Vampira Humanista Procura Suicida consentido (2023): A sede do Desejo 

VAMPIRA HUMANISTA PROCURA SUICIDA CONSENTIDO (2023): A SEDE DO DESEJO

“Vampira Humanista Procura Suicida Consentido” é um filme canadense lançado em outubro de 2023, com direção de Ariane Louis-Seize, que também assina o roteiro juntamente com Christine Doyon. A produção tem ganhado popularidade novamente nas redes sociais após ter entrado no catálogo do MUBI e AppleTv+, o que reacendeu as discussões sobre sua temática.

Trata-se de uma comédia com elementos de “coming of age” e uma temática dark de vampiros, o que tem atraído bastante público. No entanto, o filme se destaca por ser uma história que, na verdade, não é sobre vampiros no sentido tradicional, mas sim sobre dinâmicas familiares, o processo de autodescoberta e a aceitação de desejos intrínsecos.

A trama acompanha a personagem principal, Sasha, uma vampira de 68 anos sensível demais para matar. Para forçá-la a aprimorar seus sentidos e caçar, seus pais cortam o suprimento de sangue que eles costumavam prover, colocando a vida dela em risco e a compelindo a procurar uma vítima. Essa coação familiar, onde a personagem se sente “obrigada a fazer coisas ruins”, ressalta o peso das expectativas parentais e a busca por um lugar no mundo. O filme, portanto, pode ser classificado como um “coming of age” por abordar esse encontro com a própria identidade. Mesmo a personagem principal tendo 68 anos.

Já a metáfora do vampirismo é central para explorar o tema do desejo. Mesmo sentindo empatia pelos humanos e não desejando matar, Sasha sente o desejo pelo sangue, algo que a mantém viva. É uma necessidade vital que ela, apesar do desgosto, anseia. Paralelamente, encontramos Paul, o personagem suicida. Ele sente o desejo de morrer, mas não age sobre ele, assim como Sasha não age sobre o desejo de se alimentar se isso implica ter que matar alguém. Há um momento crucial no filme em que Paul diz a Sasha: “Não se preocupe, eu quero morrer”. A resposta de Sasha, “Então por que você ainda está aqui?”, coloca em evidência a temática central do filme: agir sobre o que se sente, sobre aquilo que é natural seu.

A profundidade do desejo de Paul é exemplificada em uma conversa reveladora. Quando Sasha pergunta “Desde quando você é suicida?“, Paul responde: “É uma boa pergunta. Desde sempre, eu acho. Eu até nasci com o cordão umbilical em volta do pescoço.” Sasha, então, comenta: “Eu pensei que os humanos tivessem medo da morte”. Paul explica: “Eu acho que as pessoas só têm medo de sofrer ou de ficarem sozinhas”. Isso mostra que o desejo de morrer de Paul é intrínseco, uma parte fundamental de sua existência, e que o verdadeiro medo não é da morte em si, mas das consequências: o sofrimento e a solidão. Isso ecoa o medo de Sasha de ceder ao seu desejo e sentir-se mal ou “monstruosa” pelo que fez.

No final, Paul cede e permite que Sasha se alimente dele. Sasha cede ao desejo de matar para se alimentar, e Paul cede ao desejo de morrer. Essa relação entre os desejos dos personagens é crucial. O filme parece falar sobre a aceitação de nossos próprios desejos, mesmo aqueles que consideramos ruins ou difíceis de aceitar fazerem parte de nós. O desejo de Sasha por sangue é natural para ela, um instinto de sobrevivência. Da mesma forma, o desejo de Paul pela morte, embora destrutivo, é apresentado como uma parte “natural” do ciclo da vida, pois a morte é inerente a todos nós. Ambos os personagens, através de suas jornadas, confrontam e, de alguma forma, aceitam esses desejos que os definem. O filme contém muitas frases e conversas que entregam o verdadeiro tema da obra, mostrando que ela vai muito além da superficialidade de um filme de vampiros.

A fotografia do filme por sua vez, desempenha um papel fundamental em traduzir as intenções da obra para o visual. Todos os elementos estéticos são utilizados de forma muito bem estruturada. A iluminação muda de acordo com a sensação e os sentimentos dos personagens, e a trilha sonora intensa e marcante complementa essa experiência. Além da excelente interpretação dos atores, que traduzem com maestria o que foi escrito, a estética visual torna a experiência de assistir ao filme extremamente agradável e bonita.

No final, os personagens encontram um novo rumo, uma espécie de renascimento. Paul é transformado em vampiro, morrendo para sua vida anterior, mas ganhando uma nova existência. Sasha, entretanto, encontra uma maneira de se alimentar que se alinha com seus valores morais, sem comprometer sua essência. Ela aprenderá a conciliar essa necessidade vital com sua moral. Com a chegada de Paul, ela ganha uma nova pessoa em sua vida que a compreende e compartilha de sua realidade. Isso reforça a ideia de que a família não se limita apenas àqueles que nos criaram, mas também inclui as pessoas que nos apoiam e nos permitem ser quem realmente somos. É sobre isso que o filme trata: sobre sermos quem nós somos, pois, embora tenhamos nascido “monstros”, jamais seremos monstros por sermos quem nós somos.

 

Autor

  • Danielle Berti

    Natural de Porto Alegre (RS), formada em Produção Audiovisual pela PUCRS, com curso de extensão em Escrita Criativa. Realizadora audiovisual, com foco em desenvolver projetos que inspiram e causam impacto, esse é o seu foco editorial e artístico.

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