HOMOSSEXUALIDADE E LUTA ANTICAPACITISTA NO CINEMA QUEER GAÚCHO: UM DIÁLOGO COM VICTOR DI MARCO

 

Utilizando o seu corpo com deficiência como uma linguagem artística, Victor Di Marco reivindica, conforme o próprio artista nos relata, a deficiência como uma inteligência corporal — e não como uma falta ou fraqueza. É um ator, diretor e roteirista DEF. Possui trabalhos em colaboração com o seu marido, Márcio Picoli. Entre eles, o seu primeiro longa-metragem, intitulado London (2026), um dos vencedores do prêmio Leão Queer, no Festival de Veneza.

Entre suas obras também se destacam os curtas-metragens O que Pode um Corpo? (2020), Possa Poder (2022) e ZAGÊRO (2024). Os filmes participaram de mais de cem festivais, tanto nacionais quanto internacionais, como, por exemplo, Festival de Cinema de Gramado, Kinoforum, Curta Cinema, Festival de Cinema de Vitória, Santa Barbara Film Festival, Vancouver Queer Film Festival e Melbourne Queer Film Festival. As obras de Victor Di Marco conquistaram mais de 50 prêmios do Júri Oficial, da crítica e do público. Entre eles, o Grande Prêmio Canal Brasil, Melhor Direção no Mix Brasil e seis prêmios de Melhor Ator, categoria na qual Victor foi premiado duas vezes no Festival de Cinema de Gramado, em 2022 e em 2024, sendo o primeiro ator com deficiência a receber a premiação.

Victor Di Marco também é escritor, tendo publicado o livro Capacitismo: o mito da capacidade (2020), no qual conta a sua trajetória enquanto homem gay e pessoa com deficiência, levantando também discussões sobre diferentes formas de capacitismo. Nesta entrevista, realizada de forma on-line no dia 22 de outubro de 2024, Victor Di Marco nos conta sobre alguns dos momentos que marcaram a produção de London como, por exemplo, as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul no ano em questão. Durante o nosso diálogo, ele também discute os desafios da luta anticapacitista no cinema, particularmente no cinema gaúcho, e o capacitismo que ainda existe no mercado e nas políticas públicas voltadas ao campo cinematográfico. O artista também relata lembranças e referências que marcaram a sua trajetória, abordando temáticas e elementos estéticos presentes em suas produções, bem como potências e contribuições políticas de seus filmes.

Frame do filme London (2026) de Victor Di Marco e Márcio Picoli.

 

Victor, primeiramente, nós gostaríamos de pedir para você contar como você começou a se interessar por cinema. Quais foram as suas primeiras referências desde o início da sua formação? 

Eu comecei a me interessar por cinema… na verdade, foi um caminho meio estranho que eu fiz, porque eu sempre quis fazer o curso de Artes Visuais, só que, na época que eu queria fazer o curso de Artes Visuais na UFRGS, era obrigatório fazer uma prova de desenho e de observação, mas eu não tinha como fazer essa prova por conta da minha deficiência. Eu entrei com um recurso na UFRGS, só que esse recurso foi negado, pois o grupo de professores achou que seria injusto abrir uma exceção para mim, e aí eu não pude fazer a faculdade de Artes Visuais. Eu sempre fui muito ligado em artes, eu sempre gostei muito de fazer videoarte e sempre gostei muito de me colocar nas minhas videoartes, enquanto um ambiente de pesquisa também. Eu sempre gostei muito de investigar o meu corpo, antes mesmo de ter a noção de ser um corpo com deficiência. Eu sempre achei muito interessante investigar o que era um corpo e o que podia um corpo, que depois ia ser o nome do meu primeiro filme, inclusive. Então foi através das minhas videoartes que eu segui fazendo arte, mesmo não podendo cursar artes visuais. E eu acabei conhecendo o Márcio, que é o meu namorado, meu marido, e a pessoa com quem eu trabalho junto. O Márcio, na época, era crítico de cinema. Ele me apresentou o mundo do cinema, eu me encantei, e, na verdade, eu comecei a perceber que era algo que sempre esteve muito nítido em mim, porque eu fiz cursos de teatro desde muito pequeno. Eu sempre quis ser ator, só que essa minha vontade de ser ator foi adormecendo, ao passo que sempre que eu ia nesses cursos de atuação, que visavam algo mais profissional, os professores sempre me diziam que não teria como fazer [o curso] por eu ter uma deficiência, então eu fui deixando isso de lado, até o ponto que entra minha depressão no meio. Eu me entender enquanto uma pessoa com deficiência, eu entender o quanto a minha deficiência é uma inteligência, que pode ser uma linguagem do meu corpo e, aí sim, voltei ao teatro, e uni o teatro com o cinema, e também uni com a videoarte, porque eu, nas videoartes, já me colocava enquanto um performer, não enquanto um ator, mas enquanto um performer, até lançar o meu primeiro filme, em 2020. Acho que esse é um bom resumo.

