WONG KAR-WAI E SEU ESPLÊNDIDO UNIVERSO CINEMATOGRÁFICO

Após algum tempo sem sentir vontade de escrever nada, finalmente encontrei inspiração novamente. Assisti a quatro filmes dirigidos e roteirizados por Wong Kar-Wai neste fim de semana de Carnaval. Não que eu seja contra a cultura de festa de rua que possuímos aqui no Brasil, mas, por motivos pessoais, não pude participar e resolvi assistir a alguns filmes que estavam “mofando” na minha lista.

O primeiro foi escolhido aleatoriamente: Chungking Express, ou Amores Expressos, como foi o título adaptado para o português. Não conhecia muito do diretor ou dos atores; eu o coloquei em minha lista por ver que um amigo o tinha assistido e compartilhado nas redes sociais. Tenho uma mania que às vezes me coloca em algumas ciladas: não ler a sinopse. Então, imagine o quão fissurada eu fiquei assim que dei o play.

Antes de comentar, de fato, minha experiência, vamos dar uma olhada rápida no que cada uma dessas obras tem para nos contar. Em Amores Expressos, acompanhamos dois policiais: o primeiro é abandonado pela namorada e, após um mês esperando reatar, finalmente segue em frente e se envolve com uma mulher misteriosa que conheceu em um bar. O segundo também passa por um término; é deixado por sua namorada, que é aeromoça, e acaba envolvido em uma relação platônica (ou não) com uma atendente de lanchonete.

O segundo filme que assisti foi In the Mood for Love (Amor à Flor da Pele), que dos quatro foi o meu favorito. Nele, acompanhamos uma mulher e um homem que se tornam vizinhos no mesmo dia, acompanhados de seus respectivos parceiros. Sra. Chan e Sr. Chow logo descobrem que seus companheiros estão tendo um caso e, numa sádica e triste tentativa de entender a situação, acabam também se apaixonando perdidamente.

No dia seguinte, dei play em 2046. Aqui, acompanhamos um personagem que já conhecemos, alguns anos após o fim de In the Mood for Love. O Sr. Chow escreve um romance futurista onde as pessoas pegam um trem para o ano de 2046; seu protagonista está voltando de lá, sendo o primeiro a fazer tal coisa. Em paralelo ao que Chow escreve, vemos que ele possui novos relacionamentos — todos amores à sua maneira. Por último, nessa sequência de filmes, assisti a Fallen Angels (Anjos Caídos). Aqui, a meu ver, temos três protagonistas: um matador de aluguel, sua parceira e um homem que ficou mudo após comer uma lata de abacaxi vencida — os três tentando compreender o mundo e o amor à sua maneira.

O que estas histórias têm em comum são pessoas ordinárias; mesmo que suas profissões não sejam comuns, ainda são apenas ocupações. Elas não definem o que cada um é; um emprego é só isso ao fim do dia. A parte divertida desses filmes é que eles são lindos em tudo: na estética, no roteiro e na atuação. A parte triste é que me vi muito mais do que gostaria em cada um desses personagens e em suas vidas melancólicas. Viver e amar não são tarefas fáceis, e acho que é nesse ensinamento que Wong Kar-Wai brilha, já que ele consegue nos mostrar isso fazendo arte.

Há aquela sensação proposital de estar espiando a vida alheia; o modo como as cenas são filmadas muitas vezes nos deixa com esse gostinho delicioso, como se nós, espectadores, fôssemos personagens também — um personagem invisível. Tenho uma natureza curiosa desde criança e, justamente com tendências voyeurísticas, adquiri hábitos para satisfazer isso. Quando tinha 17 anos, comecei a ter crises de insônia — que ainda tenho, mesmo dez anos depois. Quando era mais nova, não podia mexer no celular de madrugada e nem havia todas as redes sociais que existem hoje; então, eu ficava ouvindo os barulhos da vida à noite e imaginando o que estava por trás deles, fossem sons de carros, motos ou risadas.

Também gosto de olhar para dentro da casa dos outros quando ando de trem, de carro ou, às vezes, até mesmo a pé. Eu sei que é um hábito peculiar, mas gosto de ver o que cada pessoa comum faz no seu dia a dia. Esses filmes, por algumas horas, deram-me esta mesma satisfação: ver que, independentemente do lugar onde você se encontre ou da época em que tenha vivido, seres humanos lidam com seus sentimentos e confusões de formas bem parecidas e, ao mesmo tempo, únicas. Pude me enxergar nesses personagens complexos, mas tão reais, mesmo que fossem totalmente desequilibrados.

Eu pude me enxergar e ver arte no universo de Wong Kar-Wai.

 

 

Autor

  • Estephany Magalhães

    Estephany Magalhães, 26 anos, é graduanda em Letras pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Em fase de conclusão acadêmica, dedica-se à pesquisa sobre comunicação no setor de entretenimento, com foco em produções audiovisuais sob a perspectiva anticolonial. Com o objetivo de ampliar sua atuação global, dedica-se atualmente ao estudo dos idiomas mandarim e tailandês.

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