It: A Coisa (2017) – Quando o drama, o horror e a amizade nos fazem perceber que a magia existe

It: A Coisa (2017) – Quando o drama, o horror e a amizade nos fazem perceber que a magia existe

Adaptar um livro do mestre do horror Stephen King para o cinema não é tarefa fácil. Ao longo de quase 50 anos, diversas obras literárias do autor foram transpostas para as telas, por vezes trazendo a dicotomia: ame ou odeie. Títulos como: O Apanhador de Sonhos, Carrie: A Estranha (a versão de 2013, não confundir com a adaptação de Brian De Palma) e Cemitério Maldito: A Origem podem fazer os fãs de King se decepcionarem logo nos primeiros minutos de filme. Entretanto, O Iluminado, Louca Obsessão, Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre são alguns exemplos de como o terror, o drama e a magia presentes nas páginas literárias do autor também são capazes de estar no cinema, assim como acontece em It: A Coisa.

Dirigido por Andy Muschietti em 2017 (que, anos depois, expandiria o universo com as sequências It: Capítulo Dois e a série It: Bem-Vindos a Derry) e adaptação do livro homônimo de 1986, It: A Coisa nos convida a conhecer a jornada de Bill, Richie, Eddie, Ben, Stan, Mike e Beverly (o Clube dos Perdedores) para derrotar Pennywise, uma entidade sobrenatural que se transforma no medo das vítimas e que, a cada 27 anos, comete uma onda de assassinatos na cidade de Derry.

Muschietti alterna a narrativa entre momentos de drama e terror, o que faz o espectador mergulhar na vida e sentir os medos internos que afligem cada personagem, nos conectando com suas histórias. Nesse sentido, por mais que o horror seja concretizado e construído por meio e ao redor da figura do palhaço Pennywise, o diretor deixa nítido que a Coisa é mais do que um simples vilão. Ela é, na verdade, a personificação dos traumas dos protagonistas, seja na figura do pai abusivo, de uma múmia ou de um leproso, e vencer esses medos significa crescer e libertar-se.

A partir disso, como visto em Conta Comigo e em tantas obras de Stephen King, Muschietti desenvolve outra faceta que é fundamental para o amadurecimento do Clube dos Perdedores e para o desfecho positivo do enredo: a amizade.

Por questões físicas e sociais, todos os protagonistas possuem particularidades que os tornam marginalizados em Derry. Bill é gago; Mike é negro; Richie é hiperativo e nerd; Ben é gordo; Eddie é hipocondríaco; Stan é judeu e Bev é pobre e vista como promíscua — daí o nome Clube dos Perdedores. Outrossim, existem os demônios internos que cada um enfrenta, uma vez que Bill se culpa pela morte do irmão; Richie esconde a sexualidade (o que é revelado apenas em It: Capítulo Dois); Stan tem medo de tornar-se adulto; Mike sofre com a rigidez do avô; Eddie padece com a superproteção da mãe e Beverly sofre com os abusos do pai.

Nesse contexto, o filme expõe que são essas singularidades e a identificação com problemas diferentes, mas ao mesmo tempo tão parecidos, que unem os protagonistas. É através da amizade entre os Perdedores que assistimos aos momentos mais leves e descontraídos da obra. Do mesmo modo, vemos que, unidos, eles se sentem corajosos e capazes de enfrentar e derrotar Pennywise e o psicopata mirim Henry Bowers. Com isso, o diretor nos mostra que é por meio da amizade que os sete protagonistas crescem e têm sua própria jornada de coming of age, vencendo os medos que os atingem.

Resta apenas fazer mais algumas considerações. Mais do que se tornar o filme de terror de maior bilheteria da história do cinema e popularizar a figura de Pennywise e dos Perdedores (não seria melhor, agora, chamá-los de vencedores?) na cultura pop nacional, o principal feito do longa-metragem é adaptar tão bem uma das melhores ficções literárias de Stephen King para o cinema e lembrar aos fãs do livro que, no universo cinematográfico de Derry criado por Muschietti, a magia existe. Ah, sim, com certeza, não tenha a menor dúvida.

 

Autor

  • Savio Alencar

    Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Piauí e pesquisador nas áreas cinema de horror, arquétipos e cinema e coming of age.

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