Fazer cinema no Brasil é uma das tarefas mais complexas que existem — um verdadeiro ato de resistência e coragem. João Cândido Zacharias é um desses nomes que conseguiram chegar lá (acompanhado de uma equipe que ele faz questão de elogiar, porque cinema é um ato coletivo, não individual). Em seu primeiro longa, A Herança (2024), ele mergulha no universo do terror, trazendo à cena um casal gay e uma narrativa de horror sólida e bem construída.
Mas, afinal, quem é o criador por trás da criatura? Essa foi a primeira pergunta que surgiu ao assistirmos A Herança, disponível na HBO Max. A resposta veio rápida: uma pesquisa na web revelou entrevistas, reportagens, vídeos e, sobretudo, um Instagram intimista, repleto de memórias, livros, filmes, fotografias e pequenos fragmentos de vida.
Com tão pouco, já havia tanto. E foi aí que decidimos dar o próximo passo: entrar em contato com João e fazer o que a Película mais gosta de fazer — criar encontros. O resultado é esta primeira entrevista com um cineasta que, já em sua estreia, demonstra múltiplas referências do gênero e um olhar singular para o terror. João Cândido Zacharias é o nosso entrevistado.
Pelicula: Nossa primeira e mais importante pergunta é: QUEM É JOÃO CÂNDIDO ZACHARIAS, o criador por trás da criatura?
João: A pergunta mais difícil de todas… Eu sou um cineasta cinéfilo (parece redundante, mas não é), carioca, gay e petista. Mais que isso eu não saberia dizer. Talvez dê pra descobrir algumas coisas vendo os meus filmes.
Pelicula: Todo artista carrega influências que, de certo modo, também são sua herança. No caso de A Herança, quais filmes ou livros atravessaram você como fantasmas criativos e se tornaram parte do legado que moldou a ideia inicial do seu primeiro longa?
João: O cinema trabalha muito com influência, o cinema de gênero mais ainda – a própria palavra remete a isso, a uma série de convenções e regras que os filmes seguem ou subvertem ou ambos. No meu caso, eu sempre gostei muito de terror, desde pequeno, via muitos filmes, lia muito Stephen King (leio até hoje) … Então isso certamente está na essência do filme, de um modo mais subconsciente. Mas eu poderia apontar como influências mais objetivas coisas como o cinema italiano dos anos 1960 e 1970, seja o giallo (Fulci, Argento, Bava), seja filmes mais abertos, como coisas do Dino Risi ou do Elio Petri. Eu também bebi muito na fonte do cinema americano de terror que veio logo depois disso, e que foi influenciado por esses italianos, coisas como Burnt Offerings, com a Bette Davis, ou The Changelling, com o George C. Scott. E também, dentro do audiovisual brasileiro, as novelas certamente influenciaram esse filme, tanto por eu ter crescido vendo (como quase todo brasileiro), quanto por seguir revendo coisas antigas desde que começaram a ser disponibilizadas online (eu estava revendo Tieta e depois Roda de fogo pouco antes de filmar, depois estava revendo Roque Santeiro na época da montagem). Então acho que o filme tem também uma sensibilidade novelesca, eu diria.
Pelicula: Quase um ano após o lançamento de A Herança, há algo que você mudaria no filme se pudesse revê-lo hoje?
João: O cinema, como a política, é um pouco a arte do possível, então acho que qualquer cineasta que você perguntar vai te dizer que imediatamente depois do “corta” a gente já pensa em algo que gostaria de mudar, melhorar, experimentar um pouco diferente. Mas eu fico feliz de assistir ao filme hoje e não me arrepender de nada, não tem nada ali que eu acho que tenha dado errado, que me doa assistir. Eu queria ter conseguido uma canção para os créditos finais, mas não tivemos orçamento para pagar. Essa talvez seja a minha maior frustração, por incrível que pareça. Mas mudar uma coisinha ou outra a gente vai sempre querer. O Rogério Sganzerla até o fim da vida estava montando e remontando os seus filmes. É uma inquietação inerente ao ofício.