 

E você é ator, diretor e roteirista. Poderia falar sobre esses três trabalhos, que – em muitos momentos – ocorrem ao mesmo tempo?

Durante o final de julho e o início de agosto, eu rodei o meu primeiro longa-metragem, e aí eu falava “gente, eu quero só atuar, quero só atuar”, e as pessoas: “não, tu é um diretor muito sensível, tu não poder parar de dirigir”, mas é muito louco como eu me tornei um diretor, porque não tem oportunidade para atores com deficiência. Às vezes, é meio cansativo ficar falando sobre isso, mas, enfim, não tem como eu falar da minha história sem colocar esses recortes. Então, como não há espaço, realmente não há oportunidade no mercado para atores e artistas com deficiência. Eu me fiz diretor, eu me vi diretor, nesse ponto de me dar a minha própria oportunidade, mas foi também um trabalho muito interessante, porque, de novo, eu percebi que eu já tinha uma visão de direção, [desde] quando eu fazia as minhas videoartes, antes de ir para o cinema. Fazia também roteiro, enfim, eu fazia tudo. Eu era meio que um cinema de um homem só fazendo videoarte. Então, eu percebi que eu já tinha essa visão de direção e, hoje, eu entendo esse meu trabalho de ator, diretor e roteirista, porque eu também entendo que não se separa a vida pessoal da “vida obra de arte”. Isso é impossível de separar. Não tem como separar e a minha também não se separa, porque eu faço do meu corpo a minha linguagem, do cinema também. Então, a minha visão de direção, ela está intrinsecamente conectada com a visão e com a ética que eu tenho sobre o meu corpo. Esse trabalho de atuação, direção e roteiro, ele se dá de uma forma muito caótica, mas é um caos muito organizado, eu não tenho uma ordem do que surge primeiro. Às vezes, me surge uma vontade muito grande de fazer o personagem. Às vezes, me surge uma cena. Às vezes, me surge o roteiro completo, então eu não tenho muito assim… como que se dá, mas ele se dá dessas minhas vontades que eu vou vendo, e, principalmente, daquilo que eu quero me ver, e daquela imagem que eu quero reconstruir. Quando a gente fala de cinema, ainda mais hoje, que nós estamos vendo uma era de imagem muito forte, que eu costumo falar: a imagem é poder. Então, se a imagem é poder, que tipos de imagem eu estou criando? Que tipos de poderes eu estou querendo reforçar, ou que eu estou querendo enfraquecer, com as imagens que eu, enquanto diretor, roteirista e ator, estou criando e deixando na história do cinema? Eu não sei se eu respondi, mas acho que esse é o processo.

 

E, falando em barreiras, como você percebe o mercado de cinema no Rio Grande do Sul? 

