O AGENTE SECRETO: RESISTÊNCIA & MEMÓRIA

O cinema brasileiro nasce e cresce nas ruas do país, filmado em meio ao povo que protagoniza suas histórias e tendo uma essência realista, de uma certa forma até meio documental. A essência do audiovisual brasileiro é calorosa, emocionante, poética e dramática, bem distante da frieza promovida por alguns dos mais reconhecidos nomes estadunidenses do cinema. Contudo, a ambientação de O Agente Secreto do Kleber Mendonça Filho contraria essa tradição e entra em conflito com as próprias tendências autorais do diretor.
Kleber é vocalmente apaixonado pelo cinema & mais ainda pela cidade de Recife, e esse amor está presente em suas outras obras, em especial em Retratos Fantasmas (2023), bom prelúdio não oficial ao Agente Secreto.
Mas a aproximação cética & distante que o diretor toma nesse filme tem propósito & papel crucial em tornar a obra. Primeiramente, serve para construir a ideia de que em meio à ditadura militar, as ruas de Recife são um local perigoso & inseguro para a própria população. Na primeira cena, Kleber Mendonça desenvolve essa ideia – a do Recife banhado em sangue – na tela, raramente sai do plano o homem morto, e a cena em si vem como um impactante ponto de entrada tanto para quem assiste, como para o personagem-protagonista.
Ao longo das mais de duas horas de narrativa, essa ambientação se aprofunda gradualmente, inclusive nos momentos em que o filme afrouxa levemente o controle, sobretudo ao enquadrar o centro do Recife e nos inserir no carnaval. Ainda assim, o foco narrativo é preservado: a beleza do centro surge apenas à distância, enquanto a felicidade incandescente do povo contrasta de forma contundente com a frieza dos milicos, que falam, de maneira burocrática, sobre o número de mortos durante a festa.
Além disso, os poucos e restritos ambientes fechados que compõem a narrativa carregam um forte senso de claustrofobia e paranoia, sensações que atravessam toda a obra e acabam se manifestando até mesmo em seus momentos mais calmos. O diretor também trabalha, por meio da lenda urbana da “perna cabeluda”, a ideia de um povo que tenta se distrair dos horrores que assolavam o país, algo retratado de forma muito interessante no filme tanto pela incorporação do próprio cinema a essa lenda quanto pelo fato de a história real se constituir como um mórbido relato da violência militar. Embora o filme não seja explícito ao criticar ou mencionar a ditadura, nem faça disso o foco central da obra, o regime se faz presente em cada esquina do Recife de O Agente Secreto.
Sob outra ótica, explorando agora o miolo – o mais profundo – dessa ambientação genial do longa, seu tema principal: a memória. A dinâmica entre passado & presente se mostra durante todo o filme, em especial na estrutura recheada de elipses que o Kleber constrói, o filme é uma viagem entre passados, presentes e futuros que todos tratam em uma realidade em comum.
O próprio núcleo da história se baseia nessa ideia do passado se recusando a cair no esquecimento, os assassinos que vão atrás do Marcelo são meramente uma manifestação física do seu passado, das memórias que o assombram. O clímax da obra se trata de um ceifador interpretado pelo Kaiony Venâncio (que rouba o filme em pouquíssimos minutos de cena, por sinal) chamando o velho nome do Marcelo, é o seu passado voltando em forma física.
Toda a história é recheada de conceitos de passado e futuro, o protagonista foge de muita coisa sobre sua vida passada, indo além da ameaça do regime, ele está constantemente combatendo os traumas que cercam sua relação com a falecida mãe do filho, o próprio retorno dele à vida do menino significa muito no que tange à superação desses traumas.
O objetivo do protagonista em retornar ao Recife é todo baseado no passado e na ideia de futuro, pois é simultaneamente uma busca pela mãe, pessoa que teve sua história apagada pelo passar do tempo, e uma tentativa de reconciliação familiar que objetiva possibilitar um futuro feliz com o filho.
Acho legal o contraste entre as tentativas do Marcelo em achar registros de sua própria mãe, junto aos relatos registrados em fitas que as meninas ouvem no presente. São fios que entornam a ideia da memória preservada, no caso optando por fortalecer o fato de que muita história acaba por cair no esquecimento, tanto as que encontram meios para sobreviver, quanto as que realmente se esvaem. Marcelo nunca encontra a mãe e acaba por virar um número nos mortos do carnaval que os milicos celebram, e as fitas que contam sua história são tratadas de forma cética no presente, com exceção de uma única menina, interpretada pela Laura Lufési, que escolhe se aprofundar no relato do Marcelo e desenterrar aquela memória.
Mas a parte triste acaba sendo — saber ou perceber — que muito disso se esvai; mesmo aquilo que se preserva fisicamente carrega, nesse retrato histórico do diretor, muito mais melancolia do que esperança. A vida de Marcelo é uma que abarca tantas outras: o filme enquadra memórias que habitam outras memórias, relatos de refugiados apavorados, famílias separadas e reunidas. Kleber Mendonça Filho condensa esse conjunto complexo e profundo em uma única narrativa, como uma fenda temporal.
