A DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA EM O MUNDO DEPOIS DE NÓS (2023)

A DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA EM O MUNDO DEPOIS DE NÓS (2023)

O Mundo Depois de Nós é um filme escrito e dirigido por Sam Esmail e baseado no livro de 2020, escrito por Rumaan Alam. A história é sobre uma família que decide passar alguns dias numa casa alugada em uma área mais afastada da cidade grande. Uma noite, chega um homem negro com sua filha, alegando que são os donos da casa, que alugaram o local para a família, e que gostariam de passar um tempo lá, pois algo apocalíptico estaria se aproximando. Isso, claro, gera desconfiança da família.

Até esse ponto do filme, a história contada pode nos causar reflexões sobre o racismo. Como a família que alega ser a dona da casa é negra e a que alugou é branca, será que a desconfiança que eles têm é pela diferença de raça? Eles também desconfiariam se um pai branco dissesse ser o dono da casa?

Mas, embora esse subtexto esteja ali presente na obra, principalmente nesse início, somos levados a outras reflexões mais à frente. Conforme descobrimos o que se passa — ou acreditamos que descobrimos —, somos levados a refletir sobre a situação política dos EUA e sobre como as pessoas reagem em situações adversas. Há, por exemplo, um momento em que o pai da família branca, interpretado por Ethan Hawke, sai dirigindo e encontra uma mulher estrangeira, que fala espanhol e não entende o inglês. O pai, que havia se mostrado uma pessoa muito compreensível antes, agora abandona a mulher após não conseguir entender tão bem o pedido de ajuda. Essa cena, é claro, também volta na reflexão sobre o racismo (além da xenofobia), pois será que ele não entendeu mesmo que ela queria ajuda? Será que a reação seria diferente com alguém falando inglês ou uma pessoa branca? Logo depois, o pai ainda presencia um drone espalhando panfletos com escritos em árabe, dando um possível indício do que estaria acontecendo nesse “apocalipse”.

O assunto dos panfletos volta mais perto do final do filme, quando outro personagem diz ter ouvido sobre panfletos em coreano ou mandarim, o que mostra que se for mesmo um ataque terrorista, haveria a possibilidade de vários países terem se unido contra os EUA. Isso leva a uma reflexão sobre as ações do próprio Estados Unidos internacionalmente, que vêm há décadas criando alguns “inimigos”. É possível que muitos moradores sintam que o futuro possa ser complicado caso esses países se unam contra eles algum dia.

Outros dois temas que não podem ser ignorados e que talvez sejam os principais durante o filme todo são: a dependência da tecnologia e o papel do entretenimento. A dependência da tecnologia é um tema recorrente no filme. O “apocalipse” não está acontecendo porque um meteoro caiu, aliens chegaram na Terra, ou porque de repente terremotos, furacões e tsunamis aconteceram no mundo todo. O fim do mundo está sendo sentido aqui porque as pessoas deixaram de ter acesso à internet e sinal de TV.

Uma das cenas que ilustram bem esse problema é quando nos é mostrada uma rodovia lotada de Teslas que colidiram, e depois entendemos que eles colidem pois o piloto automático está levando os carros a passarem por ali e sendo ineficazes em escapar do “engarrafamento” que surge repentinamente para eles.

Quanto ao papel do entretenimento, é muito significativo que uma das personagens esteja, por não receber atenção dos pais e do irmão mais velho, tão focada em conseguir assistir Friends (1994, David Crane; Marta Kauffman), mesmo que o mundo esteja acabando. E ela só consegue assistir ao último episódio quando encontra os DVDs da série em um bunker, já que a internet estava indisponível. Isso, de novo, ainda nos remete ao tema da dependência tecnológica.

No fim, até há uma possível explicação para o que pode ser de fato esse apocalipse vivido pelas personagens, mas não parece que essa explicação é o mais importante do filme. O filme parece mais interessado realmente em discutir esses temas previamente mencionados do que nos contar apenas uma história apocalíptica.

Autor

  • Murilo Bronzeri

    Doutorando em Comunicação pela UNIP, com bolsa CAPES. Mestre em Comunicação Audiovisual pelo PPGCOM-UAM, com bolsa CAPES. Integrante do grupo de pesquisa "NARRATOPIAS: Narrativas, Temporalidades e Tecnologias da Comunicação", do(a) Universidade Paulista (UNIP). Graduado em Rádio, TV e Internet pela Universidade Anhembi Morumbi (2020).

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