A ÚNICA SAÍDA – VIVER NO CAPITALISMO É UMA LONGA E INEVITÁVEL TRAGÉDIA

A ÚNICA SAÍDA – VIVER NO CAPITALISMO É UMA LONGA E INEVITÁVEL TRAGÉDIA

 

Terminar A Única Saída realmente deixa uma sensação muito amarga de que “perdemos”, de que toda a luta da classe trabalhadora — tanto de forma “literal”, nos cenários exagerados do filme, quanto figurada, nas sequências mais pé-no-chão da obra — é inútil. Estava me incomodando um pouco o aparente descaso do diretor Park Chan-Wook com os acontecimentos do filme, especialmente em contraste com o aprofundamento que ele concede aos personagens e ao mundo ao seu redor. Cada pessoa no longa possui seu próprio histórico como vítima do sistema, mas suas mortes carregam um peso mínimo; do mesmo modo, o protagonista não parece sentir, em seu psicológico, a gravidade das próprias ações: tem enorme dificuldade em matar, mas não aparenta desenvolver qualquer trauma a partir disso. Fiquei, no mínimo, intrigado com essas escolhas, pois não soavam como as de um Park perdido na própria criação e renunciando ao aprofundamento — ao contrário, pareciam apontar para um objetivo muito específico.

O ponto de toda essa construção acaba girando em torno de um tema bastante central no filme: a “Escolha”, mais especificamente a escolha que soa inevitável e a forma como ela se manifesta de modo distinto para quem tem poder e para quem não tem. Na narrativa, tanto os executivos poderosos das empresas de papel quanto o protagonista estão MATANDO os operários, literalmente ou não. A diferença é que a escolha de Yoo de assassinar seus concorrentes na indústria do papel nasce do desespero em buscar sustento para sua família; é uma última medida, que o conduz a lugares sombrios, tanto novos (os assassinatos) quanto antigos (os vícios). Já os executivos tomam suas duras e “inevitáveis” decisões com a frieza de quem não precisa exercer empatia, agindo com puro DESCASO. Em meros instantes, por uma margem maior de lucro, algumas pessoas de terno se mostram dispostas a destruir a vida de milhares — milhões —, matar uma geração de trabalhadores, levar uma sociedade à ruína, tudo por pura ganância. Se a sociedade não trata essas pessoas como seres humanos, mas como itens descartáveis, por que o filme deveria tratá-las de outra forma?

E é isso. Park sustenta 2 atos de leveza & diversão que tendem a algo mais satírico; ele trata a narrativa e seus temas de forma meio absurda, apesar dos momentos em que tragédias atravessam essa camada que o diretor constrói. Mas o terceiro ato, além de fazer todo o restante do filme — até mesmo suas menores referências, como as repetidas propagandas das empresas de papel — funcionar perfeitamente, é tremendamente pesado. É muito mórbido ver os créditos rolando enquanto máquinas dizimam árvores, criando uma sensação bizarra de derrota no espectador. O pós-capitalismo é retratado como apocalipse, fim do mundo: a morte da natureza, da pureza artística, do proletariado; um fim do mundo que é menos cerimônia e mais descaso. A única coisa que sobra é uma família “unida”, dentro da casa em que provavelmente irão viver a vida toda, coexistindo fisicamente com um cadáver e mentalmente com traumas inesquecíveis & irreparáveis que nunca poderão enfrentar.

A Única Saída é um dos melhores filmes sobre o sistema capitalista no mundo moderno, pois se compromete integralmente com uma ideia: essa noção de apocalipse que faz o final do filme soar como o final de todo o cinema. Conforme o tema do descaso que atravessa a obra, o genial Park Chan-Wook também dirige aqui com maior irreverência & irresponsabilidade do que em muitos dos outros longas de sua carreira, algo que confere um tom de originalidade muito marcante ao visual & à montagem do filme. Oldboy é vicioso e Decision to Leave meticuloso & calculado; acho divertido vê-lo bem mais solto neste trabalho. Existe diversão & tensão no inteiro de A Única Saída, mas a sensação final da experiência é amarga, devastadora & profundamente derrotada.

 

 

Autor

  • Miguel Duro

    Com 17 anos, escrevo críticas de cinema a mais ou menos 2 anos. Possuo uma página no Instagram na qual tenho publicado mais de 90 textos (@mrduro_cinema). Minha maior paixão é o cinema e a forma que encontrei para expressar esse amor ao mundo é por meio do texto, tanto no inglês quanto no português.

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