O KARMA E O SENTIMENTO EM PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO… E PRIMAVERA (2003)

Primavera, verão, outono, inverno… e primavera é um filme de 2003 do diretor sul-coreano Kim Ki-duk sobre um monastério budista que se localiza no meio de um lago que está rodeado por uma floresta. Ao longo do filme, acompanhamos um garoto, que foi abandonado em frente ao monastério e cresce sob os cuidados de um monge budista. Cada estação corresponde a uma fase de sua vida. O filme também tem um ritmo lento, que casa perfeitamente com a história.
Iniciamos com a primavera. Aqui, o garoto ainda é apenas uma criança. Em meio a rezas e meditações, o menino e seu mestre colhem ervas e se exercitam. Um dia, o garoto começa a perturbar alguns animais. Ele amarra uma pedra em um peixe, em um sapo e em uma cobra, dificultando a locomoção dos bichinhos. O mestre observa atentamente. À noite, enquanto o garoto dorme, o mestre amarra uma grande pedra nas costas do menino. Repetindo, assim, o que ele fez com os animais. Com dificuldades para andar, o garoto começa a aprender sua lição. O mestre ainda complementa o ensinamento. Ele diz ao garoto que vá retirar a pedra dos animais e que se algum deles tiver morrido, o menino carregaria a pedra sempre em seu coração. Infelizmente, o peixe e a cobra estavam mortos, apenas o sapo sobreviveu. O garoto chora muito quando percebe sua culpa.
No verão, o garoto já é um adolescente. Ele encontra duas mulheres, mãe e filha, andando pela floresta e procurando o monastério. Descobrimos que elas estão ali pois a filha está doente e buscam uma cura. Após conversar com o mestre budista, eles decidem que a menina deve passar um tempo lá até se recuperar. Não demora muito para o aprendiz se sentir atraído sexualmente pela garota. Certo dia, ele até tenta tocá-la enquanto ela dorme, mas ela acorda e o dá um tapa no rosto. Percebendo seu erro, ele começa a rezar desesperadamente, mas ela encosta em seu ombro, como quem diz “eu te perdoo”. Depois disso, um romance se inicia. Eles andam pela floresta e fazem sexo, e passam noites fazendo o mesmo. Tudo escondido do mestre. Porém, um dia eles dormem no barco, pelados, e o mestre os encontra de manhã. Mas, em vez de ficar bravo ou desapontado, o mestre apenas ensina outra lição ao adolescente: a luxúria leva ao desejo de possuir, e a posse leva o assassinato. Não muito depois, a menina se cura e o mestre a leva embora. O garoto, ainda desejando a menina, rouba uma estátua de Buda e um galo (símbolo do desejo na arte budista) e foge para ficar com ela.
Chegamos, assim, ao outono. Infelizmente, entendemos logo de cara que o mestre estava certo. O garoto, agora adulto, está sendo procurado pelo assassinato de sua esposa. Incapaz de controlar seu desejo, acabou sucumbindo ao que o mestre o havia avisado. Prevendo o retorno de seu aprendiz, o mestre começa a preparar as roupas de monge. E, como previsto, o aprendiz retorna logo depois, ainda com a faca suja com sangue de sua esposa, que havia o traído com outro homem. Sem querer mais viver, o aprendiz prepara um ritual de suicídio, selando sua boca, olhos e nariz. No entanto, o mestre o impede, dizendo que apesar de ter matado sua esposa, ele não se mataria tão facilmente. Ele amarra o aprendiz no teto e deixa uma vela queimando lentamente a corda que pendura o homem. Enquanto isso, o monge começa a escrever o Sutra do Coração em todo o deck do monastério. Quando finalmente cai do teto, o aprendiz começa sua redenção. Ele corta o cabelo e começa a esculpir o Sutra que está pintado no deck. Dois detetives acabam chegando ao monastério para prender o aprendiz, mas o mestre os convencem a deixar o jovem terminar sua tarefa primeiro. Em dado momento, até os detetives ajudam na pintura dos símbolos esculpidos no chão. Depois de dormir cansaço, por tanto trabalhar, o aprendiz acorda e é levado embora pelos detetives. O mestre, sabendo que sua vida se aproxima do fim, realiza o mesmo ritual de suicídio que o garoto havia tentado. Ele medita até que as chamas o consomem. Os selos em cima dos olhos parecem se molhar com as lágrimas do monge.
Depois dessa triste cena, chegamos ao inverno. O aprendiz agora volta ao monastério abandonado, após os seus anos na prisão, e encontra as roupas de seu antigo mestre. Esse capítulo do filme é dedicado a mostrar o processo de transformação do aprendiz em monge. Eventualmente, uma mulher chega ao monastério com um bebê, ela deixa o filho e foge, morrendo no lago durante sua fuga. Esse é o fim de um ciclo.
Assim como as estações, que funcionam em ciclos, o filme nos mostra como a vida também é. Quando retornamos à primavera, vemos que o monge é aquele que um dia foi aprendiz. E aquele que um dia foi cuidado por um mestre, agora tem de criar um bebê como seu discípulo. Esse final também pode nos remeter a outro conceito da cultura oriental: o karma. Tudo aquilo que o novo monge um dia causou ao seu mestre, lhe será causado pelo seu novo discípulo.
Em conclusão, Primavera, verão, outono, inverno… e primavera é um filme belíssimo, que além de nos mostrar mais da cultura budista, também nos deixa belos ensinamentos para a vida. Quanto ao estilo de Kim Ki-duk, ritmo lento e poucos diálogos, ele nos permite refletir sobre tudo que está em tela e sentir. Sente-se profundamente cada momento do que se passa.
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Doutorando em Comunicação pela UNIP, com bolsa CAPES. Mestre em Comunicação Audiovisual pelo PPGCOM-UAM, com bolsa CAPES. Integrante do grupo de pesquisa "NARRATOPIAS: Narrativas, Temporalidades e Tecnologias da Comunicação", do(a) Universidade Paulista (UNIP). Graduado em Rádio, TV e Internet pela Universidade Anhembi Morumbi (2020).
