito depois do último episódio.
É óbvio que Lucas não fez nada sozinho; tem uma [com todo respeito à palavra, Sr. Lucas Paraizo]… tem uma caralhada de gente por trás. Afinal, Sob Pressão é um livro que deu origem a um filme, que virou uma série — criada não só por Paraizo, mas por muitas outras pessoas também —, além de contar com Julio Andrade e Marjorie Estiano no protagonismo. Os Outros tem um time de roteiristas, incluindo a própria Fernanda Torres nos créditos da primeira temporada. Justiça é uma criação de Manuela Dias, com uma sala de roteiristas pronta para fazer uma série impecável e que também nos leva a uma pergunta central sobre o que é, de fato, justiça.
Lucas Paraizo é o centro deste texto, mas sabemos que ele teve ajuda na construção de suas obras e na desconstrução das narrativas cômicas como as únicas possibilidades seriadas no Brasil.

Maratonei Os Outros (2023 – atual) em horas; Sob Pressão (2017 – 2021), em uma semana; Justiça (2016), em poucos dias. Também assisti a Divina Divas (2016), Gabriel e a Montanha (2017) e Aos Teus Olhos (2017), longas que carregam a assinatura principal de Paraizo. Na mesma medida, vi O Caçador (2014), A Teia (2014) e O Rebu (2014), séries nas quais ele aparece creditado como assistente de roteiro, todas consumidas em semanas de imersão quase devota.
E tudo o que tenho a dizer é que eu amaria odiar Lucas Paraizo [mas sou a pessoa mais suspeita para falar sobre ele], porque considero cada um de seus roteiros, seja como roteirista principal ou assistente, uma pequena obra-prima. E quando tive o prazer de trocar algumas palavras com Paraizo, ainda que remotamente, é visível que ele é educado, gentil e absolutamente inteligente.
O que me faz repetir, e encerrar, este texto [com todo respeito, Lucas, caso um dia você leia isso] da mesma forma que o iniciei: eu queria um café com Lucas, uma noite de amor com Paraizo e adoraria odiar Lucas Paraizo… mas… não consigo.
O que me resta é seguir assistindo às suas obras e, junto dele, como espectador atento, acompanhar de perto o criador, a criatura e cada morte póstuma seriada [ou não] de seus personagens.
Enfim, a gente volta – na próxima temporada – após o intervalo comercial.
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Ver todos os postsPublicitário com segunda graduação em Letras - Português/espanhol e suas respectivas literaturas pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Especialista em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais e Psicologia Analítica Junguiana. Mestre em Poéticas da Modernidade. Doutorando em Comunicação e Cinema, pela Universidade Federal de Goiás, estudando o anti-herói como protagonista nas narrativas audiovisuais contemporâneas, bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG). Amante da sétima arte, da psicanálise junguiana, seus arquétipos e, também, da semiótica. Roteirista, semioticista, escritor e professor. Mistura tudo isso para compreender o mundo, a sociedade, a comunicação, o cinema, a literatura e as inter-artes.