Eu tenho sete anos de carreira no cinema, mas oficialmente eu tenho quatro, quando eu lancei O que pode um corpo (2020), meu primeiro filme. A minha carreira começou no circuito comercial em 2020, antes eu estava estudando. Enfim, o que eu percebo é que a gente teve vários avanços em questões de pautas de diversidade no cinema, em questão de mulheres, de pessoas LGBT, de pessoas pretas, mas parece que a questão das pessoas com deficiência nunca chega, que ela nunca é levada a sério. Ela nunca é levada como uma pauta, como um assunto a ser discutido, a ser visto. Em 2024, a gente começou a ter uma queda dessa preocupação com a diversidade. Isso já é uma realidade, tanto no cenário nacional quanto internacional. A gente está discutindo, e está discutindo muito, sobre o quanto essa queda da diversidade já é um dado real, do tipo que o mercado, o capital, acha que já fez a sua parte, que já pode voltar a ser o que realmente é, e isso já está acontecendo. Eu gosto muito de um termo da Luh Maza, ela é uma roterista e atriz, ela é uma travesti negra, e ela fala da “primavera árabe do cinema negro”, nessa questão que houve um boom disso, que houve um interesse, um cuidado, de as pessoas terem essa diversidade e que isso, agora, já está caindo, e eu vejo que isso está acontecendo com as questões de mulheres, com as pessoas LGBT, mas a questão de pessoas com deficiência nem sequer isso teve. A gente nem teve a oportunidade de ter o nosso boom, a nossa entrada, e eu sempre identifiquei muito isso, porque, de novo, antes de lançar o meu primeiro filme, em 2020, eu sempre fui muito em festivais de cinema com o Márcio, que era crítico. E eu sempre tentava levantar esse debate, eu sempre acompanhei os debates depois dos filmes, eu sempre tentava falar com os curadores, e esse debate nunca era escutado. Eu era completamente ignorado e silenciado. Isso aconteceu em vários episódios. Isso é uma coisa que sempre aconteceu e acontece até hoje. Por exemplo, um caso muito famoso é o do Festival de Cinema de Gramado, que, no ano de 2022, a Bella Bauer, atriz e diretora de arte, que é uma mulher surda e minha amiga, foi no palco do festival e leu uma carta, no ano em que eu ganhei, inclusive, o meu primeiro prêmio de Melhor Ator em Gramado. Ela subiu no palco e leu uma carta falando sobre o fato de que ela não tinha conseguido assistir a nenhum filme, porque nenhum filme tinha legenda, e aí é só ver o que mudou desde 2020 pra cá. Esse ano ela foi de novo no festival, ela não conseguiu assistir a um terço dos filmes, porque o festival ainda não colocou como obrigatório. No ano em que a Bella leu essa carta, nenhum sindicato, nenhuma organização do cinema gaúcho, se dispôs a ajudar e a somar nessa luta, e a gente sabe que se fosse, e eu tomo muito cuidado para falar isso, mas é a verdade, que se fosse uma outra pauta, a gente sabe que o modo de tratamento seria completamente diferente. Então, de novo, o mercado de trabalho é o reflexo de como as pessoas ainda percebem e ainda enxergam artistas com deficiência, que é uma subcategoria, que eu acho que a gente está falando, que a gente está pedindo inclusão, e ainda não conseguiu acessar. A gente tem toda uma enciclopédia que já vem sendo feita há mais de 50 anos, do quanto a deficiência, e aí eu falo as deficiências, que são várias, são postas enquanto linguagem nas artes, e no cinema também. A gente não consegue ainda debater isso, porque a gente fica debatendo o básico, que é pedir por acessibilidade. Isso é uma das coisas mais cruéis que o meio faz com a gente, que é nos colocar enquanto essas pessoas chatas, e isso nos tira a possibilidade de a gente mostrar que a gente é muito mais do que isso. A gente estuda cinema, a gente está inovando o cinema, junto com outras pessoas, a gente está repensando como que a acessibilidade, ao invés de ser um acessório, pode ser uma linguagem, mas, como a gente ainda não tem esse espaço, a gente está falando sobre o básico, a gente não consegue mostrar o que a gente realmente está fazendo, então o mercado de trabalho está nessa penumbra:  a gente batendo na mesma tecla, porque o básico ainda não foi superado. As pessoas ainda não sabem o que significa capacitismo, então, a gente está abaixo do básico.

 

E, além das questões que você levantou sobre os festivais de cinema, o que mais que tem sido falado, nos festivais de cinema, sobre os seus filmes? Como eles têm sido recebidos?  

