SIRAT (2025): UM FILME QUE CORTA, CURA E CALA

SIRAT (2025) – UM FILME QUE CORTA, CURA E CALA

Desde o primeiro fotograma, Sirat deixa claro que não será um filme confortável. A imagem já nos joga em um mundo áspero, barulhento, onde tudo é tensão — e assim permanecerá até o último minuto. Vimos o filme e saímos com o corpo impactado, carregando uma sensação de desconforto visual e emocional que só grandes obras conseguem provocar. Sirat, dirigido por Óliver Laxe, é uma experiência cinematográfica intensa, com uma narrativa muito pesada, que se destaca justamente por sua diferença em relação a muitos outros filmes que passaram pelo Festival de Cannes de 2025 — onde, aliás, foi premiado.

A premissa é simples: um pai e seu filho pequeno buscam uma garota desaparecida. Mas o que parece uma história de tragédia familiar se transforma em algo mais denso: um grupo de ravers é abandonado no deserto após um evento ilegal no sul de Marrocos, mergulhando numa luta pela sobrevivência física e emocional.

Com exceção do ator Sergi López, que interpreta o pai, o elenco é formado por não profissionais realmente vindos da cena rave, o que confere um peso documental ao longa. A trilha sonora techno-industrial pulsa como coração de cada cena, acompanhando o desespero e a resistência dos corpos, enquanto as sequências de rave são filmadas com uma crueza eletrizante.

A ambientação entre os montes do Atlas e o deserto marroquino é tão personagem quanto os humanos: um lugar hostil, árido e espiritual. Laxe utiliza esse cenário como metáfora poderosa da nossa sociedade — fragmentada, agressiva, à beira do colapso. A areia, o calor e o silêncio são ferramentas narrativas que substituem explicações e conduzem o público a um estado de presença incômoda.

A garota desaparecida vira um pretexto simbólico: a verdadeira narrativa é sobre esgotamento, resistência e a fronteira entre corpo e alma. Sirat não se preocupa em dar respostas. Ele te arrasta. É um cinema que te desafia a sentir, e não a entender.

Sirat exige paciência, silêncio e abertura emocional. Com planos lindíssimos e ao mesmo tempo brutais, é uma obra que convida a atravessar o deserto externo e o deserto íntimo. Para quem procura apenas conforto, será um golpe. Para quem aceita ser transformado, uma travessia inesquecível.

 

Autor

  • Ivan Jude Gorini

    Nascido no Rio de Janeiro e criado na Itália, é escritor, podcaster e artista visual. Autor dos livros The Colourblind Grief (Runner-up no San Francisco Book Festival), Sorry I’m Mad e Word/Wars. Criador e narrador do curta-metragem Luz Tropical, também apresenta os podcasts Bora pra Europa com Ivanzinho, Healing with Jude e The Krazy Beautiful Show. Suas obras exploram migração, identidade, saúde mental e vivências LGBTQIAPN+.

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2 comentários em “SIRAT (2025): UM FILME QUE CORTA, CURA E CALA”

  1. Um filme q vc sai da sala com o coração pendurado no dente, com a impressão de ter tomado um copo de areia e o cérebro bugado. Pensei q teria um ataque de pânico. Desconfortável, intrigante, mas maravilhoso. Difícil é tira-lo de dentro de vc. Recomendo.

  2. Assisti a esse filme, na sala, à noite! Creio que o meu inconsciente ,durante o sono não descansou, tendo eu ficado ao dormir colocando-me questões como: uma rave ,em plena aridez do deserto? Se a motivação do argumento era a busca de uma menina, por que cenas ,bem mais impactando me desviaram do foco original? Que gente excêntrica era aquela, que se encontrava naquele lugar tão inóspito? Perguntava-me no meio do filme, que ambiente era aquele cujas pessoas possuíam não o perfil dos beduínos tradicionais, mas um ar de hippies atemporais.Sumir ou despencar para a morte, em um cenário árido, desprovido de acolhimento, me faz pensar que essa terra seca contribui para que as Guerras, nessas regiões, “justifiquem” as mortes! Será? Ou SIRAT?

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