“FAZER CINEMA NA QUEBRADA É CONSTRUIR PEQUENOS MUSEUS” – UMA ENTREVISTA COM QUEM FAZ DA PERIFA UM ESPAÇO AUDIOVISUAL

“FAZER CINEMA NA QUEBRADA É CONSTRUIR PEQUENOS MUSEUS” – UMA ENTREVISTA COM  QUEM FAZ DA PERIFA UM ESPAÇO AUDIOVISUAL

 

A Mostra Cine Perifa nasceu de uma conversa entre os amigos e companheiros de curso, Zeb, Yara e Denis. A Zeb e o Denis já se conheciam e compartilhavam do desejo de trazer uma Mostra de Cinema no Veganaassoo, espaço cultural localizado na Zona Leste de São Paulo. Espaço que abriga uma variedade enorme de expressões artísticas e culturais. O espaço também é onde o Denis vive e trabalha. Com a chegada da Yara para fazer as articulações e curadoria dos filmes, a Mostra Cine Perifa foi crescendo e se tornando uma celebração da arte e do cinema feito na quebrada por quem vive e está nesse corre todos os dias. 

 

1ª Mostra Cine Perifa, rolou em 21 de junho de 2025 na Zona Leste de Sampa

Com foco em produções independentes feitas nas periferias de São Paulo, onde cineastas brilhantes jogam suas lentes sobre as mais diversas narrativas, colocando a quebrada em seu devido lugar de protagonismo. Apresentamos 7 curtas-metragens de diferentes gêneros e linguagens, passando pelo drama social, romance, comédia e documentário. Em um panorama rico e potente das vivências periféricas, produzidos a partir do olhar único de quem transforma o corre diário em arte. 

O cineasta Lincoln Péricles, referência nessa nova onda do cinema, disse em uma entrevista que  “Fazer Cinema na Quebrada é construir pequenos museus”. Essa frase reflete o objetivo e o compromisso da mostra em criar memórias e vivências a partir da potência criativa do cinema. 

Após a exibição dos curtas apresentados pelo produtor Matias Zec, cada realizador falou um pouco sobre sua experiência com a produção e foram presenteados com pôsteres exclusivos do artista Deevaneio. 

A apresentação do Vulgo Salatiel teve a participação da Mayra Ayo da Bakongo Musikal, que iniciou a Mostra com um set incrível, passando o encerramento para Dj Giulia, outra integrante desse coletivo maravilhoso de DJs.

Oito expositores de variadas linguagens e estilos também puderam expor seus trabalhos. A primeira edição da Mostra foi um sucesso e esperamos fazer mais eventos e fomentar público para o cinema independente produzido na periferia. 

Nossa conversa para compreender um pouco sobre a Mostra foi com um dos organizadores, Denis Soares.

 

Nos conte um pouco, quem é Denis Soares?

Oii, sou o Denis, odeio falar de mim, mas vou tentar haha

Bom, acho que o melhor jeito é falar um pouco sobre os últimos 3 anos e como me envolvi com esse rolê de produção cultural.

Hoje além de organizar e produzir essa mostra, também tenho uma sociedade, o que vejo mais como uma irmandade, com o Rafael Estavaringo e a Suziane Jevinski do Veganaassoo, um espaço cultural que temos em Ermelino Matarazzo na Zona Leste de São Paulo, o que me possibilitou trabalhar de forma mais direta e prática com arte. Já desde moleque desenho, escrevo, já tentei tocar baixo também (inclusive foi graças a isso que conheci o Rafael, que foi meu professor por um tempo), várias paradas, mas a constante sempre foi o cinema. E desde 2020, mais ou menos, tenho transformado essa paixão em estudo. Fiz cursos de fotografia, edição, produção, roteiro, etc. Mas o que mais me identifiquei e tenho facilidade é a fotografia, direção e produção. O que me levou a fazer um curso incrível da Kinofórum, onde trabalhei no meu primeiro curta-metragem, fazendo a direção de fotografia, além de estar envolvido com todos os outros processos da produção de um projeto audiovisual. O curta se chama “Palavras Não Ditas” e em breve vai estar rodando por aí. Este ano em um curso no Senac conheci a Yara Cordeiro, diretora, produtora, fotógrafa, roteirista, poeta, eu esqueci provavelmente de alguma coisa, a mina e braba, e numa conversa com ela e com a minha parça e uma das maiores artistas da cena underground de São Paulo, a Zeb, que também estava no mesmo curso, veio a possibilidade de fazer uma Mostra de Cinema no Veganaassoo com foco em produções da periferia autorais e independentes.