Assim, isso é uma questão que eu acho muito curiosa e muito bonita também, porque, modéstia à parte, essa parte eu não posso reclamar – sobre circulação e aceitação dos meus filmes, porque eles estão com uma circulação muito forte, e eles têm recebido muito reconhecimento. Eu acho que isso se deve muito ao trabalho de toda a luta coletiva, mas, essa específica, eu acho que existiu uma grande parte minha e eu levei muito tempo até reconhecer isso, porque, desde 2019, eu comecei a falar com cada curador de cada festival de cinema no Brasil. Acho que não tem nenhum curador que não me conheça, falando sobre a importância de se ter filmes sobre pessoas com deficiência no cinema, nos festivais. Eu comecei a levar essa pauta, comecei a sensibilizar essa pauta, comecei a colocar em discussão, comecei a fazer esse trabalho nos lugares onde não queriam falar sobre isso. É um caminho muito pequeno, vou dar um exemplo. Na maioria dos festivais de cinema, quando se inscreve um filme, existe uma tabela de diversidade, que é: você é uma mulher, você é uma pessoa preta, você é uma pessoa LGBT, mas nunca tinha se você é uma pessoa com deficiência. Eu fui lá, em todos os festivais, um por um, ano por ano, pedindo para colocar. É um trabalho que cansa, é muito cansativo, mas eu acho que também a circulação que os meus filmes têm feito, acho que é muito por isso também, uma insistência minha muito grande. Não tem como eu falar que não, e também uma luta de muitas pessoas que vieram antes de mim e que foram silenciadas de um modo absurdo, e que hoje, se eu tenho o privilégio de poder gritar, é porque tiveram muitas pessoas que não puderam gritar. Eu sempre costumo dar um exemplo de subir no palco de um festival, porque teve gente que não teve um elevador ou uma rampa para subir no palco e poder ser ouvido, e eu posso hoje subir no palco e falar o que eu bem entender, sabe? Então é uma luta que vem de muito tempo; eu nunca estou sozinho quando eu subo no palco e falo sobre deficiência.

 

E, em relação aos editais de financiamento, como você percebe a contemplação de pessoas com deficiência? Ainda existe uma disparidade muito grande? Poderia comentar também o que você pensa sobre cotas e sobre as pontuações extras que também estão surgindo nos últimos editais.

Sobre cotas de pessoas com deficiência: é algo muito recente. O primeiro edital com cotas para pessoas com deficiência foi em 2022, que foi o Edital FAC Filme, no qual, inclusive, o meu longa-metragem foi contemplado. Foi o primeiro edital com cotas para pessoas com deficiência. Faz dois anos. De lá pra cá, as coisas… Isso eu não digo pela classe de pessoas com deficiência, estou falando eu, o Victor, a meu ver, as coisas pioraram de 2022 pra cá. Houve, por exemplo, recentemente, o edital da Lei Paulo Gustavo, que não tinha cotas para pessoas com deficiência. O edital da Lei Paulo Gustavo tinha cotas para pessoas pretas e indígenas, se não me engano, e o que tinha era uma pontuação extra, que incluía também pessoas pretas e indígenas, mulheres e LGBTs, então não era cota, né? Era um ponto extra. E, além disso, eles quiseram dar uma de inclusivos e colocar que 10% do orçamento teria que ser usado para acessibilidade, o que só comprova que eles não sabem do que estão falando, porque não é todo projeto que vai precisar utilizar 10% do seu orçamento em acessibilidade. Quando eu fui ler o edital, eu percebia que eles não sabiam nada do que estavam fazendo, porque havia uma parte sobre as medidas de acessibilidade com as quais o projeto iria contar, e tinha muita coisa. Havia, por exemplo, piso tátil, mas, em um edital de desenvolvimento de longa-metragem, por exemplo, havia coisas que não faziam sentido. Eles reuniram todas as acessibilidades urbanas que existem e colocaram em um edital, sem perguntar, sem saber o que é. E o que isso gerou? Isso gerou a loucura que foi quando saiu a Lei Paulo Gustavo. Muita gente vindo atrás de mim e de outros artistas com deficiência, querendo nos colocar como consultores de acessibilidade, ou seja, as minhas amigas que são diretoras de arte, diretoras de foto, atrizes, elas não foram chamadas no projeto para exercerem essas funções; elas foram chamadas para serem consultoras de acessibilidade, assim como eu também, porque as pessoas não tinham noção do que era aquilo e, mais uma vez, isso nos coloca como uma coisa à parte, porque ninguém nem sabe, as pessoas não sabiam o que era. Então, a gente andou, na minha visão, muitas casinhas para trás com esse modelo de edital. O que eu vou falar agora corrobora com o que eu estava falando antes: de nada adianta a gente ter um edital que se preocupa com a acessibilidade, se a gente não tem um mercado que está educado para isso. A gente tem um mercado em que as pessoas não sabem o que é acessibilidade. As pessoas não sabem o que é legenda, o que é Libras, o que é audiodescrição. É muito complexo, por isso sempre falo: não tem como a gente ter um avanço em um edital sem ter uma formação e uma reeducação desse mercado que não está acostumado e que não sabe lidar com um profissional com deficiência, porque nunca teve que lidar, mas agora vai ter que lidar.