Pelicula: Sabemos que produzir cinema no Brasil é, por si só, um ato de resistência, e A Herança evidencia isso ao existir. Gostaria que você nos contasse como foi o processo de produção do filme e, sobretudo, de que forma ele conseguiu se viabilizar financeiramente: houve apoio de leis de incentivo, patrocínio ou foi necessário buscar caminhos alternativos?
João: Sim, a gente tinha dois desafios maiores ainda: ser um filme de terror e eu ser um diretor estreante. Mas todo filme tem suas dificuldades específicas. A gente conseguiu a parceria da Sony, que foi quem financiou o filme, através do Artigo 3º da Lei do Audiovisual, que é o que permite às multinacionais investirem em produção local através de renúncia fiscal. Todo o financiamento do filme veio daí. Era um orçamento apertado para o filme que queríamos fazer, com um apuro visual, efeitos especiais, maquiagem etc. Mas a Tati Leite, produtora do filme, que esteve ao meu lado desde o começo do processo, é muito inteligente e muito sagaz e soube lidar muito bem com essa limitação, sempre trabalhando em prol do filme. Também conseguimos juntar uma equipe muito criativa e cheia de vontade e energia, o que fez toda a diferença.
Pelicula: Do roteiro à primeira exibição, quais foram os maiores desafios de dar vida a A Herança — seja na concepção estética, na produção ou na recepção — e de que forma eles moldaram o filme que o público conheceu?
João: Eu acho que os desafios no cinema estão sempre ligados ao dinheiro, né? Porque quanto mais tempo você tem, mais você consegue depurar o trabalho. E tempo significa dinheiro, então de alguma forma o orçamento influi na estética. No caso do A Herança especificamente, a gente queria fazer um filme de terror com uma linguagem bem específica, um pouco incomum na produção brasileira, e acho que os maiores desafios passaram por aí: pensar em como fazer, na prática, o filme que tínhamos em mente. E nisso volto à equipe para dizer que foi todo mundo muito guerreiro, muito engajado no trabalho, todo mundo estudou muito, entendeu de cara a proposta e fez de tudo para a gente conseguir chegar aonde queria. Com limitações orçamentárias, claro, mas sem nenhuma limitação criativa. Nesse sentido é um filme que deu mais trabalho do que se fosse um drama urbano contemporâneo, por exemplo.
Pelicula: O cinema de terror, sobretudo quando desafia convenções de gênero e identidade, costuma despertar reações intensas, positivas ou negativas. Nesse cenário, você costuma levar em consideração as críticas que recebe? De que forma esses olhares externos dialogam — ou não — com o seu processo criativo e com a relação que estabelece com o público?
João: Eu adoro ler as reações ao filme, boas ou más, sejam críticas ou comentários mais curtos. Eu tenho amigos que detestam, que não tem coragem de abrir o Letterboxd dos seus filmes, mas eu não, eu adoro. E muitas vezes eu gosto mais de um comentário a princípio negativo, mas que entende a proposta do filme, do que um positivo que fala algo mais desconectado. Aliás, eu adoro o Letterboxd, é a minha rede social.
E eu fiz esse filme (e quero fazer sempre) para o mundo, para o público, não é para receber tapinha nas costas e pronto. Então eu gosto sim. Óbvio que tem uma ou outra crítica que pega pesado, que destrói o filme, mas isso é do jogo também.
Pelicula: Em sua declaração para o Metrópoles, você afirmou que ‘tivemos o Mojica… e desde então praticamente nada’, e que o terror brasileiro só agora estaria ‘achando um lugar muito nosso’. A figura icônica de José Mojica Marins — com sua estética perversa, performática e ultra íntima, personificada em Zé do Caixão — continua sendo uma referência quase solitária. Considerando A Herança, que entrelaça horror, melodrama e cinema queer, com uma atmosfera que remete ao terror gótico tropical, o que você acredita que ainda falta no cinema de terror contemporâneo do Brasil para que ele alcance o mesmo grau de potência simbólica e cultural que Mojica conquistou? Você enxerga caminhos — seja em estética, público, distribuição, tradição ou financiamento — que podem permitir nossa geração de cineastas construírem figuras “de culto” tão potentes e duradouras quanto Zé do Caixão?”
