APOCALIPSE NOS TRÓPICOS, DE PETRA COSTA (2024): O BRASIL QUE REZOU PELA PRÓPRIA MORTE

APOCALIPSE NOS TRÓPICOS, DE PETRA COSTA (2024): O BRASIL QUE REZOU PELA PRÓPRIA MORTE

Petra Costa, em Apocalipse nos Trópicos, não apenas constrói um documentário, mas tece uma narrativa cinematográfica tão potente quanto perturbadora. Desde sua estreia nos cinemas e festivais — onde acumulou prêmios e debates acalorados —, o filme foi alvo de críticas reducionistas que o acusavam de “comunista”, como se isso fosse um argumento em si. Mas é necessário assistir à obra pelos “olhos atentos”, como sugere Senhorita Bira, pois assim podemos ver algo mais complexo: um retrato cru e poético de como religião, política e ignorância se entrelaçaram para levar o Brasil ao abismo.

O documentário começa com uma figura central: Silas Malafaia. Em meio a cultos e pregações, o pastor evangélico ecoa teorias conspiratórias sobre “marxismo cultural” e a Escola de Frankfurt, demonstrando uma profunda falta de leitura — tanto da filosofia que critica quanto da Bíblia que supostamente defende. Petra não precisa dizer nada; basta deixar a câmera rodar enquanto Malafaia, em pleno trânsito, justifica sua intolerância com uma distorção do episódio em que Jesus “virou as mesas no templo”. A mensagem é clara: o que está em jogo não é fé, mas poder.

E o poder, aqui, tem um rosto: Jair Bolsonaro. Em plena pandemia, ouvimos o então presidente declarar, com naturalidade aterradora, que “o Estado não tem como zelar por todo mundo”. Enquanto o mundo corria atrás de vacinas, o Brasil rezava — literalmente. Cenas de Bolsonaro de joelhos, cercado por apoiadores sem máscaras, implorando a intervenção divina contra o vírus, contrastam com imagens de Manaus sufocando sem oxigênio. Os números aparecem na tela como um golpe: 700 mil mortos, o segundo maior número do mundo. A pergunta que fica não é sobre ideologia, mas sobre humanidade.

Petra, no entanto, não se contenta em mostrar o presente. Ela retrocede no tempo, expondo as raízes do fantasma que ainda assombra o país: o anticomunismo. Em Gênesis, quarto capítulo, mergulhamos nos EUA dos anos 1950, onde pregadores já usavam o púlpito para combater o “perigo vermelho”. A ligação com o Brasil é óbvia: foi sob esse pretexto que a ditadura se instalou. E, num movimento brilhante, a diretora resgata um Jesus esquecido — não o mascote da direita, mas o revolucionário que desafiava o poder em nome dos marginalizados.

Quando Lula finalmente aparece, quase na metade do filme, não é como salvador, mas como vítima de um sistema que o prendeu para garantir uma eleição. O silêncio que se segue à sua fala é ensurdecedor. A edição corta para vazamentos que expõem a conspiração entre Moro e Dallagnol, revelando o jogo político por trás da Lava Jato. Petra não precisa gritar “golpe”; as imagens falam por si.

Os críticos que acusam o documentário de parcialidade parecem ter assistido a outro filme. Apocalipse nos Trópicos dedica a maior parte de sua tela a Bolsonaro, Malafaia e a bancada evangélica — que, aliás, agradece à esquerda por seu crescimento. Apenas nos minutos finais, com a eleição de 2022, Lula retorna, mas o foco permanece nos ataques à democracia: policiais intimidando eleitores, adesivos do PT arrancados, estradas bloqueadas. A vitória de Lula não é celebrada; é um respiro antes da tempestade.

O epílogo é um soco no estômago. Manifestantes pedindo intervenção militar, Bolsonaro em silêncio cúmplice e, por fim, o 8 de Janeiro — o dia em que o Brasil viu o Congresso ser reduzido a ruínas.

Poética como é, Petra, finaliza seu documentário em voice over: “Talvez, num futuro apocalipse, essas ruínas revelem que esses prédios foram construídos não para impor a vontade da maioria, nem a vontade de Deus, mas, para proteger o que é vulnerável da força bruta. Em grego “apolálypsis” não significa o fim do mundo. Mas, sim, um desvelar. Uma revelação. A chance de abrir os olhos.” E o que seu documentário revela é assustador. Não se trata de esquerda ou direita, mas de como a democracia foi sequestrada por um projeto autoritário travestido de cruzada moral.

Se em Democracia em Vertigem Petra explorou o impeachment de Dilma, aqui ela vai além. Apocalipse nos Trópicos é seu filme mais perigoso porque expõe, sem metáforas, o que acontece quando religião e política se tornam armas. E, ao fazê-lo, Petra Costa não apenas conta uma história, mas toca em pontos espinhosos — ela acende um alerta. Resta saber se estamos dispostos a ver, ouvir e falar sobre isso.

Autor

  • Renan Dalago

    Publicitário com segunda graduação em Letras - Português/espanhol e suas respectivas literaturas pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Especialista em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais e Psicologia Analítica Junguiana. Mestre em Poéticas da Modernidade. Doutorando em Comunicação, na linha de pesquisa Mídia e Cultura, pela Universidade Federal de Goiás, bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG). Amante da sétima arte, da psicanálise junguiana, seus arquétipos e, também, da semiótica. Mistura tudo isso para compreender o mundo, a sociedade, a comunicação, o cinema, a literatura e as inter-artes.

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