DIGGER – O CINEMA VAI SER O FIM DO MUNDO

 

Vi que um veículo de crítica descreveu Digger como “o filme ruim mais ambicioso do ano”, e, ao mesmo tempo que a experiência tediosa e totalmente sem graça que a obra me ofereceu faz eu me sentir compelido a concordar com a afirmação, não consigo deixar de pensar que a ambição do diretor e tudo que deriva disso acaba fazendo do filme BOM. Afinal, apesar de todas suas complexidades em composição, auto-referências e metalinguagem, é bem fácil simplificar Digger à sua essência, o que move todos seus minutos & faz o filme funcionar: é um filme sobre Cinema. Simples, nada mais, nada menos. Não é um filme sobre o aquecimento global, muito menos sobre algum tipo de tremor político global (por mais que tenha certeza de que o espectador médio estadunidense vá pender a esse lado); é um filme que, assim como muitos outros, é sobre ele mesmo, sobre o meio cinematográfico. Se o espectador não conseguir se segurar e querer falar sobre política, sinto que Digger também é sobre a dinâmica sociocultural politizada do Cinema na atualidade, refletindo a respeito do papel negativo do cinema em contribuir à queda da sociedade.

 

E, nesse sentido, pior que o longa funciona, pelo menos para mim. Eu não gosto da “pós-ironia” no cinema, então não penso que a forma como o Iñaritu satiriza a ruindade da “própria” sátira aqui anule sua tosquice, afinal, é o que domina a maior parte da tela, mas a ressignificação dessa narrativa em tela à mensagem maior da obra sobre o cinema é tão bem-feita que ESSA SIM torna o ruim do filme no mínimo aceitável. É difícil admitir como crítico que fui parcial com o filme, mas é verdade! Não teve nenhuma tendência que me entendesse mais no cinema do que a “Sátira Política”, filme politizado que é zerado em ideologia e se recusa a se aproximar da realidade que ele está SUPOSTAMENTE retratando; assim como Digger afirma, é o tipo de arte que contribui à acomodação de um sistema injusto, ainda que tente fazer o contrário. Não é como se o Iñárritu não recaísse aos seus problemas como diretor em vários momentos do filme. Primeiramente, é uma comédia MUITO sem graça, e não existe explicação meta que faça isso colar, pra mim, e não é um longa particularmente bem filmado, mas a ambição da forma como ele abrange o fazer artístico no filme é tão atual, moderna, interessante e criativa que remodela totalmente o inteiro da obra e me faz contemplar se esse filme que tanto me irritou é uma obra-prima. No final das contas, acaba tudo virando um pesadelo meta: o Iñaritu escala o Tom Cruise para estrelar a superprodução autoral hollywoodiana dele sobre a porra do fim do mundo, somente pra usar o filme pra criticar o exato comportamento que ele APARENTAVA estar regurgitando.

 

Na realidade, é meio PUNK fazer uma superprodução blockbuster com o maior ator do planeta, que comunica uma ideia de que esse tipo de cinema é desalmado & contribui com críticas totalmente nulas em significado e impacto. Porra, eu escrevi a merda de um artigo basicamente IMPLORANDO para que alguém pisasse no chão e falasse sobre o presente no cinema, e o Iñaritu fez isso me PERSUADINDO a ir ver uma obra que eu acreditava estar fazendo o OPOSTO. PUNK! As ideias de Digger são muito interessantes no meio artístico, essa noção da arte perdendo sua alma durante a produção, tornando-se mecânica e desumanizada, SOMADA a uma reflexão interessante a respeito do maldito espectador que grita e aplaude, regurgitando bobagem e futilidade, e concluída com a morte final do cinema: o fato de que o apreço pela arte nunca vem antes da vida pessoal, nem para o artista. Mas isso não basta, obviamente; elas são BEM EXECUTADAS, fria e lentamente durante a duração do longa, com silêncios ensurdecedores, planos rápidos & um final extremamente importante na atualidade. Se existe alguma forma da Hollywood contribuir para uma revivida do cinema (a partir de um olhar crítico), é com esse tipo de produção, uma obra cuja pretensão irritante tem verdadeiro significado.

 

Tem um excelente monólogo do Tom Cruise no filme que é realmente hipnotizante. Se eu não tivesse sido tão cativado pelo final da obra e pela subsequente ressignificação narrativa que isso me provocou, essa cena seria meu grande destaque na experiência. O superastro toma conta da tela pra gritar com o espectador sobre suas hipocrisias, no caso, falando sobre a crise climática, atacando o cidadão acomodado que não aguentaria viver sem os privilégios que o petróleo lhe traz, direta e indiretamente. É uma cena boa, bem construída e barulhenta, mas se torna ainda melhor quando tu para de fingir que Digger é sobre a merda do aquecimento global. O tribunal é um teatro, tem uma plateia e um palco, e o personagem do Cruise é um ator frustrado, enfrentando cada vez mais dificuldades em distinguir sua pessoa do seu personagem, logo, a cena como um todo se refere ao espectador, em um senso meta. Afinal, a hipocrisia é o que vai matar o cinema. Eu sabia que ia odiar Digger e, mesmo assim, fui ver na noite de estreia. O mesmo vale para a Odisseia do Nolan, entreti arte que eu considerava nocivo à arte que eu amo, somente pra criticar, e não deixar de ressaltar. No caso, eu adorei Digger, mas o ponto segue, e a ideia do longa de que não existe cinema sem uma plateia rugindo e reclamando enquanto digere o que tanto odeia é SENSACIONAL, moderna, DIGNA de uma obra que acredito estar surgindo como um bom manifesto pro cinema dos anos 2020. Apocalíptico, talvez, mas se é cinema bom, é bom pro cinema.

 

Digger já nasce CRUCIAL, em posição firme no plano moderno cinematográfico, comunicando ideias, deliciosamente DATADAS e, por isso, CORAJOSAS. Me irrita profundamente saber que saí do cinema tremendamente instigado e impressionado, já que eu não estava pronto para isso, mas é um fato, e espero que eu consiga gostar cada vez mais do filme com o passar do tempo.

Autor

  • Miguel Duro

    Com 17 anos, escrevo críticas de cinema a mais ou menos 2 anos. Possuo uma página no Instagram na qual tenho publicado mais de 90 textos (@mrduro_cinema). Minha maior paixão é o cinema e a forma que encontrei para expressar esse amor ao mundo é por meio do texto, tanto no inglês quanto no português.

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