ANTES DA ESTATUETA, A CONSAGRAÇÃO: O BRASIL NO OSCAR 2026

O último dia 22 de janeiro marcou mais um importante episódio na história do cinema brasileiro. Com a conquista de um novo recorde, 2026 já começou com a honrosa bagagem de cinco incríveis indicações ao Oscar. Que marco!
O filme de Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto”, foi incluído em quatro categorias: Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (para Wagner Moura), Melhor Filme e, por fim, a recente e tão aguardada categoria Melhor Direção de Elenco.
Destaque para Gabriel Domingues, responsável pelo elenco de “O Agente Secreto”, que comemorou a indicação e nos fez refletir sobre como a diversidade é uma potente marca brasileira: “Acho que o filme tem gente de muitos estados brasileiros. Tem gente do Ceará, tem gente da Paraíba, tem gente de Pernambuco. É um filme muito diverso nas origens do elenco. Fiquei muito feliz com o reconhecimento, porque eu acho que além de tudo, isso é um interesse pelo povo brasileiro”, declarou.
A quinta indicação para o Brasil foi para o diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso, que foi incluído na categoria de Melhor Fotografia pela produção americana “Sonhos de Trem”. E não tem como falar de orgulho e torcida, sem citar o talento carregado no “molho baiano” de Wagner Moura que, para genuína alegria de todos, venceu o prêmio de melhor ator em filme de drama no Globo de Ouro 2026 por “O Agente Secreto”, tornando-se o primeiro ator brasileiro a conquistar essa premiação e que agora entra novamente para a história como o primeiro ator brasileiro a ser indicado na principal categoria de atuação da Academia.
A dupla premiação no Globo de Ouro deste ano foi um feito único e inédito na história do cinema brasileiro. A vitória de melhor filme em língua não inglesa, conquistada por “O Agente Secreto”, fez o Brasil reviver o sabor de uma conquista que não vinha há 27 anos, desde o momento em que nosso coração brasileiro acelerou com o anúncio da vitória de Central do Brasil, filme de 1998 de Walter Salles.
E como esquecer a icônica fala de Wagner ao receber o prêmio? “É um filme sobre memória, a falta dela e um trauma geracional. Eu acho que um trauma pode ser passado por gerações, os valores também podem. Esse prêmio vai para quem está seguindo seus valores em momentos difíceis”, disse. E, para nosso regozijo, ainda completou em alto e bom português: “E para todo mundo no Brasil que está assistindo isso agora, viva o Brasil e a cultura brasileira”, afirmou.
Só no que foi descrito até aqui, já é possível reunirmos alguns elementos fundamentais para a construção e manutenção da nossa produção artística, como: valorização da diversidade do povo, apreço pelo idioma como ferramenta de identidade nacional e o papel da arte como resgate da memória e reparação histórica.
É possível para alguns até enxergar essas indicações e conquistas como episódios isolados. Ou, num olhar mais restrito, como uma busca desnecessária por validação internacional. Mas essa seria uma visão parcial. Não se trata só de um indivíduo ou projeto, mas sobre uma indústria inteira, com milhares de profissionais que têm diante de si a oportunidade de se posicionar com destaque dentro do mercado internacional que reconhece nessas premiações tradicionais referências.
Mais que uma premiação artística, é uma oportunidade estratégica para a indústria cinematográfica nacional que recebe maior visibilidade, atrai investimentos, desperta interesse de distribuidores (considerando que a distribuição costuma ser um dos gargalos mais “desafiadores” para a indústria) e amplia a audiência global.
Ao potencializar o alcance de obras como “Central do Brasil”, “Cidade de Deus”, “Ainda estou aqui” e “O Agente Secreto”, a narrativa brasileira atravessa fronteiras para contar a sua própria história, sob nossa ótica, escrita e interpretada por brasileiros e brasileiras em toda sua diversidade e potência.
Temáticas como a abordada em “O Agente Secreto” representam ainda um papel fundamental na preservação da memória histórica do Brasil. Um lembrete para não esquecer jamais da imprescindibilidade da democracia e da fragilidade dos direitos humanos, só que com milhares e milhares de espectadores e testemunhas ao redor do mundo.
E, como ocorre com toda indústria, os ganhos não permanecem isolados, mas geram importantes desdobramentos. Num promissor efeito dominó. O fortalecimento da identidade cultural resvala positivamente em outros segmentos da cultura e do entretenimento, além de fomentar outros setores da economia criativa e do turismo.
Isso sem mencionar que, com o aumento do apreço pela forma brasileira de criar e atuar, as oportunidades de trabalho para talentos brasileiros se expandem. É como assistir a um Brasil que tem muito o que mostrar e sabe qual é o caminho para se apresentar ao mundo.
No dia 15 de março de 2026, o país se cobrirá com a sua melhor energia e assistirá de camarote a sua própria identidade, talento e história serem transmitidos para o mundo. Mais que torcer por uma eventual estatueta, celebraremos o maior prêmio já conquistado: a resistência, a subsistência e a relevância do cinema brasileiro.
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Advogada e sócia fundadora do escritório Bassin Advocacia Cultural, especializado em propriedade intelectual, legislação de incentivo e proteção autoral. É também membro efetivo da Comissão de Direitos Autorais, Direitos Imateriais e Entretenimento da OAB/RJ
