PRÉDIO VAZIO TRANSFORMA A COSTA TURÍSTICA BRASILEIRA EM UM MONUMENTO ASSOMBRADO DO CAPITALISMO SAZIONAL

Prédio Vazio (2025), lançado internacionalmente como Evil Within, é o mais recente trabalho de Rodrigo Aragão, cineasta e roteirista conhecido por seu horror de efeitos práticos. Aqui ele transfere seu estilo de folclore para o espaço urbano. A trama se dá em um prédio decadente à beira-mar em Guarapari, no estado do Espírito Santo, definida por contrastes sazonais extremos. Durante o Carnaval, a cidade transborda. Na baixa temporada, esvazia-se quase completamente. O edifício que dá título ao filme torna-se um símbolo dessa dinâmica e funciona como um organismo que respira quando o consumo está presente. A cidade, destino tradicional do turismo doméstico brasileiro, é retratada como um território de erosão.
O filme tem uma premissa simples em que os protagonistas entram no prédio em busca de uma mãe desaparecida. Aos poucos, a trama revela um retrato mais amplo. A estrutura é um cemitério vertical, abrigando fantasmas que não são apenas sobrenaturais. Aragão transforma o edifício em uma alegoria do turismo predatório. Em cidades cujas economias dependem quase exclusivamente de visitantes temporários, a infraestrutura se torna refém de ciclos extremos. Superlotação festiva seguida de abandono mórbido. O espaço urbano começa a servir ao consumo episódico em vez da presença humana sustentada. O resultado é um ambiente que oscila entre o excesso e o vazio, o ruído e o silêncio, o lucro imediato e a decadência estrutural. Os espectros que habitam o prédio estão presos dentro dele, assim como os zeladores e, metaforicamente, a própria administração municipal. O edifício não é apenas um cenário; é uma máquina cívica capturada pelo capital sazonal. A receita do turismo sustenta a cidade, mas também a aprisiona. A cidade torna-se dependente de um fluxo que, em última análise, erode sua própria identidade.
A atmosfera carrega uma estética que dialoga com o horror italiano, particularmente Dario Argento, ao abraçar tons neon saturados e contrastes cromáticos, especialmente em cenas que prenunciam o sobrenatural. A cor funciona como presságio e distorção perceptual. A luz artificial invade o espaço em decomposição, criando uma tensão entre o brilho ilusório do entretenimento e a degradação física do ambiente. Gilda Nomacce entrega uma performance marcante como Dora, a cuidadora que alimenta — tanto literal quanto simbolicamente — o prédio e as almas que nele habitam. Sua interpretação confere profundidade ao que poderia ser um papel puramente funcional de gênero. Dora é a guardiã de uma estrutura em colapso, a mediadora final entre o abandono e a continuidade. Sua presença reforça a ideia de que alguém deve sustentar o que os outros consomem e descartam.
Efeitos práticos, a assinatura de Aragão, continuam sendo um dos elementos mais fortes do filme. As deformidades físicas dos fantasmas, com olhos saltados e corpos corrompidos, evocam um horror grotesco enquanto preservam uma materialidade artesanal. Há sequências mais violentas sem transformar o sofrimento em espetáculo gratuito. A corporeidade mutilada ecoa a mutilação simbólica do próprio espaço urbano.
Prédio Vazio é, antes de tudo, um filme de terror projetado para envolver. Funciona como uma experiência sensorial, impulsionada por um ritmo eficaz e momentos visuais marcantes. Percebe-se, sob essa superfície, uma inquietação mais ampla. O Carnaval, frequentemente celebrado como um motor econômico e cultural, aparece aqui como evento que gera receita enquanto simultaneamente mascara a degradação estrutural e a desigualdade persistente. O edifício acaba por se tornar uma síntese do que pode ser chamado de uma arquitetura do sofrimento. É um espaço abandonado produzido por um modelo de desenvolvimento que promete prosperidade enquanto institucionaliza a fragilidade. O horror real reside na lógica que cria as condições para que o vazio se instale.
E mesmo que o filme não explore todos os seus conflitos sociopolíticos com a mesma intensidade que dedica à sua construção estética, ainda assim produz uma imagem potente. A obra não é simplesmente um exercício de gênero estilizado em neon nem apenas um horror trash elevado. É um comentário inquietante sobre o custo da sazonalidade e sobre os fantasmas que permanecem quando os turistas vão embora.
Visualmente interessante, conceitualmente provocativo e inconfundivelmente brasileiro, a película reafirma seu compromisso de se engajar com influências internacionais sem abandonar as realidades locais. Ao transformar um monumento à beira-mar em um mausoléu contemporâneo, Aragão nos lembra que alguns vazios não são acidentais. Eles são construídos.
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Crítico cultural com foco em cinema e experiência humana. Escreve ensaios e críticas sobre cinema contemporâneo e clássico, com atenção a temas como trauma, culpa e moralidade. Interessa-se por leituras que partem da experiência do espectador.