 

Outra questão relacionada ao mercado que, inclusive, você menciona no seu livro Capacitismo: o mito da capacidade é o Cripface. Você poderia explicar o que o termo significa e quais são as problemáticas que o envolvem?

Esse é um debate bastante polêmico. Falando na comunidade de pessoas com deficiência, ainda não há um consenso, mas o que seria Cripface? Seria um ator ou uma atriz que não tem uma deficiência fazer um papel ou interpretar um personagem com deficiência. Isso estaria para o Blackface. Isso estaria para o Trans Fake, por exemplo. A questão não é nem se um ator sem deficiência pode ou não fazer um personagem com deficiência. Acho que isso é o de menos, porque acho que ser ator ou ser atriz é a gente poder ser o que vier do personagem, mas a minha questão é que a gente ainda não está em um ponto em que atores e atrizes com deficiência possam fazer personagens que não tenham deficiência. Por exemplo, se eu for chamado para fazer um papel que não tenha nada a ver com a minha deficiência, aí a gente pode começar a pensar e falar que talvez o Cripface não seja tão errado. Mas, como para isso ainda falta muito, porque a gente nem sequer é chamado para fazer um papel, e quando é chamado, é sempre chamado para fazer papel de um personagem com deficiência. É para [mudar] isso que a gente luta… a gente luta para a gente ser chamado para fazer qualquer papel. E a gente não tem que ficar condicionado a fazer papel só de personagens que tenham deficiência.

 

E, saindo um pouco do cinema gaúcho, mas ainda sobre cinema e luta anticapacitista, você poderia comentar sobre o filme Assexybilidade (2024, dir. Daniel Gonçalves)? 

Sim, eu conheço o Daniel há mais de cinco anos. Eu conheci o Daniel quando ele lançou o primeiro longa-metragem dele, que é o Meu nome é Daniel (2018), que é um filme autobiográfico, sobre ele e a deficiência dele. E eu assisti o Assexybilidade quando eu estava participando da curadoria do MixBrasil no ano passado. Eu gostei do filme. Acho que sempre que a gente se encontra, a gente tem algumas divergências sobre fazer cinema, o que eu acho ótimo, porque, enfim, porque não é porque nós dois temos deficiência que a gente vai ter a mesma visão sobre tudo. Mas Assexybilidade é um filme que, pelo que eu estou percebendo do feedback das pessoas, está virando muitas chaves, porque as pessoas não estão acostumadas a ver as pessoas com deficiência falarem o que está sendo discutido pelo filme. Então, acho que ele está cumprindo um papel muito inicial nesse debate, mas que, ao mesmo tempo, já existem discussões muito avançadas. Eu acho que ele consegue balancear isso de um jeito muito legal, porque esse também é o nosso desafio. Enfim, a gente quer falar sobre coisas… A gente já está a anos-luz em uma discussão, mas a gente tem que lembrar que o público está ainda no básico. Então, como balancear isso nos nossos filmes? Eu acredito que o Daniel também passa por esse desafio.

 

E como você percebe o cinema queer em relação ao capacitismo e à luta anticapacitista? Tanto o cinema queer gaúcho quanto de maneira geral. 

