FRANKENSTEIN DE DEL TORO: A BELEZA VAZIA DA MÁ ADAPTAÇÃO

O novo filme Frankenstein, sob a direção de Guillermo del Toro, gerou uma expectativa imensa. A esperança não era por uma versão definitiva, mas por uma que fosse finalmente fidedigna à obra clássica e atemporal de Mary Shelley. No entanto, o filme recaiu mais uma vez sobre a sina dos filmes desse livro: tentar traduzir uma obra tão densa para o cinema e, nesse processo, acabar esquecendo de tudo que ela realmente aborda. O resultado é que a obra se tornou esteticamente impressionante e narrativamente vazia.
A grande falha do filme está em não se identificar com a visão da escritora do livro. Mary Shelley escreveu Frankenstein em 1818, revolucionando a literatura em uma época em que mulheres nem podiam publicar, o que insere na obra uma crítica à posição da mulher na sociedade e, principalmente, ao medo do diferente. Victor Frankenstein é o “Prometeu Moderno” cuja falha é moral: a fuga da responsabilidade e o orgulho luciferino. O filme de Del Toro, por sua vez, perde essa grandiosa falha moral, reduzindo-a a um drama psicológico ou familiar comum, negligenciando a crítica social original.

Eu venho lendo e interpretando este livro desde os 14 anos, identificando-me como uma pessoa que sofre preconceito da sociedade. Para mim, o desvio é claro: o filme foca na monstruosidade inerente, ignorando a influência do meio. Essa redução temática é evidente na representação de Elizabeth, que é transformada nesse ser que “não vê o mal” e mais parece uma manic pixie dream girl, o que destrói a essência do livro: ninguém consegue amá-lo. A rejeição é total, e a cena final da neve é o símbolo disso, significando, como um professor meu disse em um debate sobre o livro, a abstinência completa ou parcial dos prazeres do amor.
É aqui que a hipocrisia do autor se revela. Guillermo del Toro sempre defende em entrevistas que protege as minorias e o esquisito em suas obras. E, de fato, ele aplica isso com excelência na estética e quando a obra é totalmente concebida por ele. Contudo, ao adaptar o filme de uma mulher, o resultado é um trabalho medíocre que parece focar apenas na superfície. Del Toro está se aproveitando da estética e da fama preexistente deste livro para poder surfar no sucesso, concentrando-se exclusivamente no visual. Isso contrasta diretamente com o esforço que ele teve que empregar no início da carreira para construir sua própria reputação. Neste projeto, ele não construiu o sucesso, ele usou o nome dela – o nome de Mary Shelley e a aclamação inquestionável da obra.
O que essa falha de interpretação nos mostra é que, mais uma vez, uma pessoa que nunca sofreu preconceito na vida não consegue entender ou traduzir, mesmo que explícito, esse sentimento. Temos, então, o resultado final: um filme esteticamente muito bonito, confesso, mas vazio de propósito e essência, e um homem que será aclamado pela releitura de um trabalho de uma mulher revolucionária sem ao menos ter feito um bom trabalho.
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Natural de Porto Alegre (RS), formada em Produção Audiovisual pela PUCRS, com curso de extensão em Escrita Criativa. Realizadora audiovisual, com foco em desenvolver projetos que inspiram e causam impacto, esse é o seu foco editorial e artístico.