Acho que é isso, para contar minha história, preciso sempre citar um pouco das pessoas que estão comigo e que fazem parte de mim também. No fim, diria que sou uma pessoa muito grata por tudo que construí e por todas as pessoas incríveis que apareceram e continuam aparecendo na minha vida, tamo junto demais.

 

Denis, a Mostra CinePerifa tem um nome que já entrega parte da proposta, mas conta pra gente: o que te fez olhar para a periferia e pensar “aqui precisa virar um palco de cinema e arte”? Foi um estalo ou foi um processo?

Vejo como um processo, um processo bem lento pra ser sincero haha

Porque na quebrada já temos que lidar com a insegurança financeira e a escassez de recursos pra produção da arte, o que já torna essa produção por aqui extremamente difícil. Além do sucateamento que espaços públicos enfrentam há alguns anos graças a gestões nada competentes em abraçar a comunidade com arte e cultura.

Então quando em 2020 conhecei o Rafa e a Suzi, fizemos esse compromisso de ajudar a levar cultura e arte pra quem mais precisa de fato e mostrar que temos uma potência muito grande e variadas de artistas de várias vertentes e linguagens e estão por aí só precisando de um espaço para serem acolhidos e se expressarem com respeito e dignidade.

 

Além da falta de grana – que é quase um personagem principal em qualquer projeto periférico – qual foi o “impossível”que quase te fez pirar, mas no final virou história boa pra contar? (E a gente sabe que tem!)

Não era bem impossível, mas fiquem bem apreensivos com a garantia de termos um projetor e uma tela. Porque, sejamos sinceros, é muito mais atrativo ver um filme numa tela grande, isso todos concordamos, é mais imersivo e te coloca dentro daquele momento, daquela história. É bem mais difícil de ignorar o que está sendo mostrado. Dito isso, não temos esses equipamentos no nosso espaço, o que temos é a ajuda de pessoas maravilhosas e que nos ajudam, como o Edson, da Casa das Quebradas e do Sarau Urutu, a Melissa, da Ocupação Mateus Santos, e agora recentemente a Mari, do Marginaliaria. Um coletivo de cinema independente incrível e que apoiou o projeto da Mostra desde o início e que somos gratos demais por somar com a gente.

Devo ter falado com a Mari bastante nos últimos dois meses, mas somos nos conhecer pessoalmente no dia da Mostra, o que foi muito doido, porque quem me apresentou ela foi o Tiago Marceno, amigo que conheci em um curso de grafite na Casa de Cultura do Itaim Paulista, e foi a primeira pessoa que chamei pra expor. É um mundo pequeno mesmo.

 

A mostra não é só exibição, é ocupação. Como você escolhe os filmes e artistas? Tem algum critério secreto tipo “precisa ter pelo menos uma cena gravada no busão 1009”?

Sim e não haha. Mas nessa primeira edição tivemos um tema meio em comum, que foi a visão periférica através da música e principalmente do funk. Conversando com a Yara, soube que além de ter dirigido o curta Malokera, que veio de um projeto de vídeo clipe que se transformou em uma obra cinematográfica, ela conhecia também o Filipe Barbosa, diretor do aclamado Fluxo. Foi aí que veio a ideia de continuar nessa base e convidar mais diretores dispostos a exibir seus filmes. Então, naturalmente, o funk surgiu como ponto de virada no tom da Mostra. Eu mesmo nem sou do rolê do funk, escuto de tudo e comecei a dar mais atenção pra esse gênero recentemente, e enquanto fenômeno cultural é algo que precisa ser ainda mais estudado, mas antes de tudo precisar ser ouvido com respeito e atenção, pra gente poder pensar além da superfície e do lugar-comum da música de ostentação, são várias vivencias ali sendo colocadas e narradas por pessoas que são o tempo todo marginalizadas. Elas são censuradas não por falar de sexo explícito ou violência, mas pela cor de pele e pelo lugar onde vivem. Então, o Cine Perifa acabou também se tornando um movimento pra dar visibilidade aos marginalizados da arte, mantendo a tradição do próprio Veganaassoo em dar voz a bandas autorais. Mantendo viva a cena autoral e original no underground.