Sobre o cinema queer gaúcho. Vão falar que o Victor está se achando, mas assim… se a gente tirar os meus filmes e os filmes do Márcio de circulação, e ver os filmes queer gaúchos dos últimos 20 anos, não há nenhum que tenha alguém com deficiência ou que fale sobre isso. Então falar de cinema queer gaúcho e sobre as pessoas com deficiência: não, não tem. E, assim, não há nenhuma citação sobre isso também. Ou quando há uma citação é aquele lugar sobre “o meu avô que ficou cego, a minha avó que não pode mais andar”. É sempre nesses lugares que combinam muito com um etarismo muito grande também, né? Então, eu acho que não existe. Agora, quando a gente vai para o âmbito nacional, embora o cenário não mude muito, a gente tem um caso que – acho que é o único caso, na verdade – que foi de grande repercussão e que, inclusive, é o que eu tenho o pôster aqui atrás, que foi o Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014). Ouso dizer que foi o primeiro filme queer com um personagem com deficiência lançado no Brasil. Quando eu vi esse filme, eu estava no colégio ainda, e eu me lembro da sensação no cinema. Eu nunca vou me esquecer. Foi uma amiga minha que me levou, e eu não sabia nada do filme, mas ela falou: “Tu tem que ver esse filme, tu tem que ver esse filme”. Eu me lembro que eu fiquei muito encantado, porque foi a primeira vez que eu vi algo muito próximo de mim em uma tela. Eu me lembro que, na época, eu era uma criança entrando para a adolescência, e eu falei: “Gente, eu posso namorar. Uau, um dia eu vou encontrar alguém”, sabe? Foi superimportante. Também foi o único, né? Se a gente for para curtas-metragens, por exemplo, há alguns curtas que colocam a pessoa com deficiência mais no cenário emocional, mas fazendo a cruza com o cinema queer, não há. Eu me lembrei agora, também, de um outro filme que eu assisti em Gramado, que era um filme, se não me engano, da Mirela Kruel, que era um filme sobre feminicídio, mas acabava pautando a questão de uma mulher que acabou se tornando uma pessoa com deficiência, por questões de violência doméstica, então, acabava entrando no tema de deficiência. Se não me engano, o nome desse filme é Carol (2016), mas eu posso estar enganado. Enfim, assim, eu estou tentando me lembrar de coisas, mas cinema queer e deficiência no cinema gaúcho, tirando os nossos filmes, não tem. Não falo isso de um lugar de soberba, mas eu acho que é um lugar quase de denúncia, de que não houve antes.

 

No seu livro, você aborda a sua própria experiência, como um homem gay e uma pessoa com deficiência. Poderia falar sobre a forma como a sua experiência aparece no seu trabalho? Anteriormente, você também mencionou que a sua vida, e o que você expressa artisticamente, estão muito ligados. 

Eu sempre tento colocar muita sexualidade nos meus trabalhos. Isso é uma coisa que eu acho que eu já entendi há muito tempo em terapia. E, de novo, do que a gente falou no início do poder da imagem. A imagem que a gente tem de um corpo com deficiência é um corpo sozinho, um corpo doente, um corpo que sofre, e eu sempre quis criar uma imagem desse corpo sendo alguém bonito e gostoso, que faz sexo, que pode sorrir e se divertir com amigos, que pode beber, pode cantar e pode ser o que quiser. Então a minha sexualidade entra na minha carreira no cinema nesse sentido: de criar uma imagem sobre mim, mas que não é sobre mim. É uma imagem sobre o meu trabalho, é um recorte com tudo que eu já vi e, infelizmente, ainda vejo, de corpos com deficiência no cinema. Quando a gente fala sobre cinema queer, e a gente começa a estudar, por exemplo, a Teoria Crip, do Robert McRuer, ele fala que a Teoria Crip é uma superação da Teoria Queer, porque o corpo com deficiência é um corpo que explode qualquer signo e qualquer categoria existente. É isso que eu estava colocando com os filmes. Quando a gente fala, por exemplo, de eugenia. O cinema queer pode falar sobre a adoção de filhos de um casal de um mesmo sexo. Como vai ser esse filho? Será que esse casal gay, na hora de escolher um filho, vai colocar que o filho não pode ter deficiência? Enfim, essa é uma das coisas, né? A Teoria Crip, ela vem para implodir, não é explodir, é implodir. É implodir noções de corpo, de norma e de funcionalidade, principalmente, que eu acho que a Teoria Queer faz muito: repensar a funcionalidade do sexo. Já a Teoria Crip pensa a funcionalidade do corpo em si. Do corpo enquanto ética, não enquanto matéria, sabe?

 

Em relação à política, você fez um post no Instagram, alguns anos atrás, mencionando que a direita acaba muitas vezes se aproximando mais das pautas relacionadas às pessoas com deficiência. 

Foi na pandemia, né? Foi a época em que eu passei um ano e meio fazendo conteúdo digital. Enfim, eu fiz o post e é muito verdade quando a gente vai ver, por exemplo, quais são os políticos que pautam as pessoas com deficiência. A maioria são políticos de direita, por quê? Porque a direita, ela está muito acostumada a usar uma tática do medo, uma tática de compaixão também, né? E os corpos com deficiência geram muita compaixão e geram muito medo também. Tipo: “você quer ser assim? Uma pessoa com deficiência?”. Ao mesmo tempo, é aquela coisa de uma caridade excessiva, de uma ajuda excessiva, que é bem um modo como as pessoas ainda enxergam os nossos corpos, e como a direita consegue, de um modo muito brilhante, infelizmente, captar essa artimanha e fazer com que ela dê certo. A esquerda, aos poucos, está começando a olhar para isso. Aos poucos, está começando a se inteirar um pouco sobre questões anticapacitistas. E começando a apontar pessoas com deficiência no centro da narrativa, porque é aquela velha história: a política de pessoas com deficiência sempre foi feita para nós e nunca conosco. E, de novo, quando a gente fala sobre o edital da Lei Paulo Gustavo, o edital é feito para nós, mas que nunca nos foi consultado, não foi conosco, então a gente ainda continua reproduzindo esse mesmo jeito de se fazer política. Um edital público não deixa de ser política.

 

Existe alguma questão que você gostaria de abordar nos seus próximos filmes e que não perguntamos? Poderia adiantar alguma coisa sobre o seu longa-metragem?

Eu tenho três argumentos de longas-metragens escritos, eu só não sei para qual eu vou me dedicar. Eu tenho muita vontade de fazer uma autoficção, da minha infância, e muito mais abordando a minha sexualidade do que a minha deficiência, porque eu também tenho muita vontade de falar não apenas sobre deficiência. E também há um outro tema que eu quero explorar ainda mais, que é explorar a deficiência no Body Horror. Uma coisa que eu venho pensando há muito tempo, porque sempre que a gente vai ver um filme de Body Horror, o corpo com deficiência é sempre a experiência final, né? É sempre aquilo que deu errado. Um monstro é um corpo disforme. Um monstro é um corpo sem pernas. Então, eu estou tentando repensar como seria um Body Horror em que a deficiência fosse o êxtase e fosse a vitória, e não a derrota, mas ainda é algo que eu estou em processo agora. Eu não sei se eu tenho a maturidade de carreira ainda para fazer, então eu ainda estou criando isso. Em relação ao meu primeiro longa-metragem, que foi dirigido e criado com o Márcio, o filme se chama Nós a Sós (posteriormente alterado para London). Nós o gravamos no fim do mês de julho e no início de agosto; foram 25 diárias. A gente foi muito afetado pela enchente, né? Íamos rodar o filme no mês de maio, mas, no nosso último dia de pré-produção, ocorreu a enchente. Então, a gente mudou questões financeiras e materiais, lidando com questões psicológicas. E aí, nós voltamos a rodar dois meses depois. O filme conta a história de London, que sou eu quem interpreta. Eu dirijo, roteirizo e sou o ator principal. London é um jovem com deficiência. Ele trabalha em uma boate, em que ele faz algumas sessões eróticas de BDSM. No meio dessa história toda, o London tem a chance de saber a origem e o futuro da deficiência dele, por meio de um exame médico. A trama do filme aborda como a Medicina enxerga um corpo. O filme tem também um momento que está sendo muito discutido. A patologização é algo muito maléfico para nós, e como está virando moda agora, todo mundo tem um CID, uma patologia, e como isso foi uma luta de muitos anos para nós sairmos dessa linha de patologia, né? O filme aborda a questão de ser uma pessoa com deficiência, de como a Medicina enxerga um corpo com deficiência, de como uma pessoa com deficiência ama, de como uma pessoa com deficiência pode trabalhar no sexo e ganhar dinheiro, sendo um trabalhador do sexo, que é o que o London é. Também têm questões familiares, mas, sobretudo, é também um filme sobre essa jornada de entendimento e de autoconhecimento do London. De ele perceber como ele quer lidar com o corpo dele, se ele vai querer lidar através de uma ótica médica, ou através de um próprio olhar, de uma própria ética, que ele quer ter sobre ele mesmo. A gente está agora em processo de montagem ainda, o filme vai ser distribuído pela Vitrine Filmes, e a gente ainda não tem data de nada, porque agora a gente está lutando também para conseguir dinheiro para finalizar o filme, porque como a gente teve muito prejuízo na enchente, a gente acabou tendo que realocar o dinheiro que era da pós-produção. Então, a gente está nesse meandro, mas um dia o filme vem ao mundo, com certeza.

 

Poderia comentar um pouco sobre como é trabalhar com o Márcio? Como é a sua parceria com o seu marido? 

É muito bom, porque eu sou uma pessoa muito nas nuvens, e o Márcio é uma pessoa mais realista, mais pé no chão. Eu acho que eu tenho um turbilhão de ideias na cabeça, e o Márcio consegue organizar elas de um jeito que faça sentido. E, como eu atuo nos filmes, é sempre muito bom ter alguém em quem eu confie para além da ação de ator e de diretor, alguém em que eu confie para a vida. Porque é aquela coisa, quando a gente está atuando, há muitas crises, de achar que não está bom, então é sempre bom ter o Márcio lá para ver e dizer que chega, que deu, que tá bom, então é assim que tem funcionado a nossa parceria até hoje.

 

E, para finalizar, quais perspectivas você destacaria para o cinema? Você mencionou, por exemplo, em se fazer política com as pessoas com deficiência. Poderia comentar sobre políticas públicas e sobre como seria possível avançar mais na luta anticapacitista?

Esses tempos, eu participei de um doc que a Bella, inclusive, está fazendo agora sobre as pessoas com deficiência no cinema, e ela falou que, de todos que ela entrevistou, eu fui o mais pessimista, porque eu não vejo uma ascensão, eu não vejo uma “Primavera”, como a Luh Maza falou. Eu não vejo um momento em que se tenha falado muito sobre isso. Eu me lembro muito da RuPaul, uma drag queen dos Estados Unidos que, hoje em dia, tem muitas franquias do reality show dela. Eu acho que hoje em dia, inclusive, ela já deve ter se contradito com o que falou, mas ela dizia muito que o fenômeno do ser e do fazer drag nunca ia ser algo do mainstream, porque, caso algum dia se tornasse algo do mainstream, ia perder o significado de ser drag. Eu desconfio, e isso é uma hipótese minha, eu não sou acadêmico, mas se eu fosse, eu lançaria essa tese, de que acredito que o corpo com deficiência nunca vai ser pop, porque acho que ser pop vai perder um pouco esse sentido que criaram para nós. Sonho em estar errado, eu quero muito estar errado, mas eu acredito muito que é essa eterna luta, essa eterna queda de braço, e eu falo disso, porque o corpo com deficiência desafia uma coisa muito forte, que é o sistema capitalista. O corpo com deficiência tem um outro tempo e uma outra jornada de trabalho, que requer que se repense toda a ideia do que é trabalho, do que é eficiência, do que é jornada de trabalho e do que é hora de trabalho. E lutar contra o capitalismo não é fácil, então, por isso que eu acredito que já é algo muito difícil, mas espero estar errado. Tomara que essa minha fala seja vista como: “Ah, que engraçado, o Victor estava errado”, mas acho que não é assim. 

 

 

REFERÊNCIAS

 

MARCO, Victor Di. Capacitismo: o mito da capacidade. Belo Horizonte: Letramento, 2020.

 

MARCO, Victor Di. Instagram: @victordimarco. 

 

Autores

  • João Paulo Wandscheer

    Doutorando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bolsista Capes. É também integrante do ARTIS – Grupo de Pesquisa em Estética e Processos Audiovisuais (CNPq).

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  • Helena Lukianski

    Doutora em Comunicação (Universidade Federal do Rio Grande do Sul / PPGCOM). Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e mestra em Comunicação Social (PUC-RS).

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  • Marco Antônio Bourscheid Júnior

    Mestrando em Comunicação pelo PPGCOM da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado em Relações Públicas pela mesmo universidade. Integrante do ARTIS - Grupo de Pesquisa em Estética e Processos Audiovisuais, registrado junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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