E a aclamada performance do Wagner Moura acaba transparecendo como o coração da obra, a fita que mantém íntegra essa obra lindamente instável e difícil, pois ele flutua na narrativa como 3 personagens em 3 momentos do filme. E o tempo inteiro preserva uma presença de tela marcante, sabendo interpretar diferentes ideias do homem que sente, briga e sofre, silenciosamente. É incrível a forma como ele consegue enfatizar essa ideia do filme de explorar formas de resistência silenciosa e sutis durante a ditadura, pois é constantemente enfatizado o fato dele não ser um homem violento, não andar armado e ter em seu passado a profissão de professor universitário. É uma pessoa simples, e as formas como ele resistia ao regime transparecem sutilmente na performance do Wagner durante a duração do filme. Acaba sendo mais poderoso ver seu ódio incessante se manifestar pelo silêncio do que pela gritaria tradicional do Oscar-Bait Hollywoodiano, pois o fato do personagem ficar sem palavras torna sua raiva mais tangível ainda.
É impensável a ideia de odiar tanto algo, sentir tanta repulsa por uma memória ou um ideal, a pronto de perde as palavras, e o protagonista de O Agente Secreto tem essa raiva remoendo por baixo de sua superfície calma e amável.
Não deixei de flertar, ao longo do texto, com a ideia de dissertar sobre o final do filme, e acredito que finalmente cheguei ao ponto da crítica em que preciso mencionar o trecho mais polarizante do longa — e, sem dúvida, aquele de que menos gostei na obra. Antes de tudo, é importante enfatizar que o simples fato de já ter mobilizado esse desfecho em meus argumentos ao longo da dissertação já evidencia sua relevância: a narrativa de memória construída por Kleber Mendonça Filho não se completa sem esse final, e não há O Agente Secreto se ele for descartado. Contudo, isso não anula o fato de se tratar de uma sequência ruim, ao meu ver, que remove o espectador da narrativa -principal no seu clímax – e introduz uma nova perspectiva que foi construída de forma precária no decorrer da história. Compreendo que seja a intenção da cena ser filmada de forma fria e realista, mas é totalmente incompatível com o resto do filme e acaba colaborando com a ideia de que se trata de um arco separado da narrativa principal, algo que não parece verdade. A montagem de closes em iluminação branca e diálogos mal escritos não tem salvação, ao meu ver, e martela demais no espectador a mensagem de memória que a história promove. O presente transparece no filme de forma subconsciente em seu inteiro, e não há necessidade de renunciar à delicadeza e sutileza que ele vinha aplicando para dar margem a algo mais escrachado no fim. Ainda assim, o fato de ser a parte mais controversa do filme é muito interessante e deve motivar qualquer um que ainda não foi ver a obra a vê-la e possivelmente degustá-la, pois apesar de eu não gostar do final, sei que algumas das pessoas que mais respeito na bolha de discussão cinematográficas amaram-o, e para mim isso é parte da beleza da crítica no cinema, tudo é pessoal, de uma certa forma.
O fato é único, O Agente Secreto é um GRANDE & ESPETACULAR filme, definitivamente um dos melhores do ano & da década, e se você ainda não foi ver, vá, e veja nos cinemas. E claro, apoie o cinema brasileiro para que mais obras como essa possam não somente ser criadas, mas furar a bolha e atingir um público que sai da bolha do streaming.
Faço questão de deixar claro que, em nenhum momento do texto, mencionei o Oscar ou qualquer outra premiação internacional, apesar de esse ser um assunto quase sempre atrelado à obra. Não considero positiva, para o nosso cinema, essa busca constante por validação externa, como se o valor da arte nacional dependesse desse reconhecimento; nosso apoio nunca deveria partir disso. Neste ano, procurei assistir ao maior número possível de filmes vencedores do prêmio máximo do Oscar, e a verdade é que a grande maioria é medíocre — com a notável exceção de Crash, que consegue figurar entre os cinco piores filmes que já vi. Apoie o filme por sua excelência, originalidade e criatividade, e por um futuro em que menos blockbusters hollywoodianos medíocres dominem as salas de cinema, abrindo espaço para que filmes brasileiros alcancem um público mais amplo.
Afinal, pessoas que respeito muito afirmam que O Agente Secreto é, acima de tudo, um filme sobre cinema; embora eu não enxergue isso de forma tão clara, é uma ideia interessante de se ter em mente ao pensar a obra.
Autor
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Com 17 anos, escrevo críticas de cinema a mais ou menos 2 anos. Possuo uma página no Instagram na qual tenho publicado mais de 90 textos (@mrduro_cinema). Minha maior paixão é o cinema e a forma que encontrei para expressar esse amor ao mundo é por meio do texto, tanto no inglês quanto no português.
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Sensacional! Nota 10