 

A Zona Leste é gigante e diversa. Como a mostra consegue abraçar tantas quebradas sem virar um “cardápio de clichês” sobre a periferia?

Boa pergunta, tenho orgulho em dizer que tivemos uma diversidade enorme nas produções que escolhemos. Nós temos desde a comédia romântica misturada com metalinguagem do curta Som Direto, passando pela distopia lúdica de Miragem, curta em Realidade Virtual. Passando pelo próprio Fluxo, que em menos de 15 minutos apresenta uma narrativa rica e com um visual lindíssimo pra contar uma história de amor, memória e tragédia no meio de um dos maiores bailes funk da cidade de São Paulo. O divertido e nostálgico Memória de Pivete, o já citado Malokera, e os documentários Música, Vivência e Autoestima e Fábrica de Bico, dois docs distintos em linguagem, mas complementares em narrativa e visão. Cada um de uma quebrada diferente, de Zonas diferentes e mostrando que a diversidade e criatividade tá viva na periferia.

Então, acredito que conseguimos fazer um cardápio bem variado de opções pra geral que ama cinema e trazer um panorama rico do cinema independente periférico.

 

Já rolou alguma colaboração que parecia improvável (tipo uma instituição tradicional que caiu de paraquedas e acabou virando parceira)?

Ainda não rolou. Mas com toda essa visibilidade que estamos tendo e com as parcerias e coletivos incríveis que vieram somar com a gente, acredito que é questão de tempo. Alô, SPCINE!!! hahaha

Ah, também lembrei que vem uma novidade em breve, que eu com certeza não esperava, sem entrar em muitos detalhes, mas o Cine Perifa vai passar pela Fundação Casa e levar um pouco de arte pra quem está sem acesso a ela.

 

Se a CinePerifa ganhasse verba infinita por um ano, qual sonho completamente fora da caixavocê realizaria? (Tipo projetar filmes no meio do Jaçanã? Levar o cinema pro trem? Conta tudo!)

Eitaa, tanta coisa, tanta possibilidade. Acho que é isso. Eu real tenho um objetivo de formação de público, uma parada que não deu pra rolar na estreia foi uma roda de conversa com os realizadores, e isso é de extrema importância pra essa formação. Porque, vamos lá, o cinema nacional é tratado como lixo pelas instituições, pelo estado, e isso gera uma visão negativa do público que vê o cinema como algo menor dentro até mesmo de outras artes e formas de entretenimento. Mas acredito na força que o cinema tem de gerar discussão e mudanças reais na sociedade, seja fomentando debates, ou seja educando os jovens a criar senso crítico. Então, eu investiria muito em roda de conversa, oficinas, cine debates, levar pra praças, pra escolas, pra onde a gente conseguir formar público e mostrar que a arte tem possibilidades infinitas.

 

Tem alguma reação do público – seja de quem é da quebrada ou de quem veio de fora – que te marcou profundamente? Algo que mostrou que a mostra tá no caminho certo?

Ainda não tive tempo de verdade pra processar tudo o que rolou naquele dia. Mas posso dizer que ver aqueles diretores em cima do palco recebendo os pôsteres que um dos expositores produziu pra Mostra, foi um momento lindo demais. Quero agradecer muito o Bruno, o Deevaneio, e geral dos expositores e artistas que colaram, as meninas incríveis da Bakongo Musikal, o Salatiel, que incendiou o palco com a apresentação, e que é uma pessoa incrível. O Matias Zec, que acabou sendo nosso MC, mediador e agitador da festa, tamo junto demais. Também destaco a reação do Vini Marx diretor do Fábrica de Bico que fez essa obra prima! E era só a segunda exibição do filme, um trabalho primoroso com uma estética linda, bastante poético. Espero que ele não deixe de fazer filmes, e que agora tenha a visão de que realizou uma obra sensacional e que ele e todos os realizadores continuem fazendo filmes!

 

Se um mlk ou uma mina da ZL chegar pra você falando “também quero criar um rolê cultural aqui”, qual é a primeira dica que você dá? (Além do clássico “não desiste”.)

Eu digo desista! Seria minha clássica reação haha

Mas agora sério, acho que posso dizer: vai pra cima. Cola nos picos, conversa com a galera, mesmo na timidez, vai lá, ocupa os espaços. Primeiro a gente vai chegando na cena pra depois fazer parte dela, tá ligado. Seja fã dos seus amigos, em algum momento vai aparecer uns doidões com a mesma visão de mundo e quando menos esperar você pode tá por aí fazendo um evento, construindo pontes, somando junto. É, sim, estressante, é uma responsa gigantesca, mas vai ficando mais fácil e cada vez mais satisfatório, sério, é lindo ver a parada se materializando e acontecendo.

 

Quando a mostra não tá rolando, qual é o seu cantinho favorito na ZL pra tomar um café, ver um movimento ou só respirar arte? (Passa o endereço que a gente divulga, ou não, dependendo do lugar, rs!)

Seria muito suspeito falar do Veganaassoo??? haha, mas não tem como haha

Conheçam o espaço, fica na Avenida Doutor Assis Ribeiro, 8012, há menos de 10 minutos da estação da CPTM, papo reto, falando como público é um lugar incrível.

 

Qual filme, música ou obra de arte te representa tão bem que, se um dia a CinePerifa virar um filme, ela teria que aparecer na trilha ou numa cena?

Eitaa, seria tanta coisa haha. Mas eu real colocaria o Homem que Copiava, eu amo o cinema do Jorge Furtado. E tudo de melhor que tem na filmografia dele se encontra nessa obra. Uma narrativa bem humorada, sarcástica, irônica, séria quando precisa, tensa na medida certa, é como um filme do Tarantino, no modo como ele faz um cinema pop cheio de referências, mas ainda com uma linguagem e ritmo próprio. Gostaria de algo com aquela estética inicial dos filmes do Spike Lee, tipo o Faça Coisa Certa e o Crooklyn, essa coisa colorida, solar, com aquele impacto visual bem forte e característico dele.

Teria que ter um som do grande artista, rapper, diretor, produtor Edgar, qualquer coisa do álbum Ultrassom seria foda. Acho que é isso.

 

Você pode acompanhar mais aqui no insta da galera: https://www.instagram.com/veganaassoo/

Autores

  • Renan Dalago

    Publicitário com segunda graduação em Letras - Português/espanhol e suas respectivas literaturas pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Especialista em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais e Psicologia Analítica Junguiana. Mestre em Poéticas da Modernidade. Doutorando em Comunicação, na linha de pesquisa Mídia e Cultura, pela Universidade Federal de Goiás, bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG). Amante da sétima arte, da psicanálise junguiana, seus arquétipos e, também, da semiótica. Mistura tudo isso para compreender o mundo, a sociedade, a comunicação, o cinema, a literatura e as inter-artes.

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  • Murilo de Castro

    Murilo de Castro é mestrando em Cinema e Artes do Vídeo pela Universidade Estadual do Paraná (Unespar/FAP); Bacharel em Relações Internacionais (UP). Pesquisador integrante do grupo EIKOS - Imagem e Experiência Estética (Unespar/PPGCINEAV-Unespar/FAP/CNPq). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE). Editor-Chefe da Revista Película (ISSN: 3085-6183); Editor-Assistente da Revista Coletivo Cine-Fórum (ISSN: 2966-0513). Cineclubista pelo Cineclube Cerejeira (Ciclo de 2024). Autor do livro "A Poética da Angústia: Ensaios sobre o cinema de Gaspar Noé". Ensaísta e Crítico de Cinema. Participou da produção do filme “Nyx Post-Porn” selecionado para o Festival de Arte y Cine Contrasexual (FACC/2025), no México. Pesquisador nas linhas de: Cinema; Cinema e Patologias Sociais; Cinema e Violência; Cinema e Cultura; Cinema e Política e Narrativas Audiovisuais.

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