O ATO DE MATAR (2012) E A DESCONTRUÇÃO DA NARRATIVA

O ato de matar é um filme sobre os torturadores dos massacres na Indonésia na década de 1960, que ocorreram contra os comunistas e opositores do regime. Esses torturadores são mostrados no presente, quando muitos se tornaram gangsters e líderes de organizações políticas envolvidas com a ideologia autoritária do antigo regime.
O documentário, porém, não segue um formato convencional, pois é permitido (até certo ponto) que os torturadores decidam como querem se mostrar para a câmera. Além disso, um dos artifícios mais interessantes do filme é quando os torturadores reencenam as torturas cometidas. É de se esperar que retratar as torturas a partir do ponto de vista dos torturadores poderia causar um retrato distorcido da realidade, pois os diretores estariam dando o poder de contar uma versão alternativa, mais suave e mais heroica, dos acontecimentos. Os diretores, no entanto, não permitem que isso aconteça. Ao mostrar as discussões entre os torturadores sobre a forma como eles devem aparecer no filme, o filme passa a ser também sobre essa imagem que eles querem passar, o que permite que o espectador entenda aquilo como apenas um lado da história, e como um lado alterado para parecer o certo.
A forma como os torturadores são mostrados justificando seus atos através de comparações com as ações militares dos EUA também é relevante. Somada à campanha retratada para a eleição de um desses antigos agentes do governo, o espectador passa a se questionar sobre as relações entre a corrupção, poder e outros problemas da história mundial, como, por exemplo, a Guerra no Iraque e o genocídio dos povos nativos.
Dessa forma, O ato de matar transcende a função de um mero registro histórico para se tornar um estudo profundo sobre a banalidade do mal e a construção de narrativas. Ao confrontar os carrascos com suas próprias encenações, o documentário retira o véu de heroísmo que eles tentam sustentar, revelando, em vez disso, um vazio moral. O que resta ao espectador não é apenas o choque diante da violência das torturas, mas a consciência de que, enquanto a memória for moldada pelos vencedores, os monstros de ontem continuarão a ditar as regras de hoje.
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Doutorando em Comunicação pela UNIP, com bolsa CAPES. Mestre em Comunicação Audiovisual pelo PPGCOM-UAM, com bolsa CAPES. Integrante do grupo de pesquisa "NARRATOPIAS: Narrativas, Temporalidades e Tecnologias da Comunicação", do(a) Universidade Paulista (UNIP). Graduado em Rádio, TV e Internet pela Universidade Anhembi Morumbi (2020).
