NO MÊS DA MULHER, A ARTE COMO MEMÓRIA CONTRA A VIOLÊNCIA

NO MÊS DA MULHER, A ARTE COMO MEMÓRIA CONTRA A VIOLÊNCIA

Existem muitas coisas interessantes acontecendo neste momento no mundo do entretenimento. A corrida pelo Oscar tem evidenciado o papel cada vez mais relevante do cinema brasileiro no cenário internacional. Ao mesmo tempo, o crescimento do protagonismo latino-americano no consumo global de entretenimento ganha expressão no verdadeiro furacão cultural representado por Bad Bunny. Soma-se a isso o vasto portfólio de oportunidades comerciais que formatos consolidados — como os realities em temporadas de grande sucesso — continuam capazes de gerar.

Há ainda o fôlego criativo das produções independentes e ousadas, que temos o prazer de constatar no recente fenômeno da série “Rivalidade Ardente” (Heated Rivalry), baseada no sucesso literário de Rachel Reid. Temas instigantes que certamente renderão reflexões que ainda teremos a oportunidade de compartilhar.

Mas nenhum desses assuntos conseguiu encontrar morada na mente e no coração dessa escritora nos últimos dias. O motivo? Uma dor coletiva que atormenta e aperta o peito, envolvida por um sentimento urgente de falar sobre a onda de violência contra a mulher que vem nos assolando, tendo na conscientização por meio da arte uma das únicas ferramentas para aplacar a opressora sensação de impotência. Dados e relatos violentos, em todas as esferas, ultrapassam qualquer audiência e atenção neste momento e, em termos de prioridade, atropelam qualquer pauta.

No mês em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, elegendo o dia 8 de março como um momento para reflexão sobre a luta feminina (dolorosamente ainda atual) pelos direitos mais básicos, como a vida e a existência em liberdade, precisamos voltar “algumas casas” na forma através da qual escolheremos “celebrar” tal dia.

Sem desmerecer as rosas e longe de esgotar um tema tão complexo, muito menos resumir nossa ação à postura passiva de indignação, deixo aqui uma singela contribuição reunindo algumas obras e conteúdos produzidos sobre o tema. Um complemento necessário às denúncias e alarmantes dados que vêm circulando nos veículos e nas redes.

Partindo da convicta ideia de que a capacidade de produzir e consumir arte é uma das características intrinsicamente humanas que ainda nos resgata de um estado medíocre e desolador de existência, vejo nesses conteúdos e em tantos outros já produzidos ou ainda em produção, uma forma de conscientizar e registrar nossa história, num compromisso coletivo de “lembrar para não esquecer nem repetir”.

Considerem essa lista como um buquê de rosas a todas as mulheres brasileiras pelo “nosso dia”. Que sejam distribuídas, se multipliquem com a inclusão de outras indicações, e germinem com a persistência incansável da arte no árido solo da misoginia que segue nos matando, a cada ano, a cada novo mês de março.

Entre essas obras, o filme Ângela (2023), dirigido por Hugo Prata, revisita o assassinato de Ângela Diniz em 1976, um dos casos de feminicídio mais emblemáticos do país, expondo como relações marcadas por ciúme, controle e violência podem culminar em tragédias que revelam muito sobre a cultura que as cerca. No campo do documentário, produções como Ato Final, de Roberta Fernandes, ampliam essa reflexão ao reunir relatos de mulheres vítimas de feminicídio e sobreviventes de violência doméstica, discutindo o impacto social desses crimes e as formas possíveis de enfrentamento.

Outras obras resgatam dimensões históricas dessa violência. Torre das Donzelas (2018), de Susanna Lira, e o clássico Que Bom Te Ver Viva (1989), de Lucia Murat, trazem à luz os testemunhos de mulheres presas e torturadas durante a ditadura militar brasileira, evidenciando como a repressão política também se manifestou de forma brutal e específica contra mulheres. Nesse mesmo movimento de reconstrução da memória, Em Busca de Iara (2013), de Flavio Frederico, reconstitui a trajetória da militante Iara Iavelberg e questiona as versões oficiais sobre sua morte naquele período.

Há ainda produções que exploram outras faces da violência e da desigualdade estrutural que atravessam a vida das mulheres brasileiras. O documentário Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado, de Joel Zito Araújo, investiga o fenômeno do turismo sexual envolvendo brasileiras e estrangeiros, revelando as relações entre exploração, desigualdade social e vulnerabilidade feminina. Já Um Crime Entre Nós (2020), dirigido por Adriana Yañez, analisa a violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, expondo a persistente cultura de silêncio e impunidade que ainda cerca esses crimes.

No campo das conquistas legais e da resistência social, O Silêncio das Inocentes (2010), de Ique Gazzola, revisita a criação da Lei Maria da Penha e apresenta relatos de mulheres que enfrentaram a violência doméstica, evidenciando o longo caminho percorrido para transformar dor em política pública. Outras narrativas ampliam o olhar sobre grupos frequentemente invisibilizados: Meu Corpo é Político (2017), de Alice Riff, acompanha o cotidiano de pessoas trans e revela as vulnerabilidades e violências enfrentadas por mulheres trans no Brasil, enquanto Doméstica (2012), de Gabriel Mascaro, expõe as desigualdades estruturais que marcam a vida de trabalhadoras domésticas, um universo majoritariamente feminino.

Há também produções que observam a juventude e os movimentos sociais contemporâneos, como Espero Tua (Re)Volta (2019), de Eliza Capai, que acompanha mobilizações estudantis e evidencia como questões de desigualdade e violência estrutural continuam presentes na formação política das novas gerações. E mesmo um clássico distante no tempo, como Ganga Bruta (1933), de Humberto Mauro, já começava sua narrativa a partir de um crime passional, refletindo sobre honra, moralidade e violência em uma sociedade que historicamente normalizou certas formas de brutalidade masculina.

Juntas, essas obras formam um mosaico de narrativas que ajudam a compreender como a violência contra a mulher atravessa nossa história, nossas instituições e nossas relações sociais. Mais do que recomendações culturais, são registros sensíveis de uma realidade que insiste em se repetir e que a arte, persistentemente, tenta iluminar.


Autor

  • Carol Bassin

    Advogada e sócia fundadora do escritório Bassin Advocacia Cultural, especializado em propriedade intelectual, legislação de incentivo e proteção autoral. É também membro efetivo da Comissão de Direitos Autorais, Direitos Imateriais e Entretenimento da OAB/RJ

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