À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA (1964): O CLÁSSICO BRASILEIRO DE MOJICA

Lembro-me de ouvir em diversas ocasiões durante a infância, referências ao nome de um personagem distinto da cultura popular brasileira, o de Zé do Caixão. Lembro-me, ainda, de vê-lo em entrevistas e quadros na televisão, quase sempre tratado de forma pejorativa pela mídia, e seu criador e intérprete, José Mojica Marins, sendo eclipsado e confundido com a persona dos filmes. O fato é que o diretor é um presente do cinema brasileiro para o mundo, especialmente para o terror. Em À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), José não apenas imprime a noção de boa vontade de se produzir um filme de baixo orçamento, mas inaugura um gênero dentro da filmografia nacional capaz de ser patriótico e ter identidade popular.
Na obra, que configura a primeira aparição do famoso Zé do Caixão, acompanhamos uma pequena cidade aterrorizada pela descrença do sacrílego agente funerário. Ao passo que o personagem vive de forma antagônica aos princípios cristãos, podemos perceber como o filme, produzido em plena década de 1960, foi disruptivo ao colocar em questão noções tão presentes na cultura popular brasileira, como a morte, o medo do ocultismo, pecado e superstições.
E, como era de se esperar, José foi um dos nomes que mais sofreu com a censura do regime. Questionado pelo crítico Leon Cakoff durante entrevista em 1998 se tinha pretensões de pedir indenização ao estado brasileiro pelos lucros cessantes e por todos os prejuízos causados pelas sanções, Mojica ressaltou o papel do regime nos rumos de sua carreira, avaliando como a crítica não valorizava seus filmes e como o público por vezes não o entendia.
Apesar disso, em À meia-noite, fica evidente a genialidade de seu criador, com efeitos especiais competentes, movimentos de câmera e enquadramentos ousados. Porém, o grande trunfo do filme é construir uma obra que se identifica tanto com a tradição de seu próprio povo. Mojica não se deixou influenciar demais nas obras de terror estrangeiras, como os clássicos de monstros, do contrário, criou algo que era muito próximo de nossa realidade, com base nas crenças e nos medos que nós mesmos temos, e ainda nos deu um personagem que se eternizou no imaginário popular: À Meia-Noite Levarei Sua Alma é um clássico nacional, sem perder o charme e sem perder o orgulho de ser brasileiro.
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Graduando em Letras Português pela Universidade Estadual de Montes Claros, nasceu em Unaí, cidade mineira próxima à Brasília. Pesquisa temas como discurso científico no ambiente digital, literatura e cinema, em especial o cinema brasiliense
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