DINHEIRO NA MÃO É VENDAVAL (2026) – TODO MUNDO DEVE PARA ALGUÉM 

 

No dia 3 de março de 2026, fui até a Cinemateca de Curitiba assistir à estreia do curta-metragem Dinheiro Na Mão é Vendaval, uma produção curitibana que nos mostra facetas locais e universais em uma narrativa dinâmica, com uma estrutura que “começa rápido e termina sem fim”, nas palavras do próprio diretor, Vitor Richter.

A divulgação da obra no Instagram (@dinheironamaoevendaval) nos traz a sinopse:

“Fino, o protagonista, representa uma masculinidade em colapso: dominador, violento, mas também carente e obsoleto. Ao lado de Larissa, sua filha, o filme contrapõem o afeto silencioso e a esperança de futuro através da educação, contrastando com a ruína moral e física de Fino.”

De fato, Fino necessita se comportar como a ruína à beira do desmoronamento, a paranoia, estresse e tensão constante. Agiota, rotina de cobranças, mapa de distribuição dos seus devedores, tabelas, anotações, cálculos, números, notas.

Se cobra o dono do bar, se cobra o motoboy que faz as entregas, ameaças, agressões, tudo é uma pilha de nervos. O trampo é uma rotina fodida, e, como todo trampo estressante, não vale a pena, não dá paz financeira, nem de espírito, afasta o mundo ao seu redor, e o nosso mundo são as pessoas.

Sua filha, Larissa, nos mostra esse efeito-consequência, ao sempre apontar como a vida profissional criminosa de seu pai reduz as pessoas a coisas, uma alienação do trabalho agravada pela ilegalidade na qual se teme pela sua vida e de quem se ama.

A dimensão dos locais em Curitiba reforça a marginalidade no centro urbano, à beira comida pelo centro do poder. Praça Osório, Praça Tiradentes, Rua São Francisco, Viaduto do Capanema, Come, Reitoria da UFPR, nos levam até a não tão distante Juvevê, sua pastelaria, e o Bar do Dionísio. Se ocupam os espaços com cobrança, cobrar de quem deve, ou passou a dever sem nenhum sistema de troca, o que se ganha é não perder mais. O mundo é um espaço no qual se deve e se cobra, como diz o próprio Fino: “na quebrada, todo mundo deve algo pra alguém”.

A dimensão alegórica da periferia, o ovo frito, os motoboys, as ruas da quebrada, bar passando futebol na TV, o separar feijão, nos levam a contrastar com o universo dos patrões, simbolizado pelos carros caros, as mesas de poker, as camisas sociais e os maços de notas que vão da mão de quem conseguiu para quem vai gastar.

O que demonstra o Estado Paralelo, o crime organizado, como um reforçador do Estado normativo, ambos capitalistas com exploração de trabalho e necessários para manutenção do aparato social desigual, a coerção ilegal. Fino tenta negociar dívida com o banco e argumenta: “Vocês, enquanto instituição, deveriam ajudar.” O conflito entre indivíduo e social, tão comum na tradição de Cinema de Problema Social, nos mostra um protagonista simultaneamente vítima e vitimizador de um problema social, massacrado pela agiotagem e é massacrado por algo ainda maior: o capital detentor de crédito, uma força de coerção legal.

Na disputa interna de poder da organização, seu antigo chefe cai e precisa “virar gente de novo”, buscando aprovação do novo líder no poder, a humanidade definida pelo cargo que ocupa. Dobram valores da cobrança dos comerciantes locais, como uma particularidade que volta para a universalidade, a mensagem que fica: sempre tem como ficar mais caro, assim como no capitalismo o preço do alimento sempre fica mais caro, o valor do aluguel, o transporte então? Não há nada de ruim sob o capitalismo que não possa piorar. Fino não tem grana para pagar as contas, igual a todos nós.

O interessante é trazer o protagonista não como um simples brucutu, um cobrador violento, mas sim sua raiva direcionada para a atuação profissional, enquanto a paranoia financeira o leva a ser um matemático, um contador, com caderneta na mão e cálculos extensos. Fino atingiu o equilíbrio perfeito de qualquer trabalhador para um patrão: ser alguém indispensável e ao mesmo tempo descartável.

Feito o descarte, o novo rei do crime menciona que Fino “provou seu valor” e cita o famoso versículo de Jeremias 17:5: “maldito é o homem que confia no homem”. A advertência bíblica enfatiza que não devemos colocar a confiança nos seres humanos, a dependência da força humana nos leva à ruína, e que devemos depositar nossas esperanças, confiança, fé, em Deus. Porém, não sei até que ponto conseguimos discernir uma coisa da outra, afinal, em Curitiba, reformulando Racionais MCs, “Deus é uma nota de cem”.

Com isso, a produção independente marca forte entrada na cena curitibana, coloca dois pés no peito da “capital inteligente” e mostra que esperteza demais pode acabar com sua vida. A curta conta com uma excelente atuação do protagonista e todo um universo de personagens que sustentam a seriedade e drama da trama. O ritmo dinâmico desperta a ansiedade desejada e a agilidade do desenvolvimento conduz o espectador com segurança entre os acidentes exibidos, tudo apoiado por um dinamismo de câmera coerente. O curta é acelerado, já que nesse mundo, se você for lerdo, vai ser passado para trás.

Após a sessão, a equipe conversou com a plateia e os realizadores expuseram o desejo de “fazer um universo cinematográfico maior e real”. Torço pelo sucesso nessa empreitada, pois em 20 e poucos minutos de tela o universo real já foi capturado, explorado, e abriu portas para interpretações, críticas e reflexões maiores que a obra, em uma Curitiba com características latentes e problemáticas de nosso mundo, onde vivemos de menos e somos cobrados de mais.

 

 

Autor

  • Victor Finkler Lachowski

    Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (PPGCOM-UFPR), vinculado à linha de pesquisa Comunicação e Cultura; Mestre em Comunicação (PPGCOM-UFPR); Bacharel em Publicidade Propaganda (UFPR). Integrante do NEFICS - Núcleo de Estudos de Ficção Seriada e Audiovisualidades (UFPR/PPGCOM-UFPR/CNPq). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE). Bolsista CAPES-DS. Escritor, Roteirista e Redator. Autor da coletânea de contos "O Insosso e o Insólito entre os Pinheirais". Escritor da Revista Película (ISSN: 3085-6183). Pesquisador nas áreas de: Comunicação; Cinema; Cultura; Narrativas Audiovisuais; Narrativas Midiáticas e Comunicação Política.

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