João: Eu acho quase impossível a gente ter uma outra figura como o Zé do Caixão, por uma série de fatores, mas principalmente porque isso não acontece mais de um modo geral. Mesmo no cinema de terror americano, o mais popular do mundo, o que é que existe hoje em dias? Pennywise talvez? No Brasil, eu poderia te listar agora, sem precisar pensar, pelo menos dez diretoras e diretores que estão fazendo terror nesse momento. A diferença é que o Mojica, nos anos 1960, tinha uma coisa que nenhum de nós tem, que é uma conexão direta com um público maior. Os filmes dele faziam fila de dar volta no quarteirão. Essa é uma questão que existe no cinema de terror brasileiro contemporâneo: porque ainda não tivemos um filme de terror com sucesso de público? Filmes com esse potencial existem. Mas porque não alcançam o público que vai ver os filmes estrangeiros? Eu não sei te dizer a resposta, ainda é um mistério que a gente precisa resolver, mas sinto que passa por questões de distribuição e marketing.
Agora, um último comentário que eu queria fazer sobre isso: outro dia vi o Rodrigo Aragão (de quem sou muito fã) dizendo que o cinema de terror brasileiro não tem uma cara única. E é verdade, o cinema de terror japonês é facilmente identificável, o italiano, o indonésio… Mas o nosso é múltiplo, você coloca A Herança do lado de Mate-me por favor e As boas maneiras, para pegar três exemplos aleatórios, são propostas de cinema diversas, com suas potências próprias. Eu acho isso muito bonito, o nosso cinema de terror é muito rico, é múltiplo.
Pelicula: João Cândido Zacharias já tem outros filmes na manga e na mente prontos para serem mostrados ao mundo? Nos conte mais sobre os possíveis próximos passos e filmes.
João: Sim, eu estou escrevendo o meu próximo longa, mais na linha do suspense psicológico, e ano que vem vou filmar um documentário. Mas não posso contar muito mais que isso por enquanto.
Pelicula: Caminhando para o final, poderia indicar 5 filmes e 5 livros que você considera leituras e experiências cinematográficas indispensáveis?
João: Fico sempre frustrado de fazer listas, chorando pelo que não entrou. Mas vamos lá… Vou listar 5 filmes de terror que eu vi e revi muito enquanto estava fazendo A Herança: Almas perdidas (Anima persa), do Dino Risi; Premonição (Sette note in nero), do Lucio Fulci; Inferno, do Dario Argento; A casa das janelas sorridentes (La casa dalle finestre che ridono), do Pupi Avati; e Os inocentes (The Innocents), do Jack Clayton. Além dos dois americanos que citei acima. Então roubei, ficam sete!
Agora cinco livros que amo, sem pensar muito, assim de supetão: Childgrave, do Ken Greenhall; A assombração da casa da colina, da Shirley Jackson; Tripulação de esqueletos, do Stephen King; Fugitiva, da Alice Munro; The Sluts, do Dennis Cooper. Nem tudo é terror…
Pelicula: Por fim, JOÃO, que mensagem você deixaria aos jovens que querem fazer cinema no Brasil. Aliás, que mensagem você deixaria ao João de 10 ou 15 anos atras.
João: Pros jovens eu diria para se preparar que não é um caminho fácil. Cinema é um ramo com muitos desafios, que tem aumentado cada vez mais. Mas se você tiver força de vontade e souber lidar bem com as frustrações, pode ser muito, muito, muito gratificante.
Para o João de 15 anos atrás eu diria para seguir correndo atrás, não se abalar tanto com as intempéries. E pediria que por favor comece a fazer exercício físico o quanto antes!
Autor
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Publicitário com segunda graduação em Letras - Português/espanhol e suas respectivas literaturas pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Especialista em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais e Psicologia Analítica Junguiana. Mestre em Poéticas da Modernidade. Doutorando em Comunicação, na linha de pesquisa Mídia e Cultura, pela Universidade Federal de Goiás, bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG). Amante da sétima arte, da psicanálise junguiana, seus arquétipos e, também, da semiótica. Mistura tudo isso para compreender o mundo, a sociedade, a comunicação, o cinema, a literatura e as inter-artes